Nana Ekvtimishvili

‘A Geórgia pertence à Europa e ao mundo civilizado, moderno, liberal e democrático’

por Maria Afonso Peixoto // maio 22, 2022


Categoria: Entrevista P1

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Aproveitando o lançamento em Portugal do romance Onde as pêras caem, pela Dom Quixote, o PÁGINA UM conversou com a premiada argumentista e realizadora georgiana Nana Ekvtimishvili. A realidade da Geórgia, após o desmembramento da União Soviética, marca a literatura deste país onde, tal como na Ucrânia, continuam a confluir conflitos de difícil resolução e elevada imprevisibilidade.


Onde as pêras caem conta a história de órfãos e crianças com necessidades especiais que vivem numa residência em Tbilisi. Sei que cresceu perto de uma dessas instituições. Inspirou-se naquelas crianças para criar personagens como a protagonista Lela?

Sim. Enquanto eu escrevia, imaginava visualmente algumas personagens, tinha-as em frente aos meus olhos, e depois mudei ou inventei alguns nomes. A Lela, por exemplo, é uma espécie de “híbrido”, inspirada em várias crianças que conheci e, talvez, também em algumas partes de mim, como o meu lado rebelde ou anárquico. É uma mistura… Mas não consigo fazer uma divisão entre o que foi baseado na realidade e o que imaginei, porque na escrita há sempre uma conjugação das duas coisas.

Lela então é um pouco de si…

O romance foi escrito sobretudo na perspectiva de Lela, por isso, apesar de [eu] estar presente como autora, acho que não há espaço para mim, apenas para estas crianças. Eu queria, acima de tudo, manter-me fiel à personagem de Lela.

Sabendo da sua experiência de argumentista e realizadora de cinema, quando eu estava a ler este seu romance consegui facilmente imaginar esta história a desenrolar-se num ecrã. Gostaria de ver este romance a ser adaptado a filme?

Eu nunca tornaria este romance num filme. Se alguém quisesse fazê-lo, eu não recusaria, mas não sinto necessidade de vê-lo num ecrã. O trabalho e o esforço que investi no livro, e a forma como me expressei nele, não foi com esse objectivo em mente. Por isso, não preciso de o ver no cinema.

Este romance aborda a maldade humana, retratando os abusos de crianças vulneráveis às mãos daqueles que as deveriam proteger. Como escritora, é fácil para si distanciar-se e compreender as personagens mais cruéis? Ou, como todos nós, também as julga?

Eu tento apenas descrever as situações, e abster-me do papel de julgar. No entanto, mesmo que não queira julgar, há um lado na História que o torna difícil. Eu queria mostrar este “mundo” sem tomar um partido, e sem a dicotomia do que é bom e do que é mau. Tentei apenas dar espaço a estas crianças e deixá-las serem como são. Acho que a única parte em que fui incapaz de não julgar é a da violência sexual e do assédio contra a Lela, porque é um crime hediondo contra uma jovem. Quando se trata de abusos em relação a crianças pequenas, só o podemos ver como algo mau, não existe meio-termo. E, nesse caso, é muito difícil compreender ou ter compaixão por quem faz algo assim.

Este foi o seu romance de estreia, e tem algumas similitudes com o seu filme In bloom (2013): ambos retratam a juventude de raparigas no início dos anos 90, na Geórgia, após o desmembramento da União Soviética. Este tema é, obviamente, muito próximo, certo? Cresceu nesse ambiente…

Algumas pessoas na Geórgia queixam-se de os artistas locais, escritores ou realizadores georgianos, como eu, abordarem frequentemente os anos 90 nas suas obras, e cingirem-se muito a este período temporal. O meu próximo livro também vai ser sobre uma família nos anos 90, e é um bocado por razões autobiográficas. Eu nasci em 1978, e foi na parte final do século XX que comecei a desenvolver-me como mulher e a decidir a minha vida. Portanto, essa foi um período extremamente importante a nível pessoal, e eu tenho muita coisa para contar sobre esta época. Além disso, “transportar-me” para essa época ajuda bastante a colocar-me na pele de uma criança e a contar a sua história, porque me lembro bem da minha infância e da minha perspectiva do mundo nessa altura.

Sei que está a escrever um novo romance, mas sobre a sua outra paixão – haverá também um novo filme de Nana Ekvtimishvili no horizonte?

