histórias que eu sei

Carta aberta a Cristiano Ronaldo sobre o Vítor Baptista

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por Frederico Duarte Carvalho // janeiro 21, 2023


Categoria: Opinião

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Caro Cris,

Não nos conhecemos pessoalmente, nunca falámos sequer profissionalmente, pelo que, na realidade, deveria tratar-te por Cristiano ou Ronaldo ou, de uma maneira mais formal, Senhor Aveiro. Mas como sei ser assim que te tratam na Selecção, uso o mesmo tratamento por “tu”. Espero que não faça diferença para aquilo que sinto ter para te dizer.

Poderás perguntar: mas quem é este “Carvalho” que vem procurar protagonismo à minha custa? É verdade, podes pensar isso e, acredita, haverá por aí muita boa gente que vai fazer o mesmo tipo de pergunta.

Explico então: sou jornalista da área da política nacional e internacional. Entre obras de ficção e de investigação jornalística tenho já quase vinte livros publicados. Escrevi sobre temas complicados e polémicos, como a morte do primeiro-ministro Sá Carneiro e os encontros internacionais dos ditos “Donos do Mundo” – Grupo Bilderberg. Não há nada que me ligue ao desporto, excepto… bem, Cris, talvez até poucos o saibam, mas o meu primeiro livro de todos, publicado no Verão de 1999, foi sobre um jogador de futebol.

Um jogador de futebol chamado Vítor Baptista, dito “O Maior” – era esse, aliás, o título do livro. No início deste mês, no dia 1 de Janeiro de 2023, cumpriram-se exactamente 24 anos desde o seu falecimento. Tinha 50 anos e morreu na cama da casa da sua mãe. Estava doente, pobre e abandonado pelos amigos. Tinha ele então a mesma idade que tenho eu hoje. Talvez, por isso, com estas emoções todas, me tenha lembrado de escrever-te esta carta.

Nasci no mesmo ano – 1972 – em que, por exemplo, também nasceu um jogador que conheces bem: Luís Figo. Somos, eu e ele, da mesma geração. Crescemos sem termos visto jogar o Pelé e Eusébio, mas conhecíamos os seus feitos graças a gravações de jogos às memórias dos mais velhos.

Sou assim da geração que tinha 6 anos quando apareceu a “Tango”, a bola do Mundial de 1978 na Argentina, a mais linda que alguma vez se fez e que apareceu pela primeira vez no Mundial de 1978. Aos 10 anos chorei quando uma das melhores equipas do Brasil – com Sócrates, Zico e Falcão – foi eliminada pelos três golos do Paolo Rossi, em Barcelona. Nunca ninguém tinha feito um hat-trick ao Brasil e nunca mais ninguém fez depois. Foi o único até hoje. Nem quando perderam 7-1, em 2014, frente à Alemanha.   

Cris, sim, também eu quis ser jogador de futebol e driblar como Futre ou Maradona, fazer a “chilena” do Hugo Sanchéz ou marcar com o calcanhar como o Madjer na final de Viena de 1987. Joguei nos iniciados do Francos, o clube do meu bairro no Porto, ao lado do Estádio do Bessa – sou boavisteiro, se quiseres saber – até que descobri que o futebol não é para todos.

Era preciso estudar e lembro-me de, a caminho de um jogo no Bessa, chamarem-me a atenção para um jogador do Benfica, que fora um dos melhores e, por não ter instrução, caíra na droga e vivia então dentro de um carro. Ainda não o sabia, mas esse era o Vítor Baptista que eu viria a conhecer mais tarde. As esperanças de uma carreira no futebol terminaram quando acompanhei o Sá Pinto a um treino do Salgueiros para os lados de Campanhã – frequentávamos a mesma escola secundária. Ele ficou e eu vim embora porque o plantel já estava cheio. Não tinha talento suficiente para os convencer a deixarem-me ficar. Dediquei-me ao jornalismo, que requer bem menos talento e, como deves calcular, também paga menos.

No Verão de 1997, após os estudos no Porto e o início da profissão no diário portuense “O Primeiro de Janeiro” cheguei a Lisboa para trabalhar no “Tal&Qual”. Foi a “contratação milionária” de um jornalista do Porto para a equipa da capital. Acabei por ir inaugurar as instalações do jornal no edifício na Praça Marquês de Pombal, onde passaria ainda a funcionar a revista “Visão” e um novo jornal diário, o “24 Horas”.

É engraçado, mas ao ver o teu percurso de vida, verifico que foi nessa mesma altura – época 1997/ 1998 –, que deixaste a tua ilha da Madeira e, com apenas 12 anos, também vieste para Lisboa. Não sei se foste logo viver para a pensão residencial D. José, no número 79 da Avenida Duque de Loulé, próxima do edifício onde estavam os jornais, no número 13 da Praça Marquês de Pombal.

