VISTO DE FORA

O novo Chega, versão “o sistema até se borra”

person holding camera lens

por Tiago Franco // maio 4, 2022


Categoria: Opinião

minuto/s restantes


Não sei se vocês acompanham as sessões no plenário da Assembleia da República, mas por cá, enquanto penso num algoritmo, gosto de ter aquilo em som de fundo. Há sempre qualquer coisa que me alegra o dia. É quase como ir ao Jardim Zoológico dar a moeda ao elefante: magia e depressão no mesmo minuto.

O debate do Orçamento do Estado foi particularmente interessante – no que a serrar presunto diz respeito, porque, quanto à votação, teremos quatro anos de aborrecida maioria e resultados combinados. Quase como os jogos da Liga Portuguesa, embora sem aquela chatice de nos sentarmos à chuva ou das filas e apalpões da entrada e da saída.

Há, nesta legislatura, uma enorme novidade no movimento “caixa de ressonância” na bancada do Chega. O movimento “caixa de ressonância”, para quem não sabe, é aquele habitual apoio, registado competentemente em Diário da Assembleia da República, do colega de bancada que, por cima da voz do orador, vai dando umas palmadas no ego. “Muito bem”. “Isso mesmo”. “Dá-lhe”. E ainda outros guiões que também se encontram em filmes porno produzidos numas caves da Damaia.

O CDS era muito bom neste movimento. PS e PSD também não se saem mal. E agora devo reconhecer que, ao contrário do que eu imaginava, os três ou quatro parlamentares do Chega, que ouvi, conseguem discursar com alguma fluidez. Porém, a receita é a do Ventura, o estilo também, os temas são escolhidos a dedo para polémica. A busca ainda é pelos dois minutos para seguir até ao canal de YouTube da ChegaTV, apresentada como “A Voz dos Portugueses de Bem”.

Acredito que o Ventura faça uns workshops na sede do partido onde explica como misturar o ar indignado, de combatente contra o poder, com alguma dose de homem do povo.

Ainda assim, ao fim de poucas semanas, começam a surgir as primeiras calinadas, o que me leva a pensar que nem todos estavam atentos nas aulas. Um dos deputados já empregou um familiar como assessor, algo que, para quem leu as nove páginas do programa, sabe que esbarra logo naquela alínea do “vamos fazer tremer o sistema”.

Depois, durante o debate, enquanto se falava na distribuição das casas de renda social, disse um dos deputados do Chega que era preciso que estas fossem parar a quem delas precisa, e não aos do costume. E cito, aqueles “que não querem trabalhar, mas têm Mercedes, Porsches e Ferraris à porta de casa”.

Aqui sou obrigado a deixar uma nota até porque vivi vários anos a 10 metros de um bairro social. Ferraris? Uma pessoa já deu de borla os Mercedes. Depois ainda fizemos aquele esforço de imaginação para visualizar um Porsche Cayenne no Laranjeiro. Mas um Ferrari?

Quer dizer, ou começamos todos a ir para Nárnia ouvir as palestras do Chega, ou então, neste mundo em que vivemos, temos que pensar que, para as ovelhas do pastor, um bairro social é aquilo que, nós, as pessoas mais simples, chamamos de Quinta da Marinha. 

Antes, já um outro parlamentar do Chega, Mithá Ribeiro (este consegui decorar o nome), tinha dito que apenas o racismo reinante o impedira de ter sido eleito vice-presidente da Assembleia da República. Curiosamente, o mesmo Mithá, antes da campanha eleitoral, era conhecido por ter decretado o fim do racismo e, tal como o seu partido, afirmar que não existia racismo em Portugal.

Bem sei que isto ainda agora começou, mas este novo Chega, versão “agora é que o sistema vai tremer”, promete muito. Só pelo trailer já deu para perceber que, no fim, o mordomo acaba com eles.

Engenheiro de desenvolvimento na EcarX (Suécia)

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