Neste momento, para além do livro, estou a trabalhar em vários guiões, alguns em alemão e outros em georgiano. Quando os meus dois filhos estiverem mais crescidos, terei então mais disponibilidade para me dedicar inteiramente ao trabalho, e para terminar os meus projectos. No caso dos filmes, é preciso mais tempo e também financiamento.

Vive agora em Berlim, mas o seu país tem vivido nos últimos anos em sucessivos conflitos entre a “herança soviética” e o Bloco Ocidental. Enquanto as regiões separatistas da Ossétia do Sul e da Abcásia parecem querer recuperar o Bloco Soviético, o resto da Geórgia assume a intenção de se juntar à União Europeia e à NATO. Como é que se posiciona no meio deste braço-de-ferro?

Para mim, não há qualquer dúvida de que a Geórgia pertence à Europa e ao mundo civilizado, moderno, liberal e democrático. E não é assim apenas porque eu quero que seja, mas porque, de facto, a História, o estilo de vida e a cultura dos georgianos são muito parecidos com os dos europeus dos outros países. Até mesmo a literatura é muito impregnada por valores liberais. A Rússia tenta incutir ao povo georgiano a ideia de que há pessoas, no meu país, que não se querem aproximar do bloco ocidental e que preferem fazer parte da Federação Russa. Na Geórgia, nós temos, por exemplo, canais de televisão que fazem propaganda pró-Putin, e apenas repetem o que ele diz. Mas, na verdade, o estado da Geórgia moderno identifica-se muito com a Europa.

Nana Ekvtimishvili e Maria Afonso Peixoto, jornalista do PÁGINA UM, na passada quinta-feira na Livraria Bucholz, em Lisboa.

Tenciona regressar um dia à Geórgia, para aí viver?

Sim. Na verdade, a minha ideia nunca foi deixar a Geórgia de forma definitiva. Eu mudei-me para a Alemanha para estudar, e conheci lá o meu marido, que é alemão, e com quem tenho filhos. Mesmo depois de terminar os meus estudos, ainda voltei à Geórgia com o meu companheiro e vivemos lá durante dez anos. Tenciono lá voltar, gostava de dar aos meus filhos a oportunidade de estudarem numa escola georgiana. A não ser que o país perca a independência e seja ocupado pelos russos. Nesse caso, que, infelizmente, considero ser uma possibilidade, não fará sentido regressar. Teremos que esperar e ver o que acontece agora com a Ucrânia.

Mudando de tema, e para terminar a conversa num tom mais leve. Falemos sobre descontração [risos]. O cinema e a leitura são formas que as pessoas têm de se distraírem, mas para si também são um trabalho. Consegue relaxar a ler e a assistir a um filme, sem estar a fazê-lo como escritora e realizadora?

Eu sou uma leitora voraz e uma cinéfila. Adoro literatura e cinema. Não quero ser o tipo de pessoa, de cineasta, que se senta a ver um filme, e depois o vê a pensar em como o teria feito enquanto realizadora; ou de uma romancista que pega num livro de outro e se questiona sobre como é que o teria escrito. Aí, quando vejo um filme ou leio um livro, é a minha vez de relaxar e apenas assistir, ou de ler, é o meu momento de lazer, e gosto de aproveitar para desfrutar.

Aos 43 anos, já tem uma carreira consolidada. O seu filme In bloom foi escolhido para representar a Geórgia na categoria de Melhor Filme Internacional na edição de 2023 dos Óscares, e entretanto Onde as pêras caem foi nomeado para o International Booker Prize no ano passado. Profissionalmente, há alguma coisa que ambicione muito conquistar?

Eu não me movo por “conquistas”, apenas por executar e concluir os trabalhos que empreendo. Não tenho grandes desejos ou ambições. A vida é demasiado curta, e tenho receio de definir metas demasiado altas. Sempre fui assim. Nunca fui uma pessoa muito ambiciosa. Há, contudo, uma parte de mim que é obstinada quando começa um projecto, e que não descansa enquanto não o termina. Quando tenho uma ideia para um trabalho, agarro-a e empenho-me. Sou muito dedicada naquilo que faço; seja um livro ou um filme. Assim continuarei: a seguir o que sinto e à minha voz. Veremos aonde me leva.

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