PELOTA EM PELOTA

Taremi, Ronaldo e o rapaz da t-shirt

black net

por Tiago Franco // novembro 29, 2022


Categoria: Opinião

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Esperei pelo fim do dia para escrever a crónica de hoje por causa da hora do jogo mais interessante. Estados Unidos contra Irão daria tema similar a um Rocky VII, já que o russo Ivan Drago foi despachado na quarta sequela da série.

Quando Portugal não está envolvido no jogo, o meu coracão pende sempre para as selecções mais fracas, vindas de países pobres. Se um Mundial não servir para mais nada, serve pelo menos para nos retirar, por uns minutos, da miséria do quotidiano.

three white-and-black soccer balls on field

Por isso, gosto sempre de ver as selecções africanas ou sul-americanas envolvidas na festa. A qualificação do Senegal é uma excelente notícia e os jogos absolutamente loucos proporcionados por Gana (contra a Coreia do Sul), Camarões (contra a Sérvia) e Marrocos (contra a Bélgica) foram do melhor e mais puro que vi neste campeonato. Povos que viveram umas horas de felicidade antes de despertarem, novamente, para a sua realidade. E aqui lamento, obviamente, os distúrbios causados por adeptos marroquinos em Bruxelas.

No Estados Unidos vs. Irão jogava-se muito mais do que futebol. É um despique entre dois países que arrastam, há décadas, rivalidade e antagonismo no plano político internacional. Os Estados Unidos, país carregado de armas nucleares e, até à data, únicos no seu uso, decidem quem no Mundo pode e não pode ter esse tipo de armamento.

Nessa senda, andam a impor sanções ao Irão, há várias luas, acusando-os de enriquecimento de urânio e tentativa de produção de uma bomba nuclear. A NATO apoia a Ucrânia pelo seu principal fornecedor (Estados Unidos) e o Irão vende drones à Rússia. Nas discussões do Médio Oriente, os Estados Unidos apoiam a Arábia Saudita, Israel, os rebeldes sírios, e ainda os curdos, quando dão jeito. O Irão apoia a Palestina, o Hezbollah libanês e tudo o que os americanos não gostem. Em resumo, são dois países inimigos e, naquela zona do Globo, depois de Iraque e Afeganistão, é o Irão o alvo a abater pelos norte-americanos.

Close-up of a white line on green grass in a soccer field

Os jogadores do Irão sentem a pressão de terem o Mundo contra eles. Ouve-se nos assobios durante o hino, percebe-se nas perguntas dos jornalistas. Pouco importa se eles não são responsáveis pelo abjecto regime que os governa e se até, dentro das possibilidades, demonstram publicamente o seu apoio aos que se manifestam nas ruas de Teerão.

E por isso, por sentir que correm sozinhos contra o Mundo, representando um país que existia e existirá para lá deste regime, eu desejava-lhe um final feliz nesta qualificação. O jogo, no entanto, mostrou uma selecção norte-americana muito superior no campo. Aliás, depois de ver os três jogos desta equipa, é justo dizer-se que no seu soccer os Estados Unidos possuem um conjunto de jogadores muito interessantes. Jogam bem, correm muito, apresentam boa consistência defensiva e circulacão de bola. Vê-se alguma experiência nestas andancas, ao contrário dos parceiros da Concacaf, o Canadá, que joga um futebol de rua, onde atacar é a palavra de ordem, sem grande capacidade de segurar a bola, controlar os momentos de jogo ou até defender com alguma solidez.

Não sei se daqui sairão aproveitamentos políticos, mas, no campo, onde a coisa se decidia, os Estados Unidos foram melhores e venceram justamente.

Agora, sem os iranianos no Qatar, pode ser que a comunicação social comece a massacrar outros jogadores nas conferências de imprensa a propósito dos regimes que representam ou das mortes que vão causando. Pessoalmente, espero que Taremi e companhia continuem a aproveitar, e bem, a exposição social para protestarem contra o regime. Ultrapassam a sua missão como desportistas e, por isso, a minha vénia.

Vénia essa que alargo ao corajoso que apoiou, em sprint no meio do relvado durante o Portugal vs. Uruguai, três causas com uma t-shirt e uma bandeira. A realização televisiva, num país que não sabe o que é democracia ou liberdade de expressão, fez o que se esperaria: desviou a imagem. Como se não existisse…

P.S. – No dia seguinte à vitória portuguesa sobre o Uruguai, a discussão centrou-se na autoria do nosso primeiro golo. As imagens de Ronaldo, ao intervalo, a insurgir-se contra o árbitro, pedindo que lhe atribuísse o golo (retirando-o, pois, a um colega) é algo que não consigo compreender à luz do espírito de camaradagem num desporto colectivo. A bola entrou, Portugal ganhou; o que é que importa se Ronaldo fica com 800 golos ou 801? Bem sei que devemos muito, desportivamente, a este rapaz, mas esta obsessão pela marca pessoal, em vez dos interesses da equipa, é algo que já me começa a irritar. Irritado, aliás, também deve ter ficado Fernando Santos que, pela segunda vez, viu a equipa a jogar muito pouco e a falhar o empate desejado. Estamos assim nos oitavos ao fim de dois jogos. Não conseguimos lidar com isto sem, pelo menos, uma conta de somar que seja. Tudo anda estranho neste Mundial. 

Tiago Franco é engenheiro de desenvolvimento na EcarX (Suécia)


N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.

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