Vértebras

As estimativas da covid-19 do Instituto Superior Técnico e a Ciência que meteu férias: uma novela exemplar

Vértebras

por Pedro Almeida Vieira // julho 29, 2022


Categoria: Opinião

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Ontem, começando por uma notícia da Lusa – a agência noticiosa portuguesa que aparenta ser uma espécie de Pravda português do século XXI –, foi divulgado pela imprensa mainstream um suposto relatório do Instituto Superior Técnico (IST) que analisa a sexta vaga de covid-19 em Portugal. Apesar de destacar um relatório do IST, nenhuma notícia expôs o estudo nem este surge no site desta instituição universitária.

Em traços gerais, refere-se que “de acordo com as estimativas mais recentes [do IST], houve cerca de 242 mil casos de covid-19 registados oficialmente devido às festividades dos santos populares e festivais como o Rock in Rio.”. E cita-se mesmo trechos do suposto relatório, como este: “Se juntarmos os casos não reportados oficialmente atinge-se o número de 340 mil”, acrescentando-se em seguida os nome dos investigadores e investigadores do IST: Henrique Oliveira, Pedro Amaral, José Rui Figueira e Ana Serro, superiormente coordenados, segundo as notícias, pelo próprio presidente da instituição, Rogério Colaço.

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Ou seja, não estamos a falar de um trabalheco de uma unidade curricular feita por alunos do primeiro ano de uma licenciatura. Estamos a falar de um “estudo”, enfim, elaborado pela nata do IST e supervisionado pela cúpula.

Mas continuemos. Na notícia do Público, que é a que se está a seguir, ainda se ajunta que “comparando com um cenário em que se manteria a testagem e a obrigatoriedade do uso de máscara em grandes eventos, a incidência estimada durante o mês de Junho seria inferior”. E acrescenta-se que os autores sublinham que as medidas “não teriam impacto económico”.

Por fim, salienta-se ainda que “em relação aos óbitos, os peritos apontam a morte de 790 pessoas com covid-19 devido ao levantamento das restrições e às festividades, dos quais 330 associados às festas populares de Junho.”

Portanto, temos aqui matéria sensível: 790 óbitos por cauda do levantamento das restrições e 330 óbitos associados apenas às festas populares de Junho!

Qual a base científica disto?!

Como jornalista de investigação, quis saber como o IST faz Ciência.

Como chegou a esses valores.

Quais as variáveis utilizadas.

Quais os pressupostos considerados.

Henrique Oliveira, professor e investigador do Instituto Superior Técnico.

Quais os dados (em concreto) introduzidos no modelo.

Quais os intervalos de confiança.

Como foi validado o modelo e confrontado com a realidade.

Enfim, quis saber se o IST faz Ciência ou se certas pessoas usam o IST como o monge de maus hábitos usa um hábito para se fazer passar por monge não o sendo no íntimo.

Assim, ontem mesmo, às 21:47 horas, enviei um e-mail aos quatro investigadores do IST, acima elencados, com o seguinte pedido:

Estou particularmente interessado em ‘reproduzir’ as vossas estimativas iniciais e as vossas estimativas agora feitas sobre o impacte dos festivais de música e festas populares. Nessa medida, venho solicitar que me disponibilizem todos os dados brutos utilizados, e os pressupostos considerados, bem como explicitação da metodologia estatística utilizada. Estou também à vossa disposição para uma conversa, sem prejuízo de ter os dados e a metodologia que agora vos peço.

Resposta do professor Henrique Oliveira, pelas 23:13 horas:

Quando regressar em Setembro de férias terei todo o gosto em conversar sobre este assunto. Os dados em bruto são dados pelas estimativas dos presentes nos festivais, pelo coeficiente de redução da transmissão obtido pela máscara, pelos tempos de exposição (1.7 dias), infecção média (2.7 dias), e de tempo entre infecção e morte (12) e, finalmente, por estimativas do número de contactos em eventos concentrados e ainda estimando os susceptíveis remanescentes na população e as percentagens de infectados por escalão etário, usando modelos seird e os dados oficiais. Usamos dois modelos, um em tempo contínuo, seird, e outro discreto. Os dados reais são comparados com a modelação supondo um coeficiente unitário de contágio diário de transmissão mais baixo (o famoso beta do modelo) mantendo todas as outras variáveis fixas. Usamos também os dados oficiais da DGS e a nossa estimativa de under reporting que é de cerca de 2/3 vs. 1/3 neste momento, mas que é difícil de estimar quando a letalidade varia muito. O modelo discreto funciona melhor do que o contínuo como expliquei no encontro de celebração do aniversário da EMS em Edimburgo no final de Março.Usamos o programa Wolfram Mathematica. Entretanto preciso de repouso depois de um ano muito exigente e poderei conversar depois, em Setembro.

