Recensão: A trilogia de Copenhaga

Há algo de podre no Reino da Dinamarca

por Maria Carneiro // novembro 27, 2022


Categoria: Cultura

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Título

A trilogia de Copenhaga

Autora

TOVE DITLEVSEN (tradução: João Reis)

Editora (Edição)

Dom Quixote (Setembro de 2022)

Cotação

16/20

Recensão

Neste livro, Tove Ditlevsen faz-nos uma descrição pungente da sua vida (o livro é autobiográfico), não hesitando em entrar em caminhos confessionais, explorando temas como a infância, a maternidade e as dificuldades da mulher em se assumir como artista, sem pudor e sem subterfúgios. O livro está dividido em três partes: Infância, Juventude e Relações Tóxicas; e foi publicado, pela primeira vez, nos anos 60 do século XXI, na Dinamarca.

Infância fala-nos sobretudo da sua meninice, num bairro pobre de Copenhaga, e na sua relação complicada com a família. A sua relação mais próxima é com o pai “no fundo da minha infância está o meu pai a rir-se e é negro e velho como a nossa salamandra mas não tem nada de assustador (…). Nunca me interpela por sua própria iniciativa porque não sabe o que dizer a meninas pequenas. De vez em quando, dá-me umas palmadas na cabeça e ri-se: ah, ah, ah. Nessas alturas a minha mãe torce a boca num esgar de desagrado e ele depressa retrai a mão.”

Com a mãe é diferente: “Já tenho quase seis anos e em breve serei matriculada na escola, porque já sei ler e escrever. A minha mãe conta-o, cheia de orgulho a quem a quiser ouvir. Diz assim: os filhos dos pobres também têm cabeça”. O irmão goza constantemente com ela e, sendo o preferido da mãe, provoca-lhe ciúmes constantes e dolorosos. Um dia descobre o seu caderno de poesia e isso é mais um motivo para o gozo e o escárnio permanentes. Tove é uma criança infeliz, quase sem amigos, e que se deixa manipular facilmente por qualquer um que lhe mostre um pouco de interesse e atenção. Vai ser assim a vida toda.

A segunda parte continua com a mesma toada: uma juventude cheia de problemas económicos, os poemas que continua a escrever às escondidas e as relações pessoais tumultuosas e muito pouco satisfatórias: amigos que se transformam em namorados (e em maridos) mas com quem ela, verdadeiramente, nunca cria laços. Para além disso, não consegue manter um emprego porque facilmente se desinteressa das suas obrigações e por um motivo mais ou menos trivial vai-se despedindo ou sendo despedida. Foi despedida como empregada doméstica, por ter esfregado um piano com água; foi ama seca de um menino que anunciou: “Tens que fazer tudo o que eu digo ou dou-te um tiro”. Sai de casa dos pais quando faz dezoito anos e vai morar para uma pensão que tinha o retrato de Hitler na parede; embarcou no primeiro dos seus quatro casamentos e teve um amante que lhe enviou cartas iguais às que escrevia a todas as suas amantes, como descobriu depois do fim do romance.

Por volta dos 20 anos publicou o seu primeiro livro de poesia, e tornou-se famosa. Mas, nem por isso mais feliz.

E, depois, nada nos prepara para a terceira parte: Relações Tóxicas. Ditlevsen, divorciada de um editor literário com quem casou só porque ele tinha aquela profissão, escapou das pressões desta segunda união condenada e nova maternidade, seguida de um aborto clandestino – que nos deixa um travo amargo pela forma como ela lidou com a situação e pelo facto de constatarmos acontecer, na Dinamarca, o mesmo que acontecia, em Portugal, no que diz respeito à educação sexual e à saúde da mulher –, e tropeçou nos braços do seu próximo marido, um médico silenciosamente perturbado, que preenche as suas necessidades como nenhum homem tinha feito antes, porque, para além de uma relação desigual, conflituosa e ciumenta a viciou em petidina.

Diz ela que o medicamento tem um nome que “soa como o canto dos pássaros”. Quando o marido lho dá, imediatamente, a felicidade mental e física que ela oferece é infinitamente mais intensa do que tudo o que sentiu até então. “Eu sorri-lhe agradecida”, escreve, “e o fluido entrou no meu sangue, elevando-me ao único nível onde eu queria existir. Depois ele foi para a cama comigo, como sempre fazia, quando o efeito estava no auge. O seu abraço era estranhamente breve e violento.”

À medida que a sua dependência se aprofunda, a narrativa torna-se total e agonizantemente compulsiva. Chega a um clímax doloroso, ainda mais comovente pelo facto de, após cinco anos de cativeiro no reino do vício, Tove consegue libertar-se quer do vício, quer do marido, mas nunca mais foi uma mulher inteira, apesar do amor com que foi rodeada pelo quarto marido e por Jabbe, a fiel criada que lhe tomava conta dos filhos nas suas ausências.

Acabou por falecer aos 58 anos, por overdose.

Um livro que é mais do que uma vida. É um testemunho histórico e um documento que nos ajuda a compreender, inclusive, a história daquele país.

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