TÉCNICOS AUXILIARES DE SAÚDE

Não queremos ser heróis; o que nos dói é sermos retirados da equação

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por Adão Artur M. Rocha // março 3, 2022


Categoria: Opinião

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Neste tempo de incertezas, em que um ser microscópico atacou, silenciosamente, e espalhou o seu mal – de forma ordeira, disseminada, que em pouco tempo provocou caos no Mundo, ao ponto de nos fechar em casa, de fechar as sociedades à livre convivência, tentando estas, desta forma conter um mal maior –, existiram seres humanos, que por inerência das suas funções e obrigações profissionais, não o puderam fazer.

Os Técnicos Auxiliares de Saúde estão entre estes muitos profissionais que viram a sua já fragilizada situação ainda ficar mais agravada, pois nestes dois anos, que tem durado esta crise de saúde mundial, houve um sério retrocesso em algumas garantias e, direi mesmo, liberdades que lhes foram bloqueadas.
Estes profissionais, que auferindo o salário mínimo nacional, estando sujeitos – direi mesmo, subjugados – à vontade de chefias coniventes com administrações de cariz economicista – que não lhes reconhecem nome, mas sim números –, são catalogados de soldados rasos, obrigados a jornas intermináveis, muitas delas de 14 e 18 horas, que nestes tempos pandémicos se agravaram ainda mais.

Contudo, sempre souberam responder de uma forma cabal ao apelo nacional, deram de si mais do que podiam. Milhares, com receio, ficaram impedidos da convivência da família; fizeram dos doentes a sua família, deram a estes a Família que lhes faltava, dentro de fatos e mais fatos, em autênticas saunas ambulantes, com turnos de 12, 14 e, não raras vezes, de 18 horas. Prestaram um serviço de relevância ao país.

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Estes mesmos profissionais, que sendo soldados rasos, estiveram na linha da frente no primeiro contato – aliás, como o fazem sempre, mesmo sem pandemia. Estes mesmos profissionais que são os que cuidam, alimentam, que ajudam na higiene, na eliminação das necessidades fisiológicas, dão o ombro ao choro; por vezes, são os para-raios das angústias dos doentes, estão presentes 24 horas sobre 24 horas, todos os dias da semana, para que os outros profissionais de grau superior, possam ter mais tempo livre para ministrar as terapêuticas.

Estes profissionais que têm família, que também sentem, que também têm alma, foram e são relegados para o esquecimento, quando enfatizaram o bem que o Serviço Nacional de Saúde prestou à sociedade, ao ponto de pensarmos que ali só existe duas classes: médicos e enfermeiros. E esquecem-se que sem os Técnicos Auxiliares de Saúde a prestação de cuidados, que foi tão bem apregoada pela comunicação social, não teria sido possível; atrevo-me a dizer que teria sido um caos, sem a nossa prestação e sentido de missão.

Quem iria distribuir o pequeno-almoço, com um bom dia e um sorriso sonoro, atrás de máscaras, e capacetes parecendo astronautas?

Quem ajudaria no ministrar da medicação a muitos que só a conseguem ingerir juntamente com a refeição?

Quem depois os ajuda no banho, no levante, para ir fazer as suas necessidades, ou então na troca de fraldas ou mesmo por aparadeiras?

Quem atenderia as chamadas dos doentes, pedindo isto e aquilo, imensas das vezes só com o intuito de se sentirem acompanhados e poderem falar um pouco?

Em média, passamos três vezes mais tempo com os doentes do que qualquer outro profissional de saúde.
Quem depois desinfeta as unidades dos doentes que partem, uns para suas casas, outros deste mundo? Sendo que a estes, ainda com um sentido de humanidade, lhe prestamos um último auxílio, no tratar do corpo, com toda a dignidade que merecem, e depois os transporta para a morgue.

Quem iria levar os doentes aos exames, que têm de ser feitos em outros locais das unidades de saúde?

Quem iria levar amostras biológicas, ou buscar medicação à farmácia hospitalar?

Quem faz e está atento às necessidades de pedir e repor todo o material, para o bom funcionamento das unidades de saúde?

