Recensão: Mil grous

Um origami japonês

por Maria Carneiro // Outubro 31, 2023


Categoria: Cultura

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Título

Mil grous

Autor

YASUNARI KAWABATA (tradução: Mário Dias Correia)

Editora (Edição)

Dom Quixote (Agosto de 2023)

Cotação

18/20

Recensão

Esta história conta-se em duas linhas: Chikako, uma terrível e temível alcoviteira, antiga amante do pai de Kikuji, o protagonista, cria uma rede de mentiras para envolver todos os intervenientes: as jovens que ela faz questão de apresentar a Kikuji, a mãe de uma delas e os pais dele, ambos já falecidos. Tudo o resto é mestria pura do autor, uma linguagem suave, mais abstrata que descritiva, aproximando-se muitas vezes da prosa poética. 

Outra 'protagonista' é a tradicional cerimónia do chá do Japão, cuja subtileza nos escapa muitas vezes por ser rica em símbolos e significados nem sempre são claros. A arte do chá, na qual Chikako é exímia, promoverá tanto aproximações quanto desencontros, sendo o pretexto que ela usa para se insinuar nas vidas alheias.

O tradutor manteve os nomes dos objetos e dos locais envolvidos no ritual, com os termos no original. No entanto, uma nota de edição logo no início do livro, ajudam na sua compreensão.

Os mil grous, título do livro, são também importantes na cultura japonesa: o grou, ou tsuru, é uma ave sagrada no Japão. Simboliza a longevidade, pois nas lendas vive mil anos. Diz-se que fazer mil origamis de tsurus traz a realização dos desejos. No romance, porém, os mil grous não são garantia de sorte, saúde, paz ou longevidade. As personagens não contam com as graças da ave mítica.

Página a página, aquilo que começa com um monólogo interior de Kikuji, vai-se tornando cada vez mas denso. As suas recordações de infância trazem-lhe a memória do tempo em que Chikako esteve envolvida com o seu pai, o sofrimento da mãe a que assistiu impotente, o que faz que crie uma aversão enorme a essa mulher que, no entanto, e de forma abusiva se vai insinuando na vida do jovem, trazendo-lhe notícias que ele não pede, organizando cerimónias de chá na sua própria casa e à revelia da vontade dele. E, tudo isto, com uma contenção enorme de descrições. Cada linha de diálogo, cada descrição parecem extremamente importantes, talvez precisamente porque há tão pouco texto descritivo.

Muito daquilo que se passa com os personagens sentimo-lo mais do que lemos. Há só pequenos indícios e pequenas pistas, num texto de uma contenção enorme que nos faz desejar mais. Yasunari Kawabata consegue uni elementos como sexo, sensualidade, luto, traição, calor e perda de valores orientais para nos contar uma história que, apesar de simples e linear, nos prende nas suas pouco mais do que 170 páginas.

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