CAPÍTULOS 40-42

A misteriosa morte de Miguela de Alcazar

por Lourenço Cazarré e Pedro Almeida Vieira // Janeiro 14, 2024


Categoria: Cultura

minuto/s restantes


Um romance policial do brasileiro Lourenço Cazarré…

… em nova versão com o aportuguesado dedo (e ironia) de Pedro Almeida Vieira


40 – Uma tempestade não dura um dia

Chegando ao apartamento 1313, o escritor da nação mais populosa da Universo dirigiu-se logo à cama da escritora morta. Para minha surpresa, enfiou-se debaixo dela, para logo sair, espirrando forte. Eu e o gerente ficámos pasmos.

– Que poeirada, meu! – disse ele entre um espirro e outro. – Na China, mano, quando tem muita poeira debaixo da cama, a gente costuma dizer: ou o cabo da vassoura é curto ou a camareira é preguiçosa.

– Não se preocupe, senhor Foo! – disse Batota, embaraçado. – Vou tratar de arrancar a cabeça da nossa camareira. Os malditos empregados são todos brasileiros, ou seja, são todos preguiçosos!

– Segura a franga, Batota! – estrilei. – Não fale mal dos brasileiros outra vez na minha frente! Tivemos que aturar vocês, portugas da Europa, por mais de trezentos anos. Foi demais. Roubaram o que puderam daqui e só nos deixaram, em troca, meia dúzia de piadas ruins.

– Meia dúzia? Mentira! São milhões!

Nossa discussão foi interrompida por uma intrigante frase dita pelo escritor que, naquele momento, examinava as cobertas da cama, perfeitamente estendidas:

– Nem os fortes nem os violentos morrem no seu próprio leito, mano.

Batota piscou um olho zombeteiro para mim e dirigiu-se ao chinês:

– O que quer dizer o senhor Foo com essas palavras? Que dona Miguela era forte ou violenta? Que foi assassinada?

– Creio que foi assassinada, meu. Mas ainda não achei nenhuma pista concreta sobre sua morte.  Diz o Tao te king: “O bom andarilho não deixa pegadas”.

– Já também começo a pensar que dona Miguela foi mesmo assassinada – palpitou Batota. – Nesse caso, oh, como eu gostaria de estrafegar o pescoço do assassino desta pobre espanhola com as minhas mãos! Ou quebrar-lhe a nuca…

– Interessante – Foo encarou interrogativamente o português. – O mano gostaria de decapitar a camareira e de esgoelar o assassino… Puta, meu, você resolve tudo com a força das mãos?

– É só o meu modo enfático de falar – defendeu-se o lusitano. E, dando-me uma cotovelada nas costelas, perguntou: – Sou ou não sou um homem pacífico, Campestre?

– Eu, fora! – reagi.

– Sabe o que diz o Tao te king sobre o uso inadequado das mãos? – perguntou Foo. E ele próprio respondeu: – “Quem toma a seu encargo o lugar do céu para aplicar a morte, faz como quem quer serrar no lugar do carpinteiro: ao serrar, dificilmente salvará sua mão”.

– Que belo ensinamento! – extasiou-se o gerente do hotel. – Estou a admirar muito as frases chinesas. São breves, plenas de poesia e verdade.

– As palavras verazes não são belas, mano, já as palavras belas, pelo seu lado, não são verazes!

Parado diante da morta, o chinês observava atentamente a sua cabeça:

– Ôrra, meu, essa mantilha está muito esquisita aqui no alto da cabeça! Parece ter sido apertada contra o crânio.

– O senhor está a querer dizer o quê? – perguntou Batota.

– A sabedoria chinesa ensina que devemos nos preocupar com o conjunto e não com os detalhes.

– E que raio de conjunto é esse? – quis saber o lusitano.

– Ô, mano, não me obrigue a falar demais Falar pouco é o natural. Uma ventania não pode durar uma manhã, uma tempestade não dura um dia.

– Desculpe-me se lhe faço tantas perguntas – insistiu o português. – Mas o senhor está a falar por parábolas e eu cá prefiro coisas mais diretas: pão, pão, queijo, queijo. Mas, admito que, de entre todos os escritores neste hotel, o senhor é aquele que se mostra mais sábio.

– O sábio cala, quem não sabe fala – retrucou Foo.

