PELOTA EM PELOTA

Uma pausa no racismo

black net

por Tiago Franco // novembro 26, 2022


Categoria: Opinião

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Assistia ao Arábia Saudita vs. Polónia, um chatíssimo jogo, onde os polacos provaram que jogam muito pouco (ainda devem estar a tentar perceber como ganharam) e os sauditas, apesar dos bons princípios de jogo e vontade extra demonstrada, exibiram pouco acerto no momento de finalizar.

Para me distrair, inventei um passatempo que consistia, essencialmente, em encontrar uma mulher nas bancadas repletas de apoiantes sauditas. Não passei do primeiro nível, e comecei então a pensar nos restantes jogos que tinha visto mas noutra perspectiva.

A vitória da Suíça contra os Camarões foi com um golo de um camaronês. Não foi um autogolo: Breel Embolo é um ponta-de-lança suíço mas nascido em Yaoundé, que se situa a 4.800 quilómetros da helvética Berna.

O empate dos Estados Unidos frente ao País de Gales saiu dos pés de um filho da Libéria. A vitória francesa frente a uma excelente Dinamarca, hoje e sempre, às costas de uma constelacão africana. A Holanda impôs-se ao Senegal com um golo de origem togolesa.

Ou até o nosso Rafael Leão, criado no bairro da Jamaica, entre vários emigrantes africanos; foi ele que selou a vitória sobre o Gana.

Numa altura em que por todo o lado se vão construindo muros, o futebol tem o poder de, por momentos, incluir toda a gente. Um prazo curto, bem sei, definido pela hipocrisia reinante.

Ainda assim, por uns momentos, todos festejamos o mesmo. O Ventura comemora um golo de um miúdo do bairro da Jamaica, em vez de o mandar para a terra dele. Até aposto que comemorou os golos do cigano em 2016.

A Le Pen passa a semana a gritar contra a vinda de magrebinos, mas depois, durante o Mundial, grita pelo Benzema ou pelo Zidane.

O Trump andava a fazer um muro para impedir os mexicanos de aparecerem no Texas, mas se algum hispânico marcar um golo no mundial, em princípio, vai levantar os braços. Se souber que está a decorrer um Mundial de soccer, claro.

O Lukaku disse numa entrevista que quando a Bélgica perdia e ele falhava um golo, a imprensa do dia seguinte referia-se a ele como o filho de congoleses. Quando acertava era o belga.

O Zlatan Ibrahimovic queixava-se de algo parecido. Se corria tudo bem, era o melhor jogador sueco de sempre; quando partia qualquer coisa, era o temperamento dos Balcãs.

No fundo, no fundo, o mundo da bola não é diferente da realidade que nos rodeia. Emigramos, mudamos de país, adoptamos outras culturas, deixamos gerações noutras paragens.

Quem defende um Mundo cheio de divisões e povos puros, não suporta essa mistura, não aguenta gente diferente, línguas desconhecidas. Passam três anos e onze meses a gritar contra emigrantes. Depois chega o Mundial e durante um mês somos todos um. Ninguém quer saber de cores desde que a bola entre.

Assim que se entrega a taça, e voltamos à vida do quotidiano, recomeça o racismo e a crítica a todos que chegam de algum lado na procura de uma vida melhor.

Nesta Europa que escolhe os muros, confesso que me sabe bem este mês de inclusão. É falsa, é hipócrita mas vemos de facto sociedades de nações em funcionamento.

Falta gente inteligente e educada, que perceba que pessoas não se dividem, misturam-se. E falando em gente educada, partiu hoje um cavalheiro, um desportista de eleição e um jogador que sempre admirei. Lamento o desaparecimento tão precoce do bibota Fernando Gomes. E também por isso, deixo aqui os meus sentimentos à família enlutada. 

Tiago Franco é engenheiro de desenvolvimento na EcarX (Suécia)


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