DA VARANDA DA LUZ (especial)

Crónica de um benfiquista que tirou uma alegria a um sportinguista

por Pedro Almeida Vieira // Maio 19, 2024


Categoria: Opinião

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Tenho-me por pessoa empática – outros não o dirão – imbuído de cultura judaico-cristã, que nos incute (nem sei bem se para mal dos pecados nossos e demais pecadilhos) o conceito do bem e do mal (nem sempre fáceis de destrinçar). Mas não sou de ferro. Há momentos da vida em que temos, diria, a obrigação de cometer uma maldade – e certamente o Criador me perdoará no Juízo Final, sobretudo se for por consequência, ou necessidade, de justa retaliação sobre uma ‘tribo’ cujo representante pretendeu, enfim, oferecer-me convite envenenado para gozar com um benfiquista.

Vinguei-me, portanto, num sportinguista. Lamentavelmente, não sei quem era. E nem o consigo sequer descrever, nem sequer indicar o género nem idade. Sei apenas que, por certo, vestia – ou vestiria – de verde, com cachecol a preceito, talvez indicando o estatuto de campeão 2023/2024. E deveria estar, mas não esteve, no lugar 23, da fila 23 do sector A5. Estive eu: um benfiquista. Na impossibilidade de conseguir que nenhum sportinguista comemorasse ontem o campeonato no minúsculo Estádio José Alvalade, em comparação ao do Glorioso, pelo menos evitei que um festejasse ali a ‘coisa’: ocupei-lhe o lugar!

Quero, contudo, imaginar – se é para se ser mau, que se seja com intenção, na plenitude da racionalidade – que seria um miúdo que ficaria naquele lugar, se eu não o tivesse roubado. Um miúdo como um que, atrás de mim, entoou em pulmões escancarados o nome de cada jogador chamado pelo speaker. Compreendo esta irritante criança: deve ter uns oito anos; será o seu primeiro campeonato em idade de raciocínio.

Com o passar dos anos há-de-se-lhe alargar a laringe sem apetite para gritar nomes de lagartos e crescer-lhe-á a mação-de-adão sem mais festejos – pelo menos deglutirá melhor os sapos, lamentando a inconsciência da infância, enquanto assiste, choroso, às gloriosas vitórias das águias nos tempos vindouros. Presumo ainda que a criança que me azucrinou os tímpanos venha, daqui a umas décadas, contar aos seus netos as ancestrais façanhas do Gyökeres, que parecerão a todos tão quiméricas quantas as do Peyroteo por estes dias.

Em todo o caso, encarei a festa sportinguista com abnegado espírito científico. Sociologicamente falando, esta é uma tribo que nos merece respeito. Ou compaixão – confundo emoções. Estiveram ali, a gritar cantorias – e têm muitas – como se estivessem para o futebol como os turcos para o trabalho, que, como se sabe, são os melhores do Mundo … E dizer o contrário é ser-se racista, preconceituoso, desrespeitoso do Império Otomamo, mesmo que o ex-agente desportivo Aguiar Branco nos permitisse dizer que, enfim, os turcos se encontram na 49ª posição mundial (países e territórios) em termos de produtividade do trabalho em função da hora trabalhada e tendo em conta a paridade do poder de compra.

Mas, enfim, eles pensam que são “a maior potência desportiva nacional desde 1906”, segundo uma tarja ainda não vistoriada pela decência e o Polígrafo. Serão tanto como a Turquia é uma potência no mundo do trabalho.

Chiu!

Bom, estou aqui a botar postas de pescada, mas ali estive calado que nem um fuso. Ou uma pedra. Não esperassem que eu, mesmo julgando-me corajoso, fosse ali gritar que se estava perante uma reles desinformação. Apesar do meu companheiro de lides profissionais tudo ter tentado para me denunciar naquela bancada como um intrépido benfiquista, eu mantive-me discreto e sereno, disfarçando com um inusitado interesse em tudo fotografar para não ser demasiado suspeitoso a minha falta de entusiamo, sem um bater palmas sem uns gritinhos a cada jogada de perigo, sem um orgasmo das vezes que se marcaram golos a uma equipa já condenada a descer de divisão, e que ainda teve de jogar com 1o por uma expulsão instigada por um sportinguista.

Na verdade, durante o jogo, apenas acedi, ou cedi, a tirar umas fotos, que espero não serem demasiado comprometedoras, com um cartaz que serviu optimamente para limpar as solas das botas, e fazer outras poses sorridentes… Dizem que eles, por vezes, são perigosos, se não lhes fizermos as vontades…

Estoicamente assim aguentei um belíssimo jogo de futebol, em final de época, com tudo decidido, que explica bem a razão pela qual os lagartos limparam o campeonato sem espinhas. Por uma vez para não se repetir, aviso já!

A tarde, enfim, até estava a ser agradável para o meu desenvolvimento empírico – é sempre frutuoso observar sentidas e genuínas alegrias de gentes que tão poucas alegrias tiveram nas suas amarguradas e tristonhas vidas desportivas, mesmo os já septuagenários. Pensava eu que seriam apenas cerca de duas horas de sacrifício para recolher um punhado de fotos para guardar e mostrar daqui a 20 anos aos netos, para que eles vissem como fora o último jogo do último campeonato que teve o Sporting por campeão…

Mas… o quê?

Vão entregar ainda a taça?!

Chiça penico!

Por esta é que não esperava: ainda tive de aguentar os discursos de despedida do Antonio  Adán e do Luís Neto, mais o tempo de entrevistas para as televisões, mais a banhoca dos jogadores, até que entregaram o caneco aos jogadores, chamados um a um, até ao uruguaio Coates. Seguiu-se um pífio fogo de artifício que só me entusiasmou por uns lampejos de vermelho. A coisa demorou, sei lá, qualquer segundo pareceu a etenidade.

E a seguir: liberdade! E fui para casa. Alívio…

P.S. E durante o meu intranquilo sono desta noite tive um pavoroso pesadelo: estava num tétrico silo do Alvaláxia, no piso -1 do parque de estacionamento, onde avultava uma mão-cheia de Mercedes. Uns tempos depois, surgiu um grupo de sportinguistas, homens e mulheres, felizes da vida, a cantar e a dançar, e viram-me e me sequestraram. Diziam ser o famigerado ‘Núcleo da Garagem’. E abriram a bagageira de um Jaguar, e daí retiraram uma mesa, que abriram ali mesmo, e puxaram de pão, e de azeitonas, e de queijo de Nisa e outros fermentados, e de mais cacholeiras de Alpalhão, e de alheiras de Chaves, e de chouriços, que assaram ali em álcool, e de vinhos vários, e de omeletes, e de pastéis de bacalhau e de outros acepipes. E me obrigaram a com eles confraternizar. E a comer. E a beber. E a conversar, como se eu não fosse um glorioso benfiquista e eles uns lagartos da pior espécie. E tirámos fotografias juntos. E rimos. E nos despedimos com abraços. E… depois acordei. Foi apenas um pesadelo. Alívio…


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