Recensão: Arquitectura do bacalhau e outras espécies

As formas que tecem os nossos mares

por Paulo Moreiras // Dezembro 16, 2022


Categoria: Cultura

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Título

Arquitectura do bacalhau e outras espécies

Autores

ANDRÉ TAVARES e DIEGO INGLEZ DE SOUZA

Editora (Edição)

Dafne Editora (Novembro de 2022)

Cotação

17/20

Recensão

De quando em vez, eis que surge um livro com uma abordagem diferente e inovadora a determinado tópico, numa ligação não só curiosa como disruptiva.

Foi o que fizeram dois arquitectos, André Tavares (n. 1976) e Diego Inglez de Souza (n. 1978) – em colaboração com Marta Labastida, Daniel Duarte Pereira, Aitor Ochoa Argany e José Pedro Fernandes –, ao estabelecerem um paralelo entre a arquitectura e a biologia marinha, no impacto que a pesca de certas espécies provocou sobre a paisagem e o território nacional: “A fisiologia e as dinâmicas da ecologia marinha subjacentes a cada espécie geram processos predatórios que, a partir de certa escala, constroem arquitectura e paisagem.”

Espécies essas que vão desde o bacalhau, a sardinha, o atum até à pescada, ao trio polvo ou o peixe-galo e o tamboril, fundamentais para a alimentação dos portugueses,  e também muito presentes na nossa cultura e antropologia marítima.

Esta análise desenvolve-se em dois eixos. Primeiro, “ao olharmos para os peixes, para o seu comportamento no quadro da biologia marinha, e, em contraponto, ao compreendermos as transformações em terra que ocorrem em função dessas dinâmicas”. Depois, tendo como ponto de partida uma interpretação dos ecossistemas marinhos em função dos processos construtivos terrestres, constatando-se “que a arquitectura tem uma história cruzada com o mundo dos animais, as dinâmicas dos oceanos e a biologia.”

No âmbito do bacalhau, entende-se, como arquitectura, “as secas construídas em vários pontos da costa portuguesa, mas também os armazéns frigoríficos que lhes serviram de apoio, os cais de acostagem que acolhiam os navios da pesca e comércio, as lojas e entrepostos que garantiam a sua distribuição.”

Para a arquitectura da sardinha, destaque naturalmente para as “fábricas de conserva, as construções precárias que acompanham a sazonalidade da circulação das espécies ao longo da costa e os palheiros de apoio à arte xávega”.

De acordo com os autores, também as armações de pesca “são obras de arquitectura do mar”, assim como as redes, as bóias de marcação, “que territorializam a paisagem marinha, dão nome a lugares que, de outro modo, seriam imperceptíveis na linha do horizonte”.

Mas para tudo isto, para este novo olhar, concorre também uma interpretação das políticas pesqueiras promovidas e desenvolvidas pelos vários governos, com destaque naturalmente para o Estado Novo, quando implementou uma mitologia associada ao bacalhau, construindo um paralelo com a epopeia dos Descobrimentos. Por isso mesmo, é importante ler e compreender este livro, pois “ler a história do bacalhau pela arquitectura das suas construções oferece uma imagem alternativa à história oficial do «bacalhau nacional», tornando evidentes as contradições do Estado Novo”.

Outra tónica que percorre todo o livro e um dos seus principais trunfos, é a constante preocupação com os ecossistemas marinhos devido à pressão exercida pelas empresas na forma predatória como exploram os recursos: “o que a história da arquitectura mostra é a necessidade de estudar e considerar os ecossistemas com que as políticas terrestres se relacionam para evitar destruir os ecossistemas que asseguram a sobrevivência das populações”.

Esta recensão será sempre parca para as muitas informações que os autores disponibilizam. São múltiplas as chaves de leitura que o livro oferece para análise e interpretação dos dados apresentados, que vão desde a biologia dos animais às tecnologias da pesca e processamento do pescado, da política às práticas de consumo, entre muitos outros.

O livro, enquanto objecto estético, apresenta um design gráfico cuidado, elegante e moderno, com ilustrações minimalistas de excelente recorte. Destaque também para as muitas fotografias, mapas e desenhos arquitectónicos que ilustram as páginas do livro, engrandecendo vividamente esta edição.

Nas últimas páginas, André Tavares deixa no ar a necessidade de continuação deste género de estudos para o futuro: “este livro é uma primeira aproximação a um problema complexo, e esperamos que possa contribuir para uma história ecológica da arquitectura que está a ser construída”. O primeiro passo está (bem) dado.

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