Recensão

O cãozinho riu! De que ri, Bandini?

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por Maria Carneiro // maio 16, 2022


Categoria: Cultura

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Título

Pergunta ao pó

Autor

JOHN FANTE (tradução: Rui Pires Cabral)

Editora (Edição)

Alfaguara (Março de 2022)

Cotação

18/20

Recensão

Arturo Bandini é uma fraude. Arturo Bandini é um fiasco. Arturo Bandini é um sedutor de quem não conseguimos deixar de gostar.

Trata-se do alter ego do autor John Fante e Pergunta ao pó é um romance semi-autobiográfico. Bandini é um jovem escritor frustrado que conseguiu publicar, numa revista, o conto “O cãozinho riu”, que teve um moderado sucesso e que durante algum tempo lhe alimentou o ego e a vaidade.

Convencido que teria sucesso como escritor mudou-se do Colorado para um hotel de Los Angeles onde rapidamente cai numa espiral de falta de imaginação, de falta de dinheiro e fome e arrasta-nos com ele:  "nasceste pobre, filho de camponeses depauperados, empurrado para aqui e para ali porque eras pobre, fugido do teu Colorado natal porque eras pobre, e agora erras pelas sarjetas de Los Angeles porque és pobre e esperas escrever um livro que te faça rico, pois aqueles que te odiavam no Colorado deixarão de te odiar se o escreveres".

Nessa vertigem o estilo de escrita é avassalador e, por vezes, aqui e ali temos dificuldade em manter o pé porque o autor arrasta-nos para o seu imaginário e temos dificuldade em o distinguir da realidade vivida. "Apavorado por lugares altos também e por sangue e por terremotos; fora isso, bastante corajoso, excetuando a morte, exceto o medo de que eu vá gritar numa multidão, exceto o medo de apendicite, exceto o medo de problemas cardíacos, a tal ponto que, sentado no seu quarto segurando o relógio e apertando a veia jugular, contando as batidas do coração, ouvindo o ronrom e o zunzum do seu estômago. Fora isso, bastante corajoso."

Mas o que nos é narrado em Pergunta ao pó não se resume a um relato das privações e agruras sentidas pelo jovem escritor. Que o diga Charles Bukowski, autor do prefácio: “Eu era novo, passava fome, bebia e tentava ser escritor. Fazia a maior parte das minhas leituras na Biblioteca Pública de Los Angeles, no centro da cidade, mas nenhum desses livros parecia ter qualquer relação comigo. (…) Até que um dia, ao abrir um certo livro, encontrei o que procurava. Fiquei ali, de pé, por uns momentos, a ler. Depois, como um homem que descobre uma pepita de ouro, numa lixeira, levei o livro até uma das mesas. As frases corriam ligeiras pela página fora, havia como que um fluir. Cada uma delas tinha uma espécie particular de energia e era seguida por outra semelhante. (…) Eis ali, finalmente, um homem que não temia as emoções. (…) O começo daquele livro foi para mim um violente, um enorme milagre.”

Faz, de facto, um retrato vívido e vibrante da América dos anos 30. Uma América cheia de contrastes, rica em cores e culturas, mas também de muita miséria, e muito preconceito. Bandini vive intensamente tudo isso. Apaixona-se perdidamente por Camilla Lopez, uma mexicana empregada num café, que frequenta, e tem com ela uma ligação de amor e ódio numa relação conflituosa e desequilibrada, enquadrada por um triângulo amoroso com Sammy, um colega de Camilla.

Quando recebe algum valor pela publicação de um conto, esbanja-o em roupas caras, bons restaurantes e bares de striptease. E depois tem momentos desconcertantes de sentimentos de ternura, de desespero e de muito humor: "Arturo Bandini sentado em frente à máquina de escrever dois dias seguidos, ininterruptamente, determinado a vingar. Mas não resultou; sofreu o mais longo cerco da mais dura e implacável determinação de toda a sua vida, e não escreveu uma única linha, mas apenas uma palavra, repetida pela página inteira, de cima a baixo, uma palavra só: palmeira, palmeira, palmeira, uma batalha mortal entre a palmeira e eu, e a palmeira ganhou: vi-a lá fora, a balouçar sob o ar azul, a ranger docemente sob o ar azul. Ao fim de dois dias de batalha, a palmeira levou a melhor e eu esgueirei-me pela janela e sentei-me debaixo dela."

O romance termina tragicamente na procura de um amor que nunca foi correspondido, e que o fez sofrer, mas também lhe deu alento.

A tradução de Rui Pires Cabral é irrepreensível. O livro: uma obra-prima.

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