Recensão: Mr. Loverman

Um gentleman caribenho a sair do armário

por Ana Luísa Pereira // setembro 18, 2022


Categoria: Cultura

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Título

Mr. Loverman

Autor

Bernardine Evaristo (tradução: Miguel Romeira)

Editora (Edição)

Elsinore (Junho de 2022)

Cotação

17/20

Recensão

Filha de pai nigeriano e mãe britânica, Bernardine Evaristo nasceu em Londres, em 1959. Em 2019, foi a primeira mulher negra a ganhar o Booker Prize (ex-aequo com Margaret Atwood), com o romance Rapariga, mulher, outra – editado em Portugal pela Elsinor em 2021, livro do ano do British Book Awards 2020.

A escritora é presidente da Royal Society of Literature, professora de escrita criativa na Brunel University, em Londres, e é autora de nove livros de ficção e não-ficção, sendo possível ler, ainda, em português, Raízes brancas – também editado pela Elsinor.

A sua obra retrata algumas das questões socioculturais contemporâneas, nomeadamente, o racismo, o género e a emigração. Temas que se cruzam e misturam temporal e espacialmente na sua obra, transportando o leitor no espaço e no tempo. O seu objetivo, sabemos, é o de desconstruir preconceitos que teimam em persistir e contribuir para a discussão por meio da literatura. Não obstante, é possível que, em alguns momentos, a ironia e a leveza possam ser mal-entendidas por quem lute pelos direitos dos LGBTQ+*.

Em Mr. Loverman, o local de partida dos emigrantes é a ilha Antígua, antiga colónia do Reino Unido – este, o destino, na década de 1960 de Barrington Jedidiah Walker, Barry, e da sua mulher Carmen. Casado há 50 anos, em 2010, Barry quer, finalmente, sair do armário. Aos 74 anos ainda sente que está aí para as curvas com o seu amante de sempre, Morris, com quem mantém um caso em segredo (mas não muito) desde a adolescência, em Antígua.

Se Morris se separou décadas antes, e a sua ex-mulher levou o segredo para Antígua, para onde regressou, Barry manteve o seu casamento com Carmen, com quem teve duas filhas.

Carmen é uma mulher insatisfeita e infeliz por se saber traída, não com outros homens, mas por prostitutas. A religião é o seu subterfúgio, que vive de forma obsessiva em companhia das suas amigas, com quem critica e desfaz tudo e todos pelos seus pecados, em particular e naturalmente, o seu marido. Barry, que além de chegar sempre tarde e a más horas, também fede a álcool e a sexo… com outros homens. Mas isso Carmen não sabe, tampouco, que a tareia à saída do cemitério foi da autoria de homofóbicos.

Este romance é a duas vozes e em vários tempos. A história é-nos contada por Barry e por Carmen. O tom do primeiro é leve e com humor, conduzindo o leitor a torcer para que Barry se safe de um casamento de aparências. O tom do segundo é pessimista e ressentido – o que não é de estranhar, pois nem as filhas ajudam Carmen a sentir que valeu a pena o sacrifício de viver uma não-vida.

As duas vozes são bem distintas. A de Barry é num crioulo que o tradutor, Miguel Romeira, captou de forma exímia. A de Carmen remete para o experimentalismo de Rapariga, mulher, outra, cuja pontuação (inexistente) se traduz num contínuo translinear não de palavras, mas de frases, em que a vírgula é a única protagonista.

Empolgante, assim se pode caracterizar a leitura, com ritmo e peripécias que nos impelem a prosseguir para saber se Barry conseguirá levar avante a decisão de se divorciar.

Excerto da página 17:

Não tenho dúvida nenhuma do que digo porque eu, o excelentíssimo Barrington Jedidiah Walker, te conheço, monsieur Morris Courtney de La Roux, desde que éramos dois reguilas de cara lisa e voz de cana rachada porque os tintins ainda não tinham descido (…) Mas aí está uma coisa de que sinto muita saudade: beber, depois andar por aí de carro sem medo de a lei me cair em cima, como toda a gente fazia nos anos 60 e 70. Não havia trezentas câmaras de vigilância escondidas por Londres, de olho em nós pela calada como ciclopes enquanto andávamos por aí a tratar da nossa vida. Hoje em dia, ponho o pé fora de minha casa e já estou a ser vigiado. O Grande Irmão entrou na vida da gente e nenhum de nós se manifesta contra. Nem burrié eu posso tirar do nariz sem que fique gravado para a posteridade”.


* Esta abreviatura está a crescer de tal modo, que corremos o risco de já estar desatualizada aquando da publicação desta recensão.

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