CARTAS DO VELHO DO RESTELO

Que é isso de ser revisor?

brown paper and black pen

por Manuel Matos Monteiro // Maio 18, 2024


Categoria: Opinião

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A pretexto da publicação do livro “Por amor à língua e à literatura“, de Manuel Monteiro, editado este mês pela Objectiva


Ser revisor de textos como principal ocupação profissional é ter uma vida diferente. É ver menos pessoas do que na maior parte dos trabalhos. É estar em casa mais tempo. É não ter horários, mas prazos. (Nota: há revisores internos com horários e que revêem in loco, pese embora a crescente tendência para o teletrabalho.) É gozar do prazer de passar os dias a ler (verdade seja dita: nem sempre se lê aquilo de que se gosta, mas sempre se aprende algo) e ainda ser pago por isso. Um revisor é, por imperativo profissional, um leitor omnívoro. Um especialista das engrenagens da língua, das suas estruturas maiores às suas partículas mais ínfimas, aos seus ossinhos e parafusos.

Quem se aventura na revisão deve estar preparado para conviver com a ingratidão. Porque o revisor sabe quão diferentes são os livros antes de passarem pelas suas mãos. E, contudo, eles reservam-lhe apenas um lugar minúsculo na ficha técnica (quando o reservam). Ao contrário de um tradutor, o nome do revisor não constitui um chamativo da obra, apesar do acréscimo de valor que dá aos livros que cinzela.

black Corona typewriter on brown wood planks

O revisor é, no fundo, o escritor da sombra que dá sol às obras, o duplo do actor de cinema que entra em cena quando este não está preparado para o salto. Dependendo da margem que as editoras e os autores lhe concedem, dependendo também do seu perfil — mais ou menos intervencionista —, ele pode ser um mero reparador de erros (deve ser mais do que isso, até porque deve trabalhar a eufonia, a clareza, entre outras dimensões), ou alguém que reescreve frases, embelezando-as. Sim, o bom revisor deve amar as palavras. Não poderá ser apenas um engenheiro ou um contabilista das mesmas. Só amando as palavras, poderá lascá-las, apará-las, envernizá-las, poli-las, perfumá-las.

Seria muito útil publicar-se um livro de um grande escritor no estádio de pré-revisão, de modo que os leitores compreendessem a importância do revisor.

São necessárias três características para o ofício.

Primeira: boa cultura geral. Quanto mais assuntos se dominarem, mais erros de conteúdo se detectarão (muito poucas vezes se contrata um revisor científico, além do revisor linguístico, para obras mais especializadas). A língua é um manto que cobre todas as realidades, pelo que o revisor tem de trabalhar com a palavra certa da toponímia, da medicina, da psicologia, da filosofia, do direito, entre uma caterva de outros exemplos: «alugar» para bens imóveis é um erro da língua, porque é um erro à luz do direito.

black swirl of letters

Acresce que o revisor deve desconfiar de tudo-o-que-os-outros-tomam-por-garantido-porque-toda-a-gente-diz-assim, dado que há ziliões de situações destas, como a citação da liberdade de expressão permanentemente atribuída a Voltaire (mas que não é de Voltaire), ou o poema atribuído a Brecht que reza que «primeiro levaram os comunistas» (mas que não é de Brecht), ou o parque em Coimbra amiúde referido como Portugal dos Pequeninos (mas que se chama: Portugal dos Pequenitos).

Segunda: elevada capacidade de concentração. Ao rever, é preciso ler simultaneamente com um duplo olhar: o olhar da forma, atento à vírgula que falta ou está a mais, aos particípios passados, ao clítico, ao infinitivo, a tanta coisa, e o olhar do conteúdo, que exclama «eureca!» quando a personagem que era coxa, em dado momento da narrativa, desata a correr mais do que as outras, ou quando o vocalista e o conjunto musical não combinam, estando um dos dois por corrigir. (Em cima disso, ainda deverá ler com o ouvido. E ler com o ouvido é menos familiar do que ler com o cérebro, ou seja, mais difícil.) Um revisor assemelha-se, neste sentido, a um trabalhador numa torre de controlo — a sua concentração tem de ser total e ininterrupta, porque a mínima distracção será fatal. Terceira: conhecerem-se as leis e os processos da língua, os seus erros mais frequentes, e, ainda assim, manter-se sempre a humildade de consultar todos os livros e todas as doutas opiniões.

Há um corolário nocivo a que dificilmente qualquer revisor escapará: o seu olhar de leitor será contaminado pelo seu olhar de revisor. A fruição da leitura ressentir-se-á do seu sempre atento olho de lince, e, não raro, o revisor terá vontade de emendar o que lê. Mais do que isso: muitos revisores têm vontade de corrigir e ensinar os outros durante as conversas, a troca de mensagens, e até quando ouvem rádio ou vêem televisão ou cartazes na rua.   

Por vezes, penso que a profissão que mais se aparenta com a do revisor é a do árbitro de futebol. Estranha comparação, dir-se-á em primeira análise. A verdade é que o único aspecto visível do trabalho de ambos é o erro. Dá-se pela existência de tais ofícios apenas quando falham. Pior: ao contrário do árbitro, no caso do revisor, o público nem sequer poderá dizer que ajuizou bem, pois não poderá analisar as situações que o revisor teve de resolver. Na cabeça de quem lê, as escolhas foram do escritor ou tradutor.

Manuel Matos Monteiro é escritor e director da Escola da Língua


N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.

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