Pode impressionar o detalhe da resposta – onde não se anexou qualquer relatório nem dados concretos (números), mas tudo isto trocado por miúdos significa uma coisa: o IST estima que, por exemplo, as festas populares tenham causado 330 mortes com base num modelo que basicamente estima usando estimativas e mais estimativas, e outras estimativas, de sorte que, de tão complexo, apenas dá um valor que nem sequer é enquadrado num intervalo de confiança, talvez com receio de que o limite inferior fosse negativo, o que significaria que a covid-19 nas festas populares até teria contribuído para ressuscitar gente em vez de matar.

O Instituto Superior Técnico, integrada na Universidade de Lisboa, foi fundada em 1911.

Afianço-vos: sem se apresentar dados e metodologia, o Doutor Karamba podia fazer o mesmo, poupando até uns trocos no software Wolfram Mathematica.

Perante isto, que deve um jornalista sério fazer? Aguardar que o senhor professor, do cimo da sua cátedra, descanse até Setembro? Ou relembrar-lhe que a Ciência é Ciência, e não pode descansar, porque pode e deve ser confrontada a toda a hora? Ainda mais porque não se divulga um estudo desta natureza num dia e se vai de férias no dia seguinte durante mais de um mês. E adeusinho.

Portanto, reiterei o pedido de dados em bruto:

“(…) Entre os cinco membros do IST, certamente haverá um disponível para me fornecer os dados brutos e uma explicação metodológica mais explícita para que, passo a passo, se possa chegar a similar conclusão e validar cientificamente o vosso método. Peço-lhe isso como jornalista e como homem da Ciência.

E adiantava as minhas perplexidades:

Tenha consciência que os dados que aponta são elevadíssimos tendo em conta que em junho (todo o mês e para todo o país) houve cerca de 400 mil casos positivos. Não sei a base científica por detrás da subnotificação. Deduzo também que não houve cruzamento com dados reais do SINAVE em função dos grupos etários e região. E tenho sérias e legítimas dúvidas, pelo que me descreve da metodologia, se os cinco investigadores do IST não resumiram a fazer correr o primeiro modelo de previsão introduzindo apenas o número estimado com maior aproximação ao real dos frequentadores dos festivais e festas populares, resultando isso apenas numa mera duplicação de eventuais erros do modelo inicial.

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Retorquiu Henrique Oliveira, já sem esconder o seu incómodo:

Já vi que está muito interessado no nosso trabalho, o que é muito bom. Mas, como disse e repito, estou de férias desde ontem. Sou o único do grupo de trabalho mandatado a falar sobre esses assuntos de análise. Ontem recusei diversos convites, antes do seu e-mail, nomeadamente de três televisões nacionais, para falar sobre o assunto porque… entrei de férias e as férias são, digamos, pouco científicas. Os meus colegas também estão de férias. Pode pedir o relatório, se é isso que entende por “dados em bruto”, ao nosso gabinete de imprensa (gabinete de comunicação e relações públicas). Eles dão. Os dados em bruto dos números são públicos.

Preferia estar a discutir metodologias estatísticas, mas acabei num debate de retórica, e assim respondi:

Peço desculpa pela insistência, mas insisto. Vocês são cinco reputados investigadores de uma prestigiada universidade portuguesa. Não me parece curial que me remeta para o Gabinete de Imprensa quando lhe peço dados em bruto, e não me considere assim tão pouco inteligente ao julgar que lhe estou a pedir o relatório quando lhe peço que os dados brutos que introduziu no modelo.

Estou a questioná-lo sobre questões científicas, e ambos sabemos o que eu quero, e o que lhe estou a pedir específica e legitimamente como jornalista de um órgão de comunicação social. Tem o direito de dar ou não dar, tal como eu tenho o direito de retirar uma conclusão sobre se o vosso estudo tem validade científica, sendo que a validade científica se apura, desde logo, sobre a possibilidade de replicação do estudo, sendo necessário para isso conhecer as variáveis do modelo, o próprio modelo e a metodologia. Ora, isso não conheço; apenas conheço os números divulgados pela comunicação social, e que são pouco consentâneos com a realidade (casos positivos em Junho a nível nacional).

