Pandemia nos jovens

Covid-19 ‘perdeu’ por 5-39 contra doenças respiratórias

people in white shirt holding clear drinking glasses

por Pedro Almeida Vieira // fevereiro 9, 2022


Categoria: Exame

Temas: Saúde

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A cobertura mediática, muitas vezes alarmista, sobre os efeitos da covid-19 nos jovens está a ignorar um facto essencial: os internamentos e as mortes por doenças respiratórias em menores de 25 anos, mesmo sendo eventos muito raros, têm sido em muito maior número desde o início da pandemia. E há ainda um paradoxo: antes da pandemia, os números das doenças respiratórias ainda eram maiores. E mesmo se se juntar a esta contabilidade, para avaliar o verdadeiro impacte da pandemia, os números da covid-19.


A pandemia da covid-19 está a ter um impacte paradoxalmente benéfico nas faixas etárias dos bebés, crianças, adolescentes e jovens adultos. De acordo com a análise do PÁGINA UM à base de dados pública do Serviço Nacional de Saúde (SNS) da morbilidade e mortalidade nos hospitais portugueses, desde o início da pandemia até Outubro do ano passado, a covid-19 não só tem mostrado ser doença relativamente benigna para os mais jovens, como tem indirectamente reduzido o número de vítimas causadas pelas doenças respiratórias.

Com efeito, os dados do SNS mostram, de forma inequívoca, que a covid-19 foi responsável, nos primeiros 20 meses da pandemia, pelo internamento de 1.022 menores de 25 anos, uma quantidade muito inferior à registada por doenças respiratórias: 11.344, no mesmo período.

No caso de mortes, as diferenças são também colossais, mas ainda mais relevantes, segundo os registos de óbito do SNS, que não são exactamente coincidentes com os números divulgados pela Direcção-Geral da Saúde (DGS).

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No período em análise, a covid-19 terá sido a causa da morte de uma criança com menos de um ano – falecida no Centro Hospitalar (CH) de Lisboa Central em Setembro de 2020 –, outra com idade entre 1 e 4 anos no CH do Algarve em Agosto do ano passado, e mais três jovens entre os 15 e 24 anos – um em Outubro de 2020 no Hospital Beatriz Ângelo, em Loures; outra no CH de Lisboa Norte, em Fevereiro do ano passado; e ainda outra no CH de Gaia-Espinho, em Agosto também do ano passado. Ou seja, cinco óbitos.

Morte por doenças respiratórias, durante o mesmo período, foram 39 – quase oito vezes mais. Não houve para nenhuma destas mortes qualquer relevância mediática. Mais estranho ainda porque estão também em causa, em muitas destas situações, crianças de tenra idade. Se até aos 5 anos, a covid-19 levou apenas duas crianças – seguindo os dados do SNS –, já as doenças respiratórias tiraram a vida a três bebés com menos de um ano, e a outras três com idades entre 1 e 4 anos.

No primeiro grupo etário, os óbitos por doenças respiratórias ocorreram no Hospital de São João (Porto), em Julho de 2020, no CH de Entre Douro e Vouga, no mês seguinte, e no CH de Lisboa Norte, em Fevereiro do ano passado. No segundo grupo observaram-se duas mortes em Março de 2020, logo no início da pandemia, um no CH de Lisboa Norte e outro no Hospital de São João, e uma terceira em Janeiro do ano passado, também no CH de Lisboa Norte.

No grupo etário seguinte – dos 5 aos 14 anos –, a covid-19 não matou ainda, apesar da pressão para os pais vacinarem os seus filhos, mas as doenças respiratórias foram mais inclementes: nove óbitos registados em hospitais do SNS entre Março de 2020 e Outubro do ano passado.

Número de internamentos por covid-19 e por doenças respiratórias (DResp) entre Março de 2020 e Outubro de 2021, e nos dois períodos homólogos imediatamente anteriores à pandemia. Fonte: SNS.

Para a faixa etária subsequente, a menor gravidade da covid-19 ainda se mostra mais evidente: os três óbitos que causou nos primeiros 20 meses da pandemia contrastam com as 24 mortes provocadas por doenças respiratórias.

Porém, apesar desse impacte das doenças respiratórias nos mais jovens – mas mesmo assim pouco relevante em termos de Saúde Pública, porquanto os menores de 25 anos são quase 2,5 milhões de habitantes –, curiosamente o surgimento do SARS-CoV-2 teve como consequência directa uma redução significativa dos internamentos e mortes neste grupo etário por causa de problemas respiratórias. E mesmo se juntarmos covid-19 às doenças respiratórias.

Na verdade, comparando os internamentos integrados de covid-19 e doenças respiratórias nos primeiros 20 meses da pandemia (Março de 2020 a Outubro de 2021) com os dois períodos homólogos imediatamente anteriores – em que “somente” havia doenças respiratórias – constata-se que o surgimento do SARS-CoV-2 quase foi uma “bênção” para bebés, adolescentes e jovens adultos. E não só nos internamentos; também os desfechos fatais diminuíram bastante.

De facto, juntando covid-19 e doenças respiratórias, o SNS contabiliza nos primeiros 20 meses da pandemia um total de 12.366 internamentos e 44 óbitos. Saliente-se que quase 92% desses internamentos e 89% destas mortes são da responsabilidade das doenças respiratórias.

Ora, estes números contrastam com os 24.610 internamentos e as 71 mortes causadas apenas por doenças respiratórias no período homólogo imediatamente anterior à pandemia, ou seja, entre Março de 2018 e Outubro de 2019.

Se recuarmos ao período homólogo antecedente – entre Março de 2017 e Outubro de 2018 –, nota-se que o impacte das doenças respiratórias até foi um pouco pior: 25.171 internamentos e 87 mortes. Ou seja, cerca do dobro das mortes verificadas durante a pandemia, quando a covid-19 se juntou às outras doenças respiratórias.

Apesar disto tudo, intensificou-se, nos últimos meses – e particularmente nas últimas semanas, no caso das crianças –, campanhas de pressão para a vacinação de crianças e jovens contra a covid-19. E mesmo pediatras têm sido alvo de críticas e processos entre os seus pares.

Foi o caso de Jorge Amil Dias – um dos subscritores de um abaixo-assinado de profissionais de saúde que exigiram a suspensão da vacinação em crianças saudáveis – que, apesar de ser presidente do Colégio da Pediatria da Ordem dos Médicos, foi alvo de um processo disciplinar e de destituição daquele cargo por defender que não se deveria vacinar crianças saudáveis, após o próprio bastonário, Miguel Guimarães, o ter criticado. Saliente-se que o bastonário da Ordem dos Médicos, que diz ser o único representante desta associação profissional de direito público, é um urologista.

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