Foi aí, nesse edifício, num fim-de-semana em que estava tudo vazio que, na Páscoa de 1998, fiz a última entrevista ao Vítor Baptista. Conhecera-o uns meses antes, quando me mandaram ir entrevistá-lo a Setúbal. Sabes o que é que ele fazia nessa altura? Estava a trabalhar como coveiro. Um emprego que a Câmara Municipal lhe arranjara para tentar resgatá-lo do mundo da droga. E foi ao vê-lo, ainda com pose de atleta, com sachola na mão para abrir as covas, a arrancar ervas daninhas saindo entre as pedras da calçada com pequenos toques de pé encurvado – os mesmos pés que, anos antes, em outros relvados, faziam levantar multidões –, percebi que tinha de escrever um livro sobre ele.

Ele, que fora o maior da sua geração, que tivera tudo, perdera tudo…

Não sei, Cris, se conheces o percurso desportivo do Vítor, mas ele, tal como tu, era de uma família pobre – os pais trabalhavam na indústria da conserva em Setúbal. O Vítor perdeu o pai aos 12 anos e começou a trabalhar como electricista e canalizador ao mesmo tempo que jogava nas escolas do Vitória de Setúbal. Aos 18 anos, o treinador Fernando Vaz chamou-o para a equipa principal e teve a estreia no jogo contra o Leixões, na segunda mão da eliminatória da Taça de Portugal, a 18 de Junho de 1967, no Estádio do Mar, em Matosinhos. Vítor fez a assistência para o primeiro golo na vitória de 3-0.

Esteve depois na eliminatória contra o FC Porto e foi jogar a final da Taça de Portugal de 1967, no Estádio Nacional, contra a Académica de Coimbra, onde ganhou o seu primeiro título: “Acho que não há nenhum jogador de futebol no mundo que tenha ganho a taça do seu país aos 18 anos. Eu devo ser o único”, disse-me ele na entrevista. Na altura não verifiquei, mas registei que era essa uma das memórias de vida que nunca lhe tinham tirado. Há outros, mas ele está lá também.

As duas épocas seguintes não tiveram grande história e Vítor jogou apenas como jogador de meio-campo. Nunca marcou golos. Mas o destino mudou quando o treinador do FC Porto, José Maria Pedroto, incompatibilizou-se com a direcção portista e, em Abril de 1969, assinou contrato com o Vitória de Setúbal. Fernando Vaz foi para o Sporting. O “teu” Sporting, Cris. Quando chegou ao Bonfim, Pedroto percebeu como deveria lidar com Vítor Batista e fez dele o goleador que precisava. E sabes contra quem foi o primeiro golo do Vítor: foi no Bonfim contra o antigo clube do seu novo treinador, o FC Porto!

Fiquei emocionado durante aqueles primeiros meses de 1998, o ano da Expo, quando ocupava os meus tempos livres a ler os arquivos dos jornais desportivos na Hemeroteca de Lisboa, ao Bairro Alto, a consultar a carreira do Vítor, que começara anos antes de eu ter nascido. A 9 de Novembro de 1969, Vítor entrou em campo aos 78 minutos, quando o jogo estava já com 4-0, mas ainda fez o quinto tento da partida – se fores verificar, o golo aos 88 minutos está atribuído a um jogador do FC Porto, Valdemar, como tendo sido na própria baliza. Mas foi porque estava a tentar parar o remate do sadino. O golo foi mesmo dele.

Na segunda volta, a 1 de Março de 1970, nas Antas, sabes quantos golos o Vítor marcou ao FC Porto? Dois. E sabes porquê? Porque à entrada do túnel, viu o Pedroto a acender um cigarro com um isqueiro de ouro “Dupont” e gabou-lhe o gosto. O treinador virou-se para ele e disse, à frente dos companheiros, que o isqueiro era dele se marcasse dois golos. Quando marcou o segundo, foi a correr para o banco a bater no peito e a gritar “O isqueiro é meu! O isqueiro é meu!”. Perdeu-o mais tarde numa camioneta para Setúbal.

Não foi só o isqueiro que ele perdeu durante a vida. Mais famosa é a história do brinco que perdeu após ter marcado um golo ao Sporting e parando por momentos o jogo para o procurar. Nunca o encontrou. Dessa história, quase de certeza, já ouviste falar.

Vítor Baptista e Frederico Duarte Carvalho nos anos 90.

Na segunda época de Pedroto à frente do Vitória de Setúbal, a de 1970/ 71, o Vítor só não foi o melhor marcador do campeonato porque, na última jornada, tinha 22 golos, o mesmo número de tentos de Artur Jorge, que jogava no Benfica. E o Artur Jorge conseguiu marcar dois golos contra a sua anterior equipa, a Académica de Coimbra.