Como o Senhor Professor saberá, para um modelo matemático fazer sair um número tem de se meter no modelo números e não batatas. Estou a pedir-lhe as variáveis, a metodologia e os números (não sei se são públicos porque não sei quais foram utilizados, porque não me diz).

Permita-me dizer-lhe que acho extraordinário (achei muita coisa extraordinária durante a pandemia) que se faça ainda Ciência julgando-se que não se deve dar explicações nenhumas, bastando deitar para fora um qualquer número.

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O relatório, além disso, deveria ser público, tendo em conta a relevância do tema. Vou, em todo o caso, pedir o relatório ao gabinete de Comunicação do Técnico.

Também não me esclarece se houve algum cruzamento com os dados do SINAVE (que não são públicos), nomeadamente ao nível de casos positivos por região (e mesmo concelho) e por grupo etário, no sentido de conferir validade aos vossos resultados. (Aliás, questiono se fizeram auto-critica aos valores apurados pelo modelo e divulgados à imprensa).

Sem prejuízo disso, insisto sobre as variáveis e os dados usados. O Senhor Professor como pessoa inteligente sabe bem o que lhe estou a pedir, mesmo que não me considere assim tão inteligente ao ponto de sugerir (ou mais do que isso) que eu apenas quero um relatório (uns papéis escritos).

Sobre toda a equipa de cinco pessoas ficarem de férias no exacto dia da divulgação do ‘estudo’, não tenho de comentar aqui, mas apenas estranho o ‘timing’.

Por fim, uma questão: todo o acompanhamento que o IST tem feito sobre esta temática tem sido financiado por quais entidades específicas? Qual o valor até agora recebido e até quando está previsto o financiamento?”

Resposta final do senhor Professor Henrique Oliveira, prestigiado docente e investigador do secular Instituto Superior Técnico, a modos de terminar um debate científico:

Caro Pedro Almeida Vieira,

Estou de férias e muito cansado. Pode insistir à vontade e emitir os comentários que quiser, que a resposta será apenas essa.”

Entretanto, decidi entrar em contacto com o Gabinete de Imprensa do IST, com a seguinte missiva:

O PÁGINA UM está interessado em escalpelizar o estudo apresentado pelo IST, coordenador pelo Prof. Henrique Oliveira, que estimou o impacte das festas populares e festivais na disseminação do SARS-CoV-2 e da covid-19. Como não encontro o relatório em lado algum, e não existe disponibilidade do Prof. Henrique Oliveira para facultar tanto o eventual relatório escrito como sobretudo os dados em bruto, de modo a replicar as estimativas feitas pelo IST (e confrontar a sua validade científica), venho formalmente fazer esse pedido ao presidente do IST.

Rogério Colaço, presidente do Instituto Superior Técnico. Quando foi solicitado o envio de dados em bruto sobre estimativas sob sua supervisão, o seu gabinete de imprensa respondeu que “o Técnico não faculta mais informação sobre esta matéria para além daquela que já é do conhecimento público”.

Resposta do Gabinete de Imprensa do IST:

Em relação às suas questões posso dizer o seguinte:

1 – o Técnico não faculta mais informação sobre esta matéria para além daquela que já é do conhecimento público;

2 – o Técnico não tem nenhum contrato ou protocolo para enquadrar o serviço que tem prestado ao país em termos de modelação e análise da pandemia.

Decididamente, a Ciência – ou, pelo menos a Ciência do Instituto Superior Técnico – entrou de férias.

Mas não foi agora. Foi quando contratou o Professor Henrique Oliveira para fazer este tipo de “Ciência” ou quando elegeu responsáveis para encerrar um debate sobre Ciência com “o Técnico não faculta mais informação sobre esta matéria para além daquele que já é do conhecimento público”.

Ora, o que o IST divulgou foi uma vergonha; portanto, até se compreende que não queiram divulgar mais… para que a vergonha não seja ainda maior.

Esta é uma “novela” exemplar sobre o estado da Ciência que a pandemia nos trouxe. Haverá aí um antiviral chamado decência?


N.D.: Nos trechos expostos foram feitas correcções de simples gralhas. A troca de correspondência entre mim e Henrique Oliveira tem interesse público, e decidiu-se publicar por me ter assumido, desde o início como jornalista e ter avisado de que poderia usar a informação recolhida. De igual modo, a troca de correspondência com o Gabinete de Imprensa do IST também tem relevância editorial.

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