Recensão

O cão, a lágrima e outros sentimentalismos

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por Ana Luísa Pereira // maio 17, 2022


Categoria: Cultura

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Título

Cuidado com o cão

Autor

RODRIGO GUEDES DE CARVALHO

Editora (Edição)

Dom Quixote (Abril de 2022)

Cotação

12/20

Recensão

Jornalista e romancista, Rodrigo Guedes de Carvalho nasceu no Porto, em 1963. Foi na RTP que se profissionalizou – é licenciado em Comunicação Social – e começou a chegar à casa dos portugueses. Actualmente, é subdirector de Informação da SIC, apresentando o Jornal da noite, de segunda a sexta-feira.

Paralelamente, desenvolveu a sua carreira como escritor, estreando-se na ficção em 1992 com o romance Daqui a nada – vencedor do Prémio Jovens Talentos das Nações Unidas. Depois de A casa quieta (2005), Mulher em branco (2006) e Canário (2007), ganhou o Prémio Autores SPA - Melhor Livro de Ficção Narrativa 2018, com O pianista de hotel, publicado no ano anterior, tornando-se num autor reconhecido e aclamado pela crítica.

O argumento é também uma das suas paixões: exemplo disso são os argumentos para os filmes Coisa ruim (2006) e Entre os dedos (2009).

Cuidado com o cão, agora publicado pela Publicações Dom Quixote, é mais um romance dedicado à profundidade das relações humanas. Como se sabe, a pandemia da covid-19 tem espoletado uma série de romances, e Cuidado com o cão é mais um: neste caso, com o enfoque no isolamento forçado que terá "obrigado" à introspecção e à revisão dos anos e vidas vividas.

A personagem principal é o antigo cirurgião António Pedro, que, na sua velhice, triste e solitária, se sente ainda mais sozinho durante o confinamento. A visita inesperada de uma desconhecida fá-lo reviver as perdas. Perdas de confiança, de pessoas, como a filha e a mulher.

O protagonismo desta personagem é partilhado com a vida de duas gémeas trapezistas, cuja separação seria apenas física, uma vez que ambas acabaram por seguir o mesmo caminho académico e profissional, apesar de todas as vicissitudes.

O título do livro é uma espécie de homenagem ao cão, enquanto melhor amigo do homem – um cliché, diríamos. O primeiro, talvez. Em cada história do livro há pelo menos um cão que ocupa um lugar de relevo na vida das personagens, ora como companheiro, ora como protector.

O Cuidado com o cão não se restringe ao animal doméstico, mas ao cuidado que devemos ter com cada pessoa que se cruza connosco. Na nossa perspectiva este "deve" é um "senão’" (dos muitos) do livro – uma espécie de moral prosaica perpassa todo o romance, fazendo lembrar o jornalista, que vive no autor, quando nos censurava: "Tenham noção…", aquando dos confinamentos compulsórios decretados durante os Estados de Emergência.

A estrutura do romance pode também tornar-se cansativa para alguns leitores. O experimentalismo do autor coloca o leitor numa espiral de impaciência, uma vez que, de forma repetitiva, retoma cada história no início de cada capítulo, como que fazendo um sumário em cada nova entrada – não vá o leitor esquecer o que já aconteceu. Algo que, na verdade, até pode acontecer, tendo em conta que, além destas histórias, o autor conta e reconta os enredos de outras gémeas da literatura, perdendo-se ainda com os Beatles e outras bandas.

Este cruzamento de histórias poderia ser interessante – e até pode ser enriquecedor para quem aprecia o género; porém, parece-nos que resultaria melhor se fossem entradas mais naturais. Por vezes, dá a sensação de que estamos numa sala de aula, onde o professor explica e volta a explicar o que aconteceu, como se fôssemos crianças de cinco anos.

De maneira que, pois então, recomendamos o livro apenas a quem gosta de sentir a lágrima no canto do olho e de outros sentimentalismos a que Rodrigo Guedes de Carvalho nos tem habituado.

O jornalismo independente DEPENDE dos leitores

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