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Não podemos, e nem devemos, esquecer todos os profissionais que trabalham no setor social. Estes lutam ainda mais com um grave problema de falta de profissionais de enfermagem, ao ponto de muitas vezes não estarem a tempo inteiro, cabendo aos Técnicos Auxiliares de Saúde prestar terapêuticas que só aos enfermeiros caberia fazer.

A penosidade da nossa profissão vai muito além das questões físicas; ela insere-se numa abrangente problemática, psicológica e fisiológica. Os estudos e estatísticas só referem o burnout e o stress às classes superiores, mas os Técnicos Auxiliares de Saúde são a classe que está mais sujeita a estas patologias, agravadas agora com a pandemia, pois fomos os que mais contraímos covid-19.

Em suma, esta é a nossa realidade, mas deparamo-nos com um total desprezo por aquilo que fazemos e que tanto damos à sociedade. Temos ordenados equiparados a varredor de rua – com imenso respeito para com estes –, mas, na verdade, temos índice remuneratório semelhante, além da nomenclatura profissional: somos chamados de Assistentes Operacionais, não existindo progressão na carreira, porque nem sequer é considerada uma profissão.

Foi por tudo isto que a Associação Portuguesa dos Técnicos Auxiliares de Saúde (APTAS) se criou, tendo na sua génese a persecução de um objetivo primordial: a reposição/criação de uma profissão que já existiu (Auxiliar de Ação Médica), sabendo-se ser esta de suma importância para a sociedade. E dando também a estes profissionais, que todos os dias dão de si em prol dos outros, o digno reconhecimento da sua missão, inserindo-os nas equipas especiais da saúde, dando-lhe um bem-estar pessoal, que vai muito além de qualquer questão monetária.

Dentro deste pressuposto, a APTAS detém na sua raiz de existência, uma visão holística sobre o Técnico Auxiliar de Saúde, e o que ele representa dentro do Serviço Nacional de Saúde. Sabemos ser um trabalho árduo, pois queremos quebrar dogmas em vários quadrantes, e em especial no seio dos profissionais inseridos nesta profissão. Será uma cruzada, por isso mesmo elaborámos já também um Código Deontológico.

Como disse Fernando Pessoa: “Matar o sonho é matarmo-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso”.

Esta é, sem sombra de dúvida, a frase que nos define. A APTAS nasceu de um sonho, sonho esse tornado realidade, mas não se extingue o ónus do sonho após a sua realização. Sonhamos elevar a nossa profissão a patamares de excelência, onde os objetivos primordiais sejam, educar, formar e qualificar todos aqueles que estejam abertos a serem Técnicos Auxiliares de Saúde.

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Aquilo que perspectivamos, como base fundamental para esta nobre profissão, numa visão presente/futura, é qualificar todos os Assistentes Operacionais, que se encontrem a prestar serviços, dentro das funções exigidas pelo referencial de Técnico Auxiliar de Saúde. Este documento foi aprovado e usado pela ANQEP – Agência Nacional para a Qualificação e o Ensino Profissional. E, nessa medida, se enquadrem também as várias especificidades aí previstas, designadamente auxiliares de enfermagem, de alimentação, de descontaminação e de desinfeções.

Por fim, continuaremos a lutar para que esta nossa pretensão, culmine com a tão desejada carreira, reivindicação essa já reconhecida pela Assembleia da República, e referida no programa de proposta do recém-eleito Governo.

Esperemos que o novo Governo honre e cumpra, respondendo desta forma à confiança que milhares de Técnicos Auxiliares de Saúde depositaram nele.

A APTAS, tem como pretensão, lutar por esta causa, mas não queremos fazer desta luta, uma luta só nossa. Existem outras organizações que lutam também para esse objetivo. Aquilo que prometemos, como trabalho, vai muito além de protagonismos pessoais, que só minam as sinergias que deveriam existir entre todos para um bem maior: a criação da nossa tão desejada e necessária profissão de Técnico Auxiliar de Saúde.

Adão Artur M. Rocha, presidente da Direcção da Associação Portuguesa dos Técnicos Auxiliares de Saúde (APTAS)

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