Depois dessas palavras, o luso cruzou os braços e, emburrado, calou-se.

Já o escritor ajoelhou-se e começou então a examinar, com lupa, o tapete persa que cobria boa parte do chão do apartamento. Findo o demorado exame, disse:

– Tentei ir além do limite das aparências, mas permaneceu em mim o mistério. Talvez porque eu tenha falado demais, mano. No caminho do céu não devemos fazer perguntas, pois o certo é que sempre obteremos as respostas.

– Ao fim e ao cabo, o senhor não saiu de cima do muro! – exaltou-se o gerente do hotel. – E nem Não sabe se dona Miguela foi morta ou se morreu. Pois muito bem… Então eu pergunto-lhe à queima-roupa: foi o senhor quem matou dona Miguela?

Espantado, voltei-me para o português. Com o rosto arroxeado de indignação, me pareceu que ele estava disposto a dar um murro no chinês. Mas em vez de temer a reação de Batota, o homem continuou a filosofar:

– Quem segue o caminho do bem, não utiliza a violência, meu, porque aos atos armados sempre responderá a violência. 

Sempre rindo e pisando macio, Foo foi deslizando para o corredor.

– Chinesinho escorregadio, não achas? – murmurou Batota.

– Escorregadio e esperto – completei. – Mas até gostei das frases ocas que ele recitou para nós.

lightning strike on cloudy sky during night time

41 – Seres humanos só têm paz quando estão lendo

De novo retornamos ao salão, a fim de buscar Jorge Luís Bugres, que seria o último a examinar o fatídico apartamento 1313.

– Não estou com muita fé no argentino – disse-me Batota, no corredor. – Acho que não bate bem da bola.

– Mas é um grande contista – ponderei. – Ele se diverte bastante zombando dos seus leitores.

Olhei o relógio. Eram exatamente cinco horas quando chegamos à porta do salão. Paramos no umbral. Diante da janela, de costas para nós, Bugres recitou:

O mais era morte e somente morte

Às cinco horas da tarde.

Ai que terríveis cinco horas da tarde!

Eram cinco horas em todos os relógios!

Eram cinco horas da tarde em sombra!

Batota bateu palmas entusiasmadas. Dava para entender que adorava mesmo o homem.

Ainda estendida na poltrona, Fedorova abriu seus olhos cinzentos e os cravou em nós. Sim Et Non baforou mais forte.

– Viemos buscá-lo, senhor Bugres – anunciou o português. – Que belo poema era esse que o senhor recitava?

– “Pranto por Ignácio Sanchez Mejias”, de Federico Garcia Llorca. Meu relógio de pulso tem um alarme que sempre vibra às cinco em ponto da tarde. É a hora preferida da morte. E a morte é a negação da aventura, a extinção das personagens, o fim do narrador.

De braços dados, Bugres e Batota iniciaram então a caminhada em direção ao apartamento da defunta. Estranhamente, foram em silêncio até lá.

Já dentro do 1313, o argentino pediu ao português que o sentasse na beirada da cama, de onde, mais que falar, discursou:

– As camas guardam o calor e o formato de todos os corpos que desfrutaram delas. Heráclito de Halicarnasso assegura no Rerum delirium que existe uma cama primordial onde estão reunidas todas as formas humanas, mesmo as mais hediondas.

– Vossas frases são lindas, senhor Bugres! – deslumbrou-se o Batota. – Pena que eu não as compreenda completamente. Como, aliás, pouco entendi o escritor chinês. Aprecio frases filosóficas, embora nem sempre apanhe todo o significado delas.

– A verdade e a beleza morrem junto com o som das palavras, quando este se desfaz no ar.

– Ai, Jesus, mais uma bela frase! – aplaudiu o português. – Devia trazer comigo papel e caneta para apontar. Mas diga-me: o que exatamente quer fazer o senhor neste quarto, visto que nada vê?

– Os cegos investigam com todos os outros sentidos, melhor do que aqueles que vêem. Recorrendo ao olfato, posso lhe afirmar que Sim Et Non esteve parado no centro deste apartamento pois o cachimbo dele fede tanto quanto o baú de roupas íntimas da tripulação de um navio pirata. Sei também que o chinês meteu-se debaixo desta cama – e o poeta argentino bateu com a mão ossuda na colcha. – porque ele usa um perfume adocicado que é praticamente um vomitório. Eu poderia falar também da movimentação de Fedorova e de Águeda Christine, mas, como as mulheres abusam dos perfumes, não haveria mérito nas minhas constatações.

