VISTO DE FORA

O câmbio de uma vida

person holding camera lens

por Tiago Franco // Novembro 20, 2023


Categoria: Opinião

minuto/s restantes


Perdi a conta a quantas centenas de móveis já montei, nesta vida itinerante que teimo em perseguir. O IKEA é o LEGO dos adultos. Num desses dias, recentemente, enquanto acabava um desses armários pintados à pressa, ouvia um pastor que ensaiava um discurso sobre Gaza.

Não era um pastor daqueles que guia uma rebanho de ovelhas, e que contribui para a sociedade com uns queijitos e um ou outro ensopado. Era um pastor de pessoas. E de pessoas norte-americanas, ainda por cima. Um daqueles que grita para a congregação e os enche de pensamentos únicos, brilhantes, inovadores.

selective focus photography opened Bible on book stand

Parei com os parafusos e fui fazer um gin. É como aprecio melhor o disparate. Aos gritos, anunciava o ancião, representante de um deus menor, a solução para Gaza. Se os Estados Unidos estão a pressionar Israel para que se façam pausas humanitárias e se os vizinhos árabes estão tão preocupados com a vida dos irmãos da Palestina, porque não aproveitam a misericórdia israelita e, de uma assentada, trazem o maior número possível de aviões e evacuam os civis de Gaza? “Hallelujah brother!”, gritam os fiéis “rednecks” que assistiam à descoberta da pólvora. De facto, que ideia absolutamente genial.

O que fazer em caso de invasão e genocídio? Ir embora, desocupar a terra e ir viver como refugiado para o resto da vida. Nem percebo como é que as Nações Unidas não pensaram em adoptar esta resolução de forma permanente. De uma vez, resolvia-se Gaza, o Donbass, Caxemira, Nagorno-Karabakh, Kosovo e todos os pedaços de terra disputados ou invadidos.

Claro que a congregação de caucasianos que vibrou com o brilhantismo do pastor não acharia esta uma boa ideia se, por exemplo, os mexicanos invadissem o Texas. Mas se for lá longe, ainda por cima com árabes, enfim, toda a lógica é permitida.

blue and white printer paper

Como os palestinianos não parecem gostar da ideia de abandonar a terra, nem os vizinhos estão interessados em engrossar o número de refugiados que por lá vive há 50 anos, vão avisando Israel que a solução passa pelos dois estados. Ou seja, a solução do problema terá de ser encontrada dentro do actual território que Israel invadiu. E enquanto se vão entretendo nestes debates, em Gaza vai-se morrendo todos os dias. 

Passaram cinco semanas e os mortos chegam aos 14.000 do lado palestiniano. Diana Soler, uma comentadora que por norma gosto de ouvir, mesmo quando não concordo, dizia que o seu lado de humanista não permitia comparar mortos, afinal, “cada vida é única”. É uma afirmação que pretende meter no mesmo prato os 1.200 mortos israelitas e as cerca de 5.000 crianças que já foram bombardeadas em Gaza. Percebe-se o intuito, mas como sabemos, o mundo não funciona assim. As vidas não valem todas o mesmo.

Se for um milionário num submarino a caminho do Titanic, essa vida vale, em tempo de antena nas televisões e recursos para a salvar, mais do que 500 migrantes que estejam a naufragar no Mediterrâneo. Se forem 50 palestinianos na Cisjordânia, valerão menos do que um israelita cuja casa ficou com a marquise suja com fumo de rocket. Aliás, não estaríamos há um mês a discutir a terraplanagem de Gaza se não existissem umas centenas de mortes do lado israelita, porque essa é que é a novidade. Tudo o resto é repetido. Portanto, não, as vidas não valem o mesmo. Aliás, basta pensar como seria esta dívida eterna que o Ocidente tem com Israel se os nazis tivessem mandado quatro ou cinco judeus para Auschwitz. Provavelmente, há muito que deixariam de ter apoio para invadir fosse quem fosse. Mas como Hitler aprovou a “solução final” que chegou a seis milhões de pessoas… O mundo passou a ficar com uma dívida eterna. Portanto, sim, os números contam.

person holding green white and red flag

Depois de vários dias a ver morrerem crianças que foram retiradas das incubadoras, durante o ataque ao hospital Al-Shifa, em Gaza, as IDF fizeram questão de transmitir vídeos onde mostravam mochilas de “grab & go”, com munições e armas, escondidas atrás de equipamento hospitalar.

Não faço ideia se é propaganda ou não, mas para alguns comentadores da nossa praça, isso transformava aquele hospital num alvo militar segundo as convenções das Nações Unidas. Os mortos que por ali vão tombando, enfim, são danos colaterais. O que importa é ver se as alíneas das Nações Unidas estão a ser respeitadas. Encontraram uma mochila com uma pistola? Então toca a arrasar com mais umas centenas de crianças. Está lá no papelinho a dizer que é legal.

O Hamas é o culpado por usar casas civis. O Hamas é culpado por ter túneis. O Hamas é culpado por não estar exposto, com néons na testa, a fazer de alvo. O Hamas, aparentemente, só não é culpado de a sua criação ter sido ajudada por Israel.

grayscale photo of concrete houses

Faz-me alguma confusão esta discussão diária sobre a guerra em Gaza, como se dois exércitos se enfrentassem. Há tanques, aviação, porta-aviões, maquinaria pesada e todo o tipo de tecnologia de um lado. Há guerrilha, metralhadoras com mais de 40 anos e rockets do outro lado. Não é uma guerra. 

Os mesmos que há dois anos criticam a invasão russa, são aqueles que hoje procuram leis, lógica e razões, que justifiquem o genocídio.

Não é preciso muito para compreender. Basta, de facto, ser humanista.

Tiago Franco é engenheiro de desenvolvimento na EcarX (Suécia)


N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.

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