Recensão: A malnascida

A encarnação do inferno

por Maria Carneiro // Março 31, 2024


Categoria: Cultura

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Título

A malnascida

Autora

BEATRICE SALVIONI (tradução: Ana Cláudia Santos)

Editora (Edição)

Alfaguara (Outubro de 2023)

Cotação

17/20

Recensão

O livro começa no fim e narra, logo ali, um acontecimento traumático: “É difícil tirar de cima o corpo de um morto. Descobri-o aos doze anos, com o sangue a escorrer-me do nariz e da boca e as cuecas enroladas à volta de um tornozelo. Os seixos da margem do Lambro, duros como garras, pressionavam-me a nuca e o rabo nu, as costas afundadas na lama. O corpo dele pesava-me na barriga, anguloso e ainda quente.

Tinha os olhos brilhantes e vazios, saliva branca sobre o queixo, e a boca aberta exalava um cheiro mau. Antes de cair, olhara para mim com o medo a contorcer-lhe o rosto, uma mão metida nas cuecas e as pupilas dilatadas e negras, que pareciam dissolver-se até escorrerem pelas faces.

Tombara para a frente, os seus joelhos comprimiam-me ainda as coxas, que ele conseguira manter abertas. Já não se mexia.” 

O morto é Tiziano Colombo, um jovem fascista, machista, filho de uma das mais influentes famílias de Monza, cidade italiana onde se passa a ação, nos anos 30; e a vítima Francesca, uma adolescente de 12 anos que é uma das protagonistas e a narradora, na primeira pessoa, desta história fascinante.

Mussolini estava no poder, viva-se num clima opressivo de um país fascista onde ter a ousadia de pôr em causa o status quo requeria uma coragem enorme. Foi isso que fizeram Francesca e Maddalena, a partir do momento em que ficaram amigas. Contrariando a vontade da mãe, obcecada pelas convenções sociais burguesas, Francesca junta-se a um bando de amigos problemáticos, de que é líder Maddalena, a "malnascida", ávida por descobrir um modo de vida em absoluta liberdade. 

Como se lê no La Repubblica:

«A "malnascida" que conhecemos ao longo desta história é uma pequena encarnação do inferno. Uma daquelas figuras incómodas que, na Idade Média, seriam atiradas à fogueira. [...] Maddalena é uma personagem sólida e cálida, que se solta das páginas deste romance com um sopro quase percetível.» 

A malnascida é, pois, um romance sobre duas amigas a viver aquele período difícil da vida, que muitas vezes se desvaloriza - a adolescência –, e retrata a amargura que é crescer, ver a vida a desenvolver-se, num pano de fundo cheio de matizes: a relação adúltera da mãe de Francesca com o pai de Tiziano, o relacionamento afetuoso com o seu pai, a gravidez escondida de todos e que levou à tentativa de suicídio de Donatella, irmã de Maddalena, a invasão da Abissínia por Benito Mussolini e a mobilização dos rapazes da cidade para a guerra, onde perde a vida um dos irmãos de Maddalena, a amizade com Noé, o filho do merceeiro que as ajuda em vários momentos apesar de agredido violentamente pelo próprio pai.

Como pano de fundo, a amizade das duas raparigas que, cúmplices até ao fim, acabam por se ver envolvidas na morte descrita logo no prólogo. A narrativa é ágil e a leitura não se consegue largar. Um livro muito interessante.

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