Recensão: O mundo pelos olhos da língua

As delícias dos erros e os prazeres das falácias

por Pedro Almeida Vieira // Fevereiro 7, 2023


Categoria: Cultura

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título

O mundo pelos olhos da língua

autor

MANUEL MONTEIRO

Editora (Edição)

Objectiva (Novembro de 2022)

Cotação

17/20

Recensão

Por mais excelso que seja um escritor, ou dotado que seja um jornalista – e permitindo uma só pessoa possuir os dois predicados pela ordem indicada, ou inversa –, não há jamais capacidade para se livrar de um aziago e medonho companheiro: a gralha. Ou como gralhas. Muitas ou poucas, são horrorosas, envergonham qualquer escriba.

Se, como sucede com a PÁGINA UM, as folhas forem digitais, a vergonha mostra-se efémera. Entra-se no backoffice e corrige-se, sendo certo que quem viu, já viu, mas já passou.

Em papel mostra-se mais complicado, sobretudo em livros. É mais persistente. Fica para a eternidade. José Saramago, por exemplo, confessou com propriedade que “quando pegamos no livro novo [da nossa autoria] e abrimos, a gralha normalmente aparece imediatamente, é a primeira bofetada que levamos”, contando depois ao jornalista (e também escritor) João Céu e Silva a famosa gralha da primeira edição do Memorial do Convento em que alguém decidiu corrigir (mal) a expressão “estridor operática”, que passou a “escritor operário”.

Há uns anos, a editora e escritora Maria do Rosário Pedreira também contava, no seu blog Horas Extraordinárias , o caso de uma editora australiana que publicou um livro de culinária onde se recomenda acrescentar na receita de tagliatelle com sardinhas, em vez de “salt and black pepper” (sal e pimenta preta), "salt and black people“ (sal e gente preta). Retirar os livros do mercado custou-lhe cerca de 20.000 dólares australianos.

Sendo certo que as gralhas irritam – e causam fúrias, mas também histórias deliciosas que até valorizam edições para bibliófilos –, acrescem aos involuntários corvachos os demais erros dos escritores, que nem sempre escrevem tão bem como parece, numa perspectiva ortográfica e gramatical.

Não se critique os autores em demasia. Numa língua de tamanha riqueza mas de imensas regras, mostra-se impossível saber-se tudo, lembrar-se de todas as exceções, saber a globalidade dos detalhes linguísticos. Por exemplo, sabem todos em que circunstâncias se escrevem glaciares e glaciais? E sabem também que é correto escrever que ser leve é melhor do que ser pesado, mas já assim não será se se disser que ser pesado não é o mesmo do que ser gordo? E quanto ao gênero de certas palavras? Aluvião? Amálgama? Pulseira? Cotonete? Dengue? Entorse? Usucapião? Acertam em tudo? Ah!, e as vírgulas!, onde e como as colocar de modo correcto, para evitar mal-entendidos?

Na hora de publicar um livro – ou até um jornal –, o melhor amigo do escritor (e também do editor) acaba por ser o revisor. O seu trabalho é discreto (uma linha na ficha técnica do livro) e meticuloso, mas de enorme erudição. Para tudo ficar perfeito, não basta ele ter bom olho (ajuda, é certo); tem ele de (ou que?) saber preciosismos ortográficos e gramaticais. E o mais que (nos) vale. Para um escritor, o revisor é o seu pára-quedas, embora também deva ele (o escritor) aprender com o saber dele (o revisor).

Daqui se vê que o escritor não sonha apenas com bons leitores; deseja ardentemente um bom revisor. Ora, um desses revisores perfeitos é – dizem-me, e parece ser – Manuel Monteiro, que nos últimos anos, além de trabalhar para evitar vergonhas alheias (dos autores), tem aproveitado para escrever livros sobre a arte de não escrever mal, ou pelo menos a de não cometer erros muito horríveis enquanto se dedilha no teclado. 

Começou em 2015 com Dicionário de erros frequentes da língua e, mais recentemente, lançou Por amor à língua (2018) e Sobre o politicamente correto (2020), além de um livro de contos, tudo obras que, talvez infelizmente, (ainda) não se leram.

Se forem como O mundo pelos olhos da língua serão, por certo, obras não só de grande utilidade pedagógica como de diversão didática. Pelo menos neste, Manuel Monteiro usa um estilo escorreito, associado a um humor peculiar, para nos apresentar uma deliciosa colectânea de erros (ou dúvidas quotidianas na arte da escrita), e não só, agrupando tudo em 11 categorias, com mais de uma centena de "casos", quase todos hodiernos – que parece ser palavra que o autor aprecia muito. 

Em muitos casos, os erros são tratados de uma forma sucinta; Manuel Monteiro vai logo ao osso, porque basta curto e grosso para se cortar o mal pela raiz. Noutros, espraia-se mais, como um contista, como sucede na história do menino italiano que escreveu para a Accademia della Crusca depois de inventar uma palavra nova: petalosa. Ou errada.

Mas não só de léxico, ortografia e gramática vive O mundo pelos olhos da língua . Particularmente interessante é, já na parte final do livro, o conjunto de falácias usadas em discussões (aí está) hodiernas: a falácia do falso nexo de casualidade, a falácia do verbo poder (muito usada pelos jornalistas mainstream nos últimos anos), a falácia da exceção, a falácia da adversativa, a falácia do espantalho, a falácia “E se fosse com o seu filho?”, a falácia “O que ganhou fez tudo certo”, a falácia da tradição e a falácia do afunilamento. Depois disso, há ainda mais umas páginas de armadilhas, truques e (arti)manhas para vencer ou evitar segredos. Os rótulos, por exemplo.

Um livro para ir lendo e relendo, até se aprender a não errar... tanto. Até porque, enfim, teremos sempre necessidade de revisores. Humanos e eruditos.

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