VISTO DE FORA

A razão de um escroque

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por Tiago Franco // maio 31, 2022


Categoria: Opinião

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De repente Henry Kissinger falou e o Mundo parou para o ouvir. Por princípio, tenho alguma alergia quando se destacam opiniões de assassinos, e se valorizam as ditas dos ditos. O tempo não apaga a “Operação Condor” nem os milhares de mortes que Kissinger tem no curriculum vitae.

O problema, neste caso, é que de facto Kissinger deu uma das saídas possíveis para a guerra na Ucrânia. Para eu engolir o sapo e continuar a escrever, vou apenas pensar que até um relógio parado acerta duas vezes por dia.

Digo que deu uma das saídas porque, obviamente, não é a única. Mas é algo que merece discussão.

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A sugestão de Kissinger não é popular e, de uma forma geral, foi arrasada pelos nossos opinadores de serviço, o que se compreende. Por que razão deveria a Ucrânia ceder parte do seu território? Não há nenhum motivo para que um país invadido aceite perder território como moeda de troca para o fim do conflito, certo? Mas é uma das consequências das guerras, das invasões, dos conflitos, das operações especiais. Do que lhe quiserem chamar.

Quando a Sérvia perdeu 20% do seu território a favor da minoria albanesa, a Europa aplaudiu. A NATO bombardeou Belgrado e o Kosovo nasceu. Se a memória não me atraiçoa, Rússia e Espanha foram dos poucos países que ficaram ao lado da Sérvia, o que não admira. Na altura lidavam com gritos semelhantes vindos da Chechénia e Catalunha, respectivamente.

Contudo, a União Europeia de hoje não aceita um novo Kosovo no Donbass. Eu estava contra na altura (da perda de território da Sérvia), e, portanto, mantendo a coerência, estou a favor agora da manutenção do Donbass pela Ucrânia.

Reparem que há anexações/disputas de território um pouco por todo o lado. Da Palestina à Arménia, da Abecásia à Índia, de Marrocos ao Curdistão. Da Somália a Gibraltar. Fazem parte, infelizmente, da História dos Povos. Hoje e sempre. A hipocrisia está naqueles que nós elegemos como importantes.

A União Europeia não mantém a coerência porque não se mexe por convicções. Mexe-se por interesses – próprios em termos económicos e ditados pelos Estados Unidos na parte bélica. Neste caso importa aos Estados Unidos manter a guerra em território ucraniano. Dito e assumido pelo secretário de Estado da Defesa – portanto, já não é tema para debate. É um facto.

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Não seguindo a teoria de Kissinger restam-nos, portanto, duas hipóteses: ou os russos retiram e fingem que isto nunca aconteceu, pouco provável diria; ou, para além de dinheiro e equipamento militar, a comunidade internacional envia as tropas e avançamos para Moscovo.

Estamos preparados para isto? Para uma III Grande Guerra assumida? Digo assumida, porque acho, para ser sincero, que o envolvimento da União Europeia e da NATO é tal que já não se pode afirmar que esta guerra é apenas entre Rússia e Ucrânia.

Julgo que não. Os Estados Unidos vão usar os ucranianos enquanto derem jeito, e, cedo ou tarde, dirão a Zelensky para se calar. As promessas cairão no esquecimento, como o passado nos explica (Curdos no Iraque, lembram-se?), quando os interesses terminarem. Ou seja, quando os russos estiverem suficientemente desgastados para não arrastarem um fuzil nos próximos 20 anos.

Nessa altura Zelensky deixará de ser esta estrela que entra em direto nos parlamentos e festivais de cinema, para ser mais um com uma mão cheia de nada para apresentar e um país em chamas para reconstruir.

Clara Ferreira Alves disse que, neste momento, o líder ucraniano seria um entrave às negociações de paz por causa da ilusão criada com o apoio internacional. Não diria tanto, mas que, aos poucos, o tema parece começar a desinteressar a cada vez mais, julgo ser óbvio.

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Continuo a pensar nos milhões de deslocados e nos milhares de mortos. Peões no xadrez de um lunático russo e de comediante ucraniano que, três meses depois, continua a acreditar nas promessas do exterior. Em sinceridade, a União Europeia não quer a Ucrânia como parte integrante dos 27 – não está sequer perto de cumprir os requisitos – e a NATO nunca imaginou aquele território como parte da Aliança. Mas ambos vendem sonhos a Zelensky, que, por sua vez, vai mudando o discurso consoante o armamento que lhe chega.

Já disse que não pensaria na NATO nos próximos 15 anos. Já afirmou que queria negociar e arranjar um estatuto para o Donbass. Agora só aceita retirada total e devolução dos territórios, incluindo Crimeia. Compreendo que seja o que qualquer ucraniano quer ouvir, mas, pergunto-me, o que andarão a vender a este pobre rapaz? Que promessas fará Biden a Zelensky?

A não ser que uma revolução popular russa termine com a guerra, e com o reinado de Putin, eu não acredito que uma saída desta guerra não implique perda de território pela Ucrânia.

E também detesto ter que dizer isto: desta vez, o escroque do Kissinger tem razão.

Engenheiro de desenvolvimento na EcarX (Suécia)

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