Em 1998, o Vítor ainda não tinha digerido isso. Queixou-se a mim que os dois golos da última jornada, a 2 de Maio de 1971, tinham sido “gamados” e explicou: “Uma coisa que o Artur Jorge nunca soube fazer na sua vida foi fintar todos em campo. O homem atrapalha-se, pois só sabe jogar bem dentro da área. Então como é que ele dribla todos os jogadores da académica que caem de cu?” – já agora, para que vejas como são as coisas do futebol (e eu sei que sabes melhor do que ninguém), os golos que deram o título de melhor marcador ao jogador do Benfica foram marcados ao cair do pano, aos 79 e 88 minutos, quando os encarnados já venciam a Académica por uns confortáveis 3-1. Vítor, a jogar no campo pelado em Faro, e fortemente controlado, não conseguiu fazer a sua parte. Mas nunca esqueceu.

É claro que, com aquelas exibições, surgiu o interesse de outros clubes. E sabes, Cris, o Vítor até queria ir jogar para o “teu” Sporting. Pagavam-lhe mais. O Sporting oferecia-lhe 1800 contos por três anos, fora as luvas. O Benfica dava 1200 pelos mesmos três anos. Mas a decisão estava nas mãos do Setúbal e no seu direito de opção. E como o Benfica ofereceu – com salários pagos pelo clube da Luz – o “bom gigante” Torres, um dos heróis da selecção de 1966, mais uma promessa chamada Matine e ainda 3 mil contos (que serviu para construir uma bancada no Bonfim), Vítor lá teve de se contentar com a ida para o Benfica. E com o dinheiro da assinatura do contrato, comprou uma vivenda em Setúbal.

Vítor Baptista trabalhou como coveiro em Setúbal nos últimos anos de vida.

O resto, como se costuma dizer, é história. Foi campeão nacional pelo Benfica cinco vezes (mais uma Taça de Portugal), onde criou a fama de indisciplinado e arrogante – hoje diriam “dotado de personalidade própria” e “excêntrico”. Seriam muitas mais as histórias sobre a sua vida dentro e fora dos relvados numa carreira desportiva que, depois de ter saído do Benfica, em 1978, levou-o a saltitar entre vários clubes – Vitória de Setúbal, Boavista, San Jose Earthquakes (nos EUA, onde esteve 15 dias), Amora, Montijo, União de Tomar, Monte da Caparica e Estrelas do Faralhão. Deixou de jogar em 1986, tinhas tu um ano de vida.

Cris, quero que saibas que o Vítor nunca deixou de ser aquele menino pobre que tinha a alegria de jogar à bola e era mesmo o melhor de todos. Estava à frente do seu tempo. Um tempo que ele abriu para ti, para que os melhores possam ser hoje quem são sem se preocuparem com o que digam sobre si.

O problema do Vítor foi que tinha 25 anos quando a liberdade do 25 de Abril chegou e começou a experimentar drogas. Também não tinha responsabilidades com filhos – confidenciou-me uma história trágica de como, numa discussão com uma mulher que dizia estar grávida de uma menina, sua filha, bateu-lhe (ela estava com uma caçadeira, não perguntes) e, alegadamente, acabou por provocar a morte da criança.

As más decisões da vida, o facto de ter crescido a jogar à bola como um menino que nunca deixou de ser, não o preparou para um mundo cruel depois do futebol.

É isto que quero dizer-te, Cris: és o melhor do mundo, “O Maior” da tua geração e acho que vais jogar até aos 40 anos ou mais – tens corpo para isso e só precisas de organizar o espírito. Mas até lá, lembra-te daquilo que aprendi com o Vítor: a tua vida a sério só vai começar quando o menino que eras aos 12 anos, o menino pobre da ilha da Madeira, que foi viver para a pensão da Duque de Loulé e comprou depois um apartamento de 8 milhões ali perto, no alto do Parque Eduardo VII para mostrar a todos que venceu na vida, esse menino, Cris, vai ter de saber sobreviver num mundo diferente quando tiver de deixar de jogar à bola.

Não vais ter amigos se perderes o dinheiro – é muito, eu sei, e deve demorar séculos a ser gasto, mas acredita há muita gente disposta a ajudar-te a gastá-lo rapidamente. Sabes qual é a frase que guardo do Vítor? É uma que ele me disse quase no fim da entrevista, com a voz gasta da droga: “Eu nasci nu e agora olha para mim, já tenho uma roupinha, estou a ganhar! Portanto, saio desta vida com mais do que trouxe, sempre é alguma coisinha e agora está a dizer que sou um teso? Eu sou rico, tenho mais roupa do que quando nasci!”.

Sei que sabes estas coisas todas e estás mais do que avisado. Estás avisado porque, se calhar, já conhecias esta ou outras histórias parecidas. Se calhar, naquela Páscoa de 1998, mesmo sem o saberes, pode ser que te tenhas cruzado com o Vítor por Lisboa. Ele, quase a fazer 50 anos, doente, sabendo que iria morrer dali a uns meses – disse-me e não se enganou – e tu, criança, a sonhar com vitórias e glórias.

A tua verdadeira vitória virá com aquilo que vais fazer depois de deixares de jogar à bola.

Lembra-te disso, Cris.

Abraço. 

Frederico Duarte Carvalho é jornalista e escritor


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