VISTO DE FORA

A popa do Tato no olho do furacão 

person holding camera lens

por Tiago Franco // outubro 1, 2022


Categoria: Opinião

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Depois da anexação dos quatro territórios do Donbass pela Rússia, dizem-nos os especialistas que entrámos na rampa de lançamento para a III Guerra Mundial. Explicam-nos que a partir daqui os russos terão um justificativo para usar outro tipo de armamento para defender “os seus territórios”.

Começam agora as discussões sobre o direito internacional, fala-se no exemplo dado pelo Kosovo e a anexação não é reconhecida por ninguém. Ou quase ninguém. Ursula von der Leyen diz que não é tempo de pedir paz, mas sim de derrotar a Rússia. Os Estados Unidos garantem que o Nord Stream deixará de funcionar. A União Europeia coloca-se ao lado da Ucrânia e continua a enviar dinheiro e armas. No Velho Continente todos escolheram os seus lados. Até a Hungria e a Sérvia.

closeup photography of bong mask

Para quem não dormiu nas aulas de História, há um cheirinho a 1938 no ar. Ali nos bastidores do Apocalipse.

A inflação aproxima-se dos dois dígitos, há muitas famílias europeias já em dificuldades antes do primeiro tiro nos seus territórios. Russos fogem do seu território para evitarem a chamada. Tal como ucranianos tinham feito na Primavera. O “salto” também é actual neste século.

Confesso a minha preocupação e tento, o mais possível, ouvir as diferentes fontes de informação para perceber o que aí vem. Até porque, aqui na Suécia, não vivo assim tão longe das fronteiras russas.

No meio desta aflição, e completamente mergulhado no que aí virá, dou com Gustavo Tato Borges, presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública, a indignar-se na RTP pelo fim das medidas de isolamento no combate à covid-19. Jura-nos que o risco é muito grande e que não isolar pessoas infectadas pode ser o fim. O Tato não quer que a covid-19 passe e seja tratada como a pneumonia. O Tato não quer que o tema saia da agenda. O Tato, no fundo, não quer perder o emprego.

Tato Borges

Confesso que até o percebo: afinal, com guerras e quejandos, a malta não vai ter dinheiro para comprar carros eléctricos. Com jeito até voltam a pedalar como em 1940. E isso também me aborrece, porque, lá está, o meu salário depende da “transição energética”. Sim, é tanga, mas paga as contas.

O Tato parece o gajo que, no olho do furacão, está preocupado com a intensidade do gel que lhe segura a popa.

Mas Tato, my friend, we have bigger fish to fry. Fazes como nós todos, e vais trabalhar. Menos palco. Menos terror de pacotilha. Menos jackpots para os laboratórios. Agora há mesmo um problema sério para resolver e não vai lá só com (tuas) vacinas.

Tiago Franco é engenheiro de desenvolvimento na EcarX (Suécia)


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