Batota e eu nos entreolhamos impressionados.

Bugres voltou a falar:

– Recorrendo a outro sentido, a audição, eu diria que neste exato momento soa o melancólico lamento de uma sirene de ambulância. Pela premência com que ecoa, eu diria que está vindo para cá a fim de levar o corpo da nossa desventurada Miguela de Alcazar.

Só passados alguns segundos, Batota e eu ouvimos o som de uma ambulância, ainda distante.

O argentino pigarreou antes de perguntar:

– Poderiam vocês me dizer em que posição está a nossa morta?

Batota, solícito, sintetizou:

– Recostada à poltrona, junto à mesa, ao lado do abajur, diante da janela aberta. Estava lendo. Parece muito serena.

– Serena, sim. O ser humano só tem paz enquanto lê. Durante a leitura, nossa alma vagueia pelo ilimitado mundo da imaginação.

white cup with saucer near bok

42 – O corpo sem vida da nossa colega falecida

Burges regastou-nos do silêncio reflexivo no qual nos havia mergulhado:

– Mas que livro lia Miguela? – perguntou.

– O livro santo, don Jorge! – disse o português, profundamente emocionado. – A Bíblia Sagrada!

– Mas em que trecho ela se encontrava? Lia a erótica canção de amor do rei Salomão? O conto satírico de Jonas? Ou antes a turbulenta peroração de Jó contra a insensibilidade de Deus?

– Nenhum desses livros, mestre – respondeu Batota. – Palmilhava a derradeira página do Apocalipse.

Mortalmente pálido, o escritor argentino levantou-se de um salto. Trêmulo, com a ponta da bengala metralhando o piso, murmurou:

– Tirem-me já daqui!

Quando Batota e Bugres de braços dados deixavam o apartamento de dona Miguela, ouvi bem próxima a sirene. Cheguei na janela a tempo de ver a espetacular freada do veículo no estacionamento do hotel. Era uma camionete tetricamente negra que ostentava letras imensas no capô: IML.

Dela desceram três homens que se encaminharam a passos largos para a entrada do hotel. Saí do apartamento e fiquei parado perto do elevador à espera deles.

Pouco depois, abriu-se a porta do elevador e por ela saíram os homens que eu vira pouco antes. Levei-os até a sala de reunião, onde se encontravam Batota e os escritores.

Depois que o gerente informou aos agentes que aquelas pessoas ali reunidas, oriundas de diversos países, eram autoras de livros policiais e que sabiam falar muito bem português, o mais baixo e mais gordo dos três pronunciou-se no mais puro sotaque curitibano:

– Sou o doutor Abelardo Nepomuceno Crescente, legista-chefe do Instituto Médico Legal de Brasília. Coincidentemente, nas horas vagas, escrevo livros policiais, desses que são vendidos em bancas. Portanto, sou colega dos senhores. Conheço bastante bem o metiê. Fiquei muito abalado ao saber que a morta é doña Miguela de Alcazar. Assim, aqui estou para levar o corpo sem vida da nossa colega falecida ao meu laboratório, onde farei, em pouquíssimo tempo, a mais meticulosa autópsia da minha vida.

– Abra bem os olhos ao cortar o cadáver dessa pobre mulher – disse Bugres. – São inúmeros e intrincados os caminhos que levam ao inferno.

– Ainda não gastou seu rol de frases ambíguas, senhor Bugres? – mais ralhou que perguntou Batota, talvez agastado pela forma intempestiva como quisera sair do 1313. – O senhor não poderia ser mais preciso nessa insinuação?

– Claro que não! – retrucou o argentino. – Faço parte do grupo dos autores oraculares, aqueles cujas frases têm que ser decifradas. Mas esperemos a leitura do documento de alta literatura que certamente será o laudo do doutor Abelardo Nepomuceno. Só depois desse laudo, se necessário, falarei abertamente.

