ARQUITECTURA DOS SENTIDOS

Viseu, Covilhã, Sever do Vouga: crónica dos lugares

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minuto/s restantes

Dei as quintas-feiras a Viseu e as sextas-feiras à Covilhã. Assim, contraída a preposição, que Covilhã é moça e Viseu é bonacheirão.

A Sever do Vouga dei um sábado só e furou-se o pneu numa picada, que comeu o resto da tarde em lama e bombinhas de soprar ar viciado, a ver se ainda regressava ao asfalto. Fica a caminho, sabem?

Os tempos e os dias são assim dedicados a lugares (o tempo, sempre o tempo), sabem?

Os lugares são por vezes pessoas, uma ronda que fazemos pelos quilómetros que unem esta e aquela terra, onde está esta e aquela pessoa, que aproveitamos para apertar os ossos contra nós, numa era de distâncias sussurradas e silêncios que fazem muito barulho. (Sabem?)

Lugares comuns.

Então, nestes pontinhos do mapa lá fui eu lançada várias vezes, em movimento curvo, giratório, fisgado, catapultado. Nada suficiente para ouvir com detalhe a côr da pronúncia, só o suficiente para sentir a paisagem esboroar-se em volta e esbarrar-me com as pessoas (que por vezes são lugares).

Mas sabem, (sabem a quê?) sabem umas vezes a açucar em pó, outras a folhado de manteiga bem fina, o doce da terra, entrar na padaria e pedir o que só eles têm. Outras a fumeiro, lenha, braseiro, gelo. O ar parado do país ignorado. O ar redondo dos lugares sem mar onde o Atlântico não chega a trazer o interesse de (bananas de) um certo borbulhar em Lisboa (mas já lá iremos a essa moça, hoje não).

Depois de entontecida, rotunda após rotunda de Viseu, rochas empilhadas no caminho e que lindas que são, mais que pedras, já são como naturais ali, eternas, sigo o corte para a Covilhã, avisto a linha do comboio que pouco ou nada passa (nunca que chegue), montanhas que mudam de sítio hoje, pontes, viadutos que se apressam em unir nenhures, a força de Espanha a anunciar-se (anda cá, anda cá).

Porque nascemos aqui e ali, não acolá, que coisa estranha esta, eu que poderia pensar com outra língua, sentir o sabor das coisas com outro nariz.

E eis a Serra.

Estrela.

O topo parece tão pertinho, que estranho é deixar de ver (gelo).

Dei as sextas-feiras à Covilhã. As voltas que a vida dá, se pensava eu que tal lugar existiria fora dos passeios de escola, e ei-la lá, digna, serrana, paciente.

Coitadinho do motor que precisava de ar extra para vencer algumas ruas sem patinar muito, coitadinhas das minhas pernas que ficaram estendidas em músculo espalmado no dia seguinte (nem entendi porquê). O peito a esforçar-se e o ar que era pouco (puxa o ar, puxa! Mas não afogues o motor!)

Oh Covilhã. Sabes que existe uma covilhã no sítio da minha terra? (Quantas Covilhãs existem em Portugal?)

Saberás tu (ou Viseu, ou Sever, ou Aveiro, ou o Porto, ou a Régua, ou Moncorvo, ou todas as que ainda vou percorrer), que és um país tu só e ainda mais país tu com todas? Mais que certa moça solarenga com borbulhar (de bananas) que nem se lembra de onde veio?

Terras que alimentam a capital do reino (das bananas). Lugares.

Mariana Santos Martins é arquitecta


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