Recensão: Fascismos - para além de Hitler e Mussolini

Uma viagem por um mundo tenebroso

por Bernardo Almeida // novembro 13, 2022


Categoria: Cultura

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Título

Fascismos: para além de Hitler e Mussolini

Autor

CARLOS MARTINS

Editora (Edição)

Desassossego (Outubro de 2022)

Cotação

17/20

Recensão

“Fascismo! São poucas as palavras tão abundantemente utilizadas e que, ao mesmo tempo, abarcam uma tão ampla quantidade de possíveis significados.”

Carlos Martins é um académico, com percurso iniciado em 2005 pela licenciatura em Línguas Modernas pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, passando depois por um mestrado em Estudos Anglo-Americanos em 2009, e culminando em dois doutoramentos: em Estudos Americanos ainda na mesma universidade em 2012 e um ano mais tarde em Política Comparada no Instituto de Ciências Sociais de Lisboa.

É com base nesta segunda tese, intitulada Fascist ideology and the conceptual approach: the conceptual configuration of fascist leaders, que a Desassossego, uma chancela da Saída de Emergência, publica esta interessante obra que escalpeliza o surgimento do Fascismo, ou, em bom rigor, dos fascismos ao longo do século XX, e que tantas marcas deixou nas sociedades e na História.

Sendo evidente que o Fascismo na Europa está hoje muito colado aos regimes de Mussolini e de Hitler, aquilo que este livro mostra é que não foram movimentos únicos, antes sim aqueles que fazem parte da memória colectiva, por terem tido um impacte mais desastroso.

E é precisamente isso que este livro – sugestivamente intitulado Fascismos: para além de Hitler e Mussolini – desoculta. Com efeito, Carlos Martins não apenas se dedica ao estudo dos casos mais famosos, mas também revela sobretudo os menos conhecidos, incluindo os regimes protofascistas que surgiram no princípio do século passado em vários países europeus, como a França e a Roménia e ainda no Brasil.

Como se sabe, nem todos os movimentos fascistas tiveram “sucesso”, de que o do Reino Unido constitui um bom exemplo. Mas, neste caso, merece uma análise especial, nem que seja pela curiosidade de o partido em causa, o British Fascists (1923-1934), ter sido liderado por uma mulher, Rotha Linton Orman. Isto sabendo-se que, nesta época, a política (e particularmente o fascismo) era um lugar sobretudo de e para homens, nem que seja pela violência associada.

O fascismo romeno é, aliás, um desses casos paradoxais entre a falta de fama histórica e a extrema violência utilizada na tentativa de impor o regime neste país.  A história da Guarda de Ferro e do seu líder, Corneliu Codreanu, merece uma leitura atenta.

No caso português, é comum associar, desde logo, a figura e regime de Salazar ao fascismo. Mas um dos aspectos interessantes deste livro é a visão que Carlos Martins nos mostra de que o fascismo em Portugal se inicia antes do aparecimento do Estado Novo, através de Rolão Preto, um homem que, curiosamente, acaba opositor de Salazar.

Carlos Martins apresenta ainda um glossário onde se encontram as principais organizações fascistas e antidemocráticas que existiram em países como a Argélia, Islândia e até na Austrália, demonstrando assim a amplitude mundial de regimes autoritários.

As últimas páginas deste livro são dedicadas às várias definições que o Fascismo teve ao longo dos tempos, nomeadamente na era mais moderna, a partir da década de 90 – como a do político britânico David Renton que defende que o Fascismo é um regime de massas que acaba a favorecer a burguesia.

Ao longo de 300 páginas, esta obra oferece uma visão sólida e contundente onde se percepciona que o Fascismo tem, talvez, menos de ideológico e mais de oportunista, uma vez que para lá fluem personagens de todos os campos políticos e ideológicos, e que muitas vezes mudaram de ideias de modo a atrair votos.

Para os amantes de História e de Política, este livro é assim, sem dúvida, uma excelente leitura, também pela profusão de pormenores e personagens menos conhecidas, mas que ainda assim tiveram o seu papel na ascensão e queda deste tipo de regime.

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