– O ministro das Relações Exteriores se interessou pessoalmente por este caso – continuou o legista, mantendo a pose de sujeito de grande importância que exibia desde a chegada. – Ligou-me ainda há pouco pedindo empenho e dedicação. Garanti a ele que o resultado da autópsia, impecavelmente científica, sairá ainda hoje.

– Será bom demais da conta se ocorrer o que o senhor anuncia – comentou Águeda Christine. – Temos urgência em saber se a pobrezinha foi morta ou não.

O gerente se intrometeu.

– Venha por aqui, doutor! – agitou-se Batota, empurrando o legista em direção ao corredor. – Precisamos retirar o corpo com muita discrição, pelo elevador de serviço, para não assustar os demais hóspedes!

O português voltou-se para nós e, fazendo o gesto de quem parece querer espantar galinhas, disse:

– Os senhores podem descansar um pouco. Aqui ou em vossos quartos. Mas regressem às sete horas, quando a gerência do hotel vos oferecerá uns drinques. O jantar será servido pontualmente às oito da noite.

– Bah, tchê, pra mim, qualquer corte de carne de vaca serve – disse Dax. – Pode ser costela ou picanha. O importante é que venha sangrando, porém sem veneno.

– Quer dizer, então, que hoje não teremos uma reunião de trabalho? – indagou Fedorova. – Eu estava arretada por um debate. Russos gostam mais de polêmica do que baiano de rede.

– A gente debate amanhã, sô- sugeriu Águeda Christine. – Desde que nenhum outro de nós morra até lá, claro.

human statues on building deck

(cont.)


Sobre os autores (actividade literária)

Nascido em Pelotas, no Estado brasileiro do Rio Grande do Sul, em 1953, Lourenço Cazarré é autor de mais de 35 livros, entre novelas juvenis, contos e romances. Participou em 17 antologias de contos. Recebeu mais de 20 prémios literários de âmbito nacional, tendo vencido por duas vezes o maior certame literário dos anos 80, a Bienal Nestlé, nas categorias romance, com O calidoscópio e a ampulheta (1982), e contos, com Enfeitiçados todos nós (1984). Um de seus livros para jovens, Nadando contra a morte, recebeu o Prémio Jabuti, em 1998, e o selo de “Altamente Recomendável para Jovens”, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Ganhou ainda o Concurso Nacional de Contos Josué Guimarães, em 1993, e o Prémio Brasília para Livros Juvenis, em 1990. Em 2002, recebeu o Prémio Açorianos da Prefeitura de Porto Alegre, pelo melhor livro de contos, Ilhados. Como teatrólogo, foi premiado no Concurso Nacional de Dramaturgia da Funarte (regiões Norte e Centro-Oeste), em 2005, com a peça Umas poucas cenas vistas do caos. A primeira versão de A misteriosa morte de Miguela de Alcazar foi publicada no Brasil em 2009.

Nascido em Coimbra, em 1969, Pedro Almeida Vieira teve a sua estreia na ficção em 2004 com o romance Nove mil passos, que aborda a construção do Aqueduto das Águas Livres, a que se seguiu no ano seguinte O profeta do castigo divino, com foco na vida do jesuíta Gabriel Malagrida e a trama no período imediatamente anterior ao terramoto de Lisboa de 1755. Em 2009 regressou ao romance do género histórico, com A mão esquerda de Deus, finalista do Prémio Literário Casino da Póvoa. Em 2011 e 2013 publicou um conjunto de crónicas em dois volumes sobre crimes em Portugal até à abolição da pena de morte, sob os títulos Crime e castigo no país dos brandos costumes e Crime e castigo: o povo não é sereno, com ilustrações do brasileiro Enio Squeff. Foi também o responsável pela redescoberta da obra de Guilherme Centazzi (1808-1875), médico natural de Faro, precursor do romance moderno português, reeditando o romance O Estudante de Coimbra, tarefa que lhe mereceu a Menção Honrosa do Prémio Grémio Literário de Lisboa em 2012. Publicou ainda um conjunto de crónicas sobre o Brasil colonial, compiladas na obra Assim se pariu o Brasil, com edição portuguesa em 2015, edição brasileira (português do Brasil) em 2016, e edição italiana em 2020. É autor também de diversos contos, além de ensaios na área do ambiente, entre os quais se destacam O estrago da Nação (2003) e Portugal: o vermelho e o negro (2006).

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