Tinta de Bisturi

O silêncio rasgado

stainless steel scissor

por Diogo Cabrita // Março 12, 2023


Categoria: Opinião

minuto/s restantes


 

A ti, que estiveste internado nos serviços de saúde durante a tal crise de 2020 a 2021, abre a porta do silêncio e conta-lhes o que viveste.

Cidadão com teste na narina positivo era internado numa cama, num quarto de um ou vários, janelas fechadas e penico alto debaixo da cama.

Preso na habitação fechada, sem renovação de ar com o penico pertinho da mesa da comida, confundindo cheiros.

A spotlight coming from a hole in a dark underground cave in Minorca

Vinham pessoas impossíveis de identificar, vinham técnicos completamente limitados por roupas de protecção, e ajudavam a higiene, despejavam os penicos e traziam comidas.

A medicação decorria nas mesmas condições. Não pode sair! Não pode abrir a janela! Deite-se!

O musgo acumulava-se nos tectos e o mau cheiro crescia.

A doença nuns progredia de modo inexorável para um fim trágico, e noutros havia um despertar.

A liberdade dependia do cotonete na narina.

A progressão da doença assustava os técnicos que viviam em pânico de ir para um daqueles insalubres lugares.

O susto era produto da informação externa aos hospitais, veiculada por alarmistas médicos, alucinados matemáticos que previam o apocalipse. Assustados iam para casa e dela voltavam.

person taking photo of grey concrete stairs

Os meses passavam e os cenários eram iguais, cada vez mais simples, mais previsíveis, com mais gente que ficara infectada e regressava sã. A larga maioria das pessoas contraía a doença e melhorava.

Havia uma recomendação de fechar-se em casa uns dias e depois, apesar do que se diz nos livros, regressava imune, carregava medo igual, e protegia-se do mesmo modo.

Um tempo de fazer pela ignorância do medo, sem ousar acreditar numa vírgula que fosse do que se escrevera até hoje. Assim fecharam-se milhares de pessoas, incomunicáveis permaneceram durante anos alguns idosos, converteram-se lugares de escrutínio da vontade e da opção livre, em casernas militares e presídios obrigatórios. Os filhos arrasados de receio fugiam dos pais.

A mim perturba-me imenso aqueles encerramentos de jovens e idosos no sanatório dos Covões durante semanas, como se estivéssemos nas trevas da lepra, no pior tempo da SIDA, no maior obscurantismo da Idade Média.

woman holding her face in dark room

Se tivessem morrido 7% das pessoas que contraíam a doença (faleceram menos de 0,9 e sobretudo os muito doentes, ou idosos em fim de vida e, como em tudo na vida, raras excepções), tínhamos voltado à mais negra das noites. Tinham-se matado vizinhos, tinham-se libertado as feras dentro de nós, pessoas viravam bestas – se é que alguns não viraram.

O que testemunhei nos hospitais durante a crise de 20/21 é uma das facetas mais tristes da menoridade humana e daquilo que o medo expresso nas redes de informação catapulta.

Diogo Cabrita é médico


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