PELOTA EM PELOTA

Hoje: sem desculpas

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por Tiago Franco // novembro 24, 2022


Categoria: Opinião

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Passei a manhã toda a ouvir: “às 16 horas, Portugal entra em acção”. Permitam-me discordar.

Portugal entra em acção todos os dias, entre as 8 e as 9 da manhã, quando cinco milhões de pessoas trocam 8 horas do seu dia por menos do que 900 euros líquidos ao fim do mês. Ou quando um batalhão de professores de português, espalhados pela diáspora, picam o ponto em cada manhã. Ou quando centenas de enfermeiros portugueses entram ao serviço, todos os dias, em hospitais ingleses.

Ou até, aqui na minha cidade de Gotemburgo, quando largas dezenas de engenheiros, vindos de todas as partes do território nacional fazem mais uma linha de código para desenvolver tecnologia de ponta. São os milhões que trabalham desse lado e os milhões espalhados pelo Mundo que entram em campo, cada dia, para dignificar o estatuto de um povo.

Mais logo, às 16 horas, em verdade, vão entrar em campo um conjunto de milionários, liderados por outro milionário que, para além de incompetente, gosta pouco de contribuir para o Estado social, já que pagar impostos não parece ser com ele. O futebol move mundos e paixões, mas, aqui e ali, convém não perdermos de vista quem nos realmente representa.

O meu filho, que passou o dia a gozar com o amigo argentino (acho que desde os 5 anos que discutem quem é o melhor entre Messi e Ronaldo), dizia-me “agora espero que o Fernando Santos não faça asneira”.

Eu disse-lhe que, com todo o respeito pela selecção do Gana, se uma equipa como a portuguesa não conseguir ganhar à sexagésima primeira classificada do ranking mundial, então é melhor pararem de gastar dinheiro dos impostos e regressarem, sem muito barulho, às mansões de onde saíram.

Lembrei-me da entrada em competição da selecção de 2002, que também tinha uma geração de ouro no auge da forma, vindos de um europeu magnífico. O tal onde, 20 anos depois, já podemos dizer claramente que o Abel Xavier meteu a mão na bola e ofereceu um penalti a esse rapaz, de bons pés, chamado Zidane.

Nesse mundial de má memória, a selecção estreou-se com uma derrota contra os Estados Unidos, por 3-2. Um país que até ao presente dia ainda não sabe o nome da modalidade e acha que futebol é uma coisa que se joga com um melão, capacetes e almofadas nos ombros.

Lembro-me de, no calor da derrota, alguns jogadores dizerem que entraram nervosos pela espera de vários dias. Tinha sido uma das últimas equipas a entrar em campo. Ora, é exactamente a situação da nossa equipa hoje. Uma das últimas a entrar em competição e a ver selecções mais fortes como Argentina, Alemanha, Bélgica, Croácia e até Holanda, em sérias dificuldades frente a adversários mais fracos.

Quero só dizer que, se a coisa correr mal, não usem essa desculpa. Já tem 20 anos e não envelheceu bem.

Como qualquer português que gosta de futebol, passei o dia a imaginar o 11 de Fernando Santos. Arrisco o seguinte:

Diogo Costa, Cancelo, Pepe, Ruben Dias e Nuno Mendes na defesa, Um meio-campo de “segura até não dar mais”, composto por William Carvalho, Ruben Neves e Otávio, com Bernardo Silva e Bruno Fernandes mais soltos a tentarem meter a bola em Ronaldo, o único com apetência no 11 para chegar a um cruzamento, numa equipa que o mais parecido que tem com extremos são os defesas laterais.

Depois, Fernando Santos dirá a Ruben Neves para evitar remates de longa distância, como aqueles que faz na Premier League, não vá aquilo dar em golo.

Félix, Rafael Leão, Gonçalo Ramos e todas as opções que existem para tornar esta selecção numa trituradora de ataque, ficarão guardados para queimar tempo aos 83 minutos, quando Portugal estiver a ganhar 1-0, ou para os 60 minutos, caso Portugal esteja a perder por 1-0.

No meu íntimo, tenho a secreta esperança de, sabendo que esta é a sua última competição à frente da equipa lusa, o nosso Fernando decida arriscar e não ficar na História como o treinador mais medroso que orientou, provavelmente, a melhor e mais talentosa geração de jogadores portugueses de sempre.

Se ele entrar com Rafael Leão, Ronaldo e Félix na frente, deixando o meio-campo entregue a Bernardo Silva, Bruno Fernandes (ou Otávio) e apenas um trinco, retiro tudo o que escrevi e deixo aqui umas loas amanhã ao nosso engenheiro, que não gosta de impostos.

Certo, certo, é que, mesmo que a selecção nacional entre em campo com Diogo Costa, Ronaldo e nove trincos, ainda assim, terá a obrigação de vencer a equipa do Gana.

Diria mais: num grupo com Gana, Uruguai e Coreia do Sul, tudo o que não seja o primeiro lugar, é falhar.

Já vai sendo altura de cumprirem, no campo, o estatuto que carregam.

Sem desculpas. 

Tiago Franco é engenheiro de desenvolvimento na EcarX (Suécia)


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