Recensão

Uma noite em que se descobre o sentido da escrita

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por Maria Afonso Peixoto // abril 23, 2022


Categoria: Cultura

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Título

O perfume das flores à noite

Autor

LEÏLA SLIMANI (tradução: Isabel Castro Silva)

Editora (Edição)

Alfaguara (Março de 2022)

Cotação

17/20

Recensão

“Anna Karénina partiu. Estou à espera que volte” – é o que Liev Tolstói terá dito ao seu editor, durante um inquietante período em que a inspiração do escritor russo escasseava. N'O perfume das flores à noite, Leïla Slimani fala-nos sobre como o bloqueio criativo de Tolstói lhe serve de consolo nos momentos em que a autora é assombrada pelo temido writers block. Confidencia-nos os sacrifícios a que obrigam a sua arte. Tece engenhosos argumentos para nos provar que a felicidade não está destinada aos fazem da escrita a sua vida.

Leïla Slimani, que tem dupla nacionalidade – nasceu em Marrocos, mas rumou a Paris com 17 anos para estudar Ciências Políticas e Estudos Mediáticos –, estreou-se como romancista em 2014, com a obra No jardim do ogre, sendo-lhe logo atribuído o Prémio marroquino La Mamounia. Foi, porém, com o seu segundo romance, Canção Doce, que conseguiu prestígio internacional, com o prémio literário francês Prix Goncourt de 2016. O país dos outros, publicado no ano passado, foi igualmente bem recebido pelos leitores e pela crítica, e valeu-lhe o Grand Prix de l'Héroine Madame Figaro.

Neste ensaio auto-reflexivo somos engolidos para a intimidade de Slimani, que nos conduz pelos periclitantes caminhos de um romancista. Vislumbramos um universo literário permeado pela solidão e pelo isolamento. A autora não se pinta, contudo, como uma vítima. Pelo contrário. As suas palavras não evidenciam sinais de autocomiseração, mas de resignação. Uma anuência ao que, frequentemente, se chama os ossos do ofício.

O seu desejo de clausura leva-a a aceitar um convite inusitado para passar uma noite, só e trancada, no Punta della Dogana, um museu de arte em Veneza. E é aí que se desenrolam muitos dos pensamentos que partilha com o leitor. Pelo meio, evoca outros autores, como Virginia Woolf, Haruki Murakami e Emily Dickinson.

Descobrimos os seus medos e fobias, os seus anseios, as suas idiossincrasias. Desde o receio que a acompanha quando sai de casa, porque o perigo espreita em cada esquina, às injustiças de que o seu pai foi vítima. A inadequação que sente por ser fruto de duas culturas tão diferentes, e não se sentir verdadeiramente parte de nenhuma.

Ao longo das suas 135 páginas, este ensaio concretiza, sobretudo, a ideia de que a arte é parida a partir do sofrimento. O seguinte trecho evidencia-o bem: “(...) Não acredito que alguém escreva em busca de consolo. Não penso que os meus romances logrem a superação do sentimento de injustiça que vivi. Pelo contrário, um escritor está doentiamente preso às suas dores, aos seus pesadelos. Nada seria mais terrível do que curar-se deles.”

Aos desabafos e divagações da romancista, juntam-se memórias da sua infância e juventude. Os seus relatos transportam-nos para a adolescência rebelde que viveu na capital marroquina, Rabat. Percebemos que os seus traços eremitas já vêm consigo desde que era criança. Compreendemos, também, como a concepção da mulher como um ser inferior ao homem na cultura misógina em que cresceu, a moldou e contribuiu para que hoje se assuma feminista.

A história e a autoanálise da autora permite ao leitor uma reflexão. É difícil não vermos um bocadinho de nós em Leïla Slimani. A natureza complexa e paradoxal do ser humano é algo que, inevitavelmente, nos une.

Para além de escritora, Slimani já foi jornalista, e em 2017 somou outra conquista profissional: foi nomeada representante pessoal do presidente Francês, Emmanuel Macron, como embaixadora para a Francofonia.

Leïla Slimani será, decerto, uma mais-valia como diplomata. E terá sido, com certeza, também uma excelente jornalista. Contudo, o seu novo livro demonstra o seguinte: faça o que fizer, jamais deve deixar de articular palavras. O Mundo perderia uma brilhante escritora.

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