VISTO DE FORA

Uma comissão de inquérito à Republica das Bananas

person holding camera lens

por Tiago Franco // Abril 7, 2023


Categoria: Opinião

minuto/s restantes


A comissão parlamentar de inquérito à TAP ainda vai no seu início e já parece a História, em três volumes, de uma República das Bananas. Uma pessoa ouve aquilo e pensa como é possível tamanho deboche e destruição de património público. Sim, a TAP é património público e, ao contrário do palco no Trancão, património daquele que interessa.

Sem grande surpresa, PS e PSD estão naquela comissão em missão de passa-culpa. Nenhum tem grande interesse em tornar a TAP um caso feliz de gestão. Apenas tentam esconder as suas irresponsabilidades, culpando o companheiro do centrão.

Nesse aspecto, devo dar os 12 pontos, à la festival da canção, ao PS, por convidar a CEO da TAP para uma reunião na véspera do dia em que seria ouvida. Reunião essa onde estava o deputado que, por sua vez, na comissão de inquérito do dia seguinte, a questionou.

Christine Ourmières-Widener assumiu que descobriu ter sido demitida pela comunicação social e, provavelmente, compreenderemos daqui a uns tempos que a indemnização a pagar-lhe ainda será maior. Mais uma trapalhada do governo de António Costa na sequência de um sem número de confusões na transportadora aérea nacional.

Também percebemos que a indemnização de Alexandra Reis contém ilegalidades que a CEO da TAP não sabia, e, segundo ela, se limitou a confiar nos advogados do processo. Há ainda a história mal contada do escritório de advogados que deu apoio, pertença do irmão de Marcelo Rebelo de Sousa.

Há o episódio de Alexandra Reis que disse, entre outras coisas, que proibiu qualquer negócio entre a TAP e a empresa do marido de Christine Ourmiéres-Widener. Ficou no ar uma zanga de comadres, mas ainda não consegui perceber o convite para secretária de Estado. A simpática da Christine também não sabia de nada.

Christine Ourmières-Widener

Já sabíamos das indemnizações de 500.000 euros aprovadas por sms e ligeirezas do género.  Alexandra alega que já tentou saber quanto é que deve devolver, mas, ao que parece, ninguém lhe responde. Só a mim é que a EDP não perdoa três euros que sejam. 

Pelo que percebi ainda estão mais 50 pessoas em fila para serem ouvidas e, portanto, esta novela promete, mas cheira-me que no último episódio tivemos o que será um dos momentos best of.

Um alegado pedido da Presidência da República chegou à TAP, para que o horário do voo entre Maputo e Lisboa fosse alterado, de forma a facilitar a vida de um passageiro. Ignorando, lá está, os restantes 200 e tal ocupantes do A330 que voava para a capital portuguesa.

Há até um e-mail de um secretário de Estado a pedir que a TAP desenrasque a coisa para o Governo continuar a agradar ao seu aliado de Belém. O mail tinha um smile, mas faltou-lhe um gratidão. O secretário de Estado entretanto despediu-se e voltará daqui a uns meses para outro tacho qualquer.

Espero, ardentemente, que o Marcelo comentador, sempre disponível para opinar sobre tudo, não se cale por muito mais tempo.

Liberais gritam que “é por isto que a TAP não pode ser pública”, acrescentando que “este dinheiro podia ser aplicado em hospitais e escolas”, as tais que eles não defendem. Há todo um campo fértil para a a direita mais ou menos populista aproveitar. Mas é um facto que a TAP serve de bode expiatório para o pior que a administração portuguesa tem. Corrupção, encosto de boys do centrão, jogos de interesses, má gestão de dinheiro público.

Alexandra Reis

No fundo, o mesmo que acontece em qualquer uma daquelas empresas parasitas que vivem no erário público, câmaras municipais, institutos públicos e todos os sítios financiados pelo Orçamento do Estado. Só que são mais pequenos, mais anónimos. Mas o princípio é o mesmo: desvio de dinheiro público, desonestidade, corrupção.

Está-nos no sangue, e é uma das razões basilares do nosso atraso. Ainda não percebemos que ao roubar o que é de todos, também roubamos a nós e aos nossos filhos.

Com a TAP tudo se amplia; é grande demais para passar despercebida. Não é um cambalacho do Valentim em Gondomar ou da Felgueiras em Felgueiras. É uma das maiores exportadoras nacionais, decisiva para o PIB. Se a TAP espirra, a Economia constipa-se.

Esta é parte da realidade. A bandalheira da gestão pública (ou privada com dinheiros públicos, tanto dá para o caso) e o desbaratar de capital que vem dos impostos.

A outra é o arrastar para a lama um nome que a todos nos orgulhava e que há mais de 75 anos liga Portugal, um país pequeno, pobre e periférico, ao mundo. A TAP são os milhares de trabalhadores que se esfolam lá todos os dias a ouvir gritos em terra ou a desviar de tempestades no ar.

Não são as Cristines, as Alexandras ou todos os boys que a usam como uma linha no CV para chegar ao tacho seguinte.

Meia dúzia de inúteis e incompetentes, com uma vida profissional ligada ao cartão partidário, vão destruir uma das bandeiras de Portugal, e pior, meter em risco milhares de empregos. 

Hoje, quando todos desancam na TAP, falam dela como se a companhia fosse estas tristes figuras que aparecem em frente à comissão de inquérito. Não são. Era bom que não os confundissem.

Daqui a uns meses ou anos, a TAP será vendida. Todos os que agora arrastam o seu nome na lama, virão fazer grandes análises para os jornais para que se perceba como foi vendida ao desbarato.

Aquela comissão parlamentar não investiga a TAP. A TAP são os trabalhadores que lá andam há décadas a reparar motores, embarcar pessoal, mudar reservas ou a aterrar com ventos cruzados. Trabalhadores que já viram muitos ministros, secretários de Estado ou presidentes. 

Aquilo que verdadeiramente se discute naquela triste comissão é o grau zero da política portuguesa, a escandalosa má gestão de dinheiro público e a República das Bananas que, assumidamente, não conseguimos deixar de ser.

Entreguem a TAP aos trabalhadores, e deixem quem sabe tomar conta da companhia. Pior não fica.  

Tiago Franco é engenheiro de desenvolvimento na EcarX (Suécia)


N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.

O jornalismo independente DEPENDE dos leitores

Gostou do artigo? 

Leia mais artigos em baixo.

Após os funestos acontecimentos da passada semana, soubesse eu tocar mais do que campainhas de porta – e já pouco treinado ...