VISTO DE FORA

O Ribeiro da Visão

person holding camera lens

por Tiago Franco // Maio 29, 2024


Categoria: Opinião

minuto/s restantes


Raramente entro no X (Twitter) e, quando o faço, não consigo passar por lá mais do que cinco minutos. Aquilo é um esgoto a céu aberto de baboseiras, discurso de ódio e ameaças embrulhadas no anonimato.

Mas, não sei por que mal tenha feito aos deuses do Olimpo, entrando lá, só me aparece gente como a Câncio, o Milhões, o Milhazes, o Luís Ribeiro da Visão e mais uma catrefada de gente cuja opinião não deveria importar sequer ao menino Jesus.

Ontem, como se sabe bem, foi dia de visita do Zelensky a Portugal. Uma visita de um chefe de Estado que está em guerra, que precisa de apoio financeiro militar, financeiro e moral. Uma visita de alguém que não se pode dar ao luxo de deixar o conflito entrar nas notícias de rodapé e cair no cansaço e na saturação dos parceiros europeus.

Tudo normal, tudo natural, tudo expectável. E tudo bem.

Dito isto, vamos aos factos sem mais delongas. O Luís Ribeiro da Visão é uma espécie de idiota útil e palerma clássico – dito com carinho para não ser tomado como insulto. Uma daquelas pessoas que cataloga pensamentos diferentes segundo as suas doutas verdades. Uma variante de Câncio pós-separação do Sócrates.

É um da tribo que chamava “negacionista” (e assassino, presumo) a quem achava que os confinamentos não faziam sentido – e que nem sequer era real porque maior parte dos trabalhadores continuaram na rua em Portugal. E é um dos que apelida de “putinista” todo e qualquer membro do PCP, mesmo aqueles que criticam as políticas do Kremlin há quase 20 anos, desde os tempos de Ieltsin.

Hoje, em relação à Ucrânia, todos os que pedem conversações de paz são “putinistas” para o Luís Ribeiro. Os Ribeiros desta vida, que andaram 15 anos a aplaudir discursos do Putin no parlamento alemão e a salivar enquanto ele nos vendia botijas de gás, passaram a paladinos da decência em Fevereiro de 2022. Os mesmos que em 2014 ainda estavam adormecidos e diziam que aquilo eram só escaramuças entre nazis. Coisas lá longe.

blue and yellow striped country flag

Luís Ribeiro é um jornalista especialista em ambiente que se casou com uma ucraniana e passou, por osmose, a especialista em invasões imperialistas. Que escreve atrocidades na Visão vezes sem conta e que usa o X como intestino para o café matinal.

Rejubila com os apoios financeiros de Portugal à Ucrânia, insultando uma quantidade de inimigos imaginários. E escreve algo em que nem a própria mulher deve acreditar, que estes apoios vão ajudar a expulsar os russos. Ora…a única coisa que pode expulsar os russos é o início (com botas no terreno) de uma III Guerra Mundial. O Luís vai para lá?

Pelo que sei, é mais velho do que eu apenas um ano, portanto, ainda está a tempo de alombar e mostrar toda essa inata coragem de anti-putinismo.

Por mais que tentem camuflar a realidade e chamar nomes para cancelar o discurso, até os Ribeiros desta paróquia sabem o óbvio: Putin é um ditador perigoso que, à frente de um dos maiores exércitos do Mundo, entrou numa guerra estimulada pelos Estados Unidos e patrocinada pela União Europeia. Ninguém quer saber da Ucrânia. Não queriam em 2014 e não querem hoje. O território ucraniano serve, essencialmente, para se criar um novo balanço de poder entre a Rússia/ China/ Índia e os Estados Unidos/ União Europeia.

A Rússia não passou a ser uma ditadura porque o Milhazes se veio embora (já era quando ele só via maravilhas lá); e a Ucrânia não passou a ser uma democracia saudável porque foi invadida, ou porque o Ribeiro foi a uma casa de strip em Kiev.

De igual modo, não há dinheiro que Portugal envie que safe aquilo (dinheiro que, já agora, seria bem mais útil em escolas e creches públicas) e também não é propriamente verdade que “Portugal está com Zelensky”. Epá!, Luis: nem os ucranianos estão. Numa comunidade com alguns 50 mil habitantes em Portugal, apareceram 50 em Belém (e alguns para lhe chamar nomes).

Há quem deseje ardentemente a versão Ribeirinho do conflito, ou seja, continuar a escalada e esperar que as bombas continuem a rebentar só em cima dos filhos dos outros. E há quem queira que isto acabe já, sem ter grandes moralismos sobre integridade territorial.

Sim, Luís: moralismos. Essa conversa do invasor e do direito à defesa, bate sempre naquela trave da moralidade da terraplanagem em Gaza. Lá, em seis meses mataram mais crianças em 60 quilómetros de extensão de território do Médio Oriente do que em toda a guerra da Ucrânia. E sabes quem é que se está a cagar? O Mundo todo. E depois há gajos como tu, que acham que existem invasores do bem e bombas amigas.

Portanto, as coisas são o que são, e não vale a pena andarmos aqui a criar duas barricadas, tentado cancelar o debate com insultos. Vou-te dizer Luís, como é que um gajo que vive de algoritmos, vê isto:

– A Rússia invadiu? Sim. Está errado? Está.

– A Nato ajudou? Sim. Está errado? Está.

– A Ucrânia deve perder território? Não.

– A Ucrânia tem o direito de se defender? Sim, claro. Defender, atacar, rebentar com o Kremlin, fazer o que quiser.

– A União Europeia consegue impedir que a Ucrânia perca território? Não.

– Deve fazer o quê nesse caso? Estar quieta e entrar no conflito como mediador de paz.

 – Os Estados Unidos conseguem impedir que a Ucrânia perca território? Sim. Metendo soldados no terreno e começando a combater a Rússia.

orange and yellow abstract painting

Portanto… justo ou injusto, a análise é simples, mesmo para um gajo que não assimila doutoramentos em ‘ucraniedade’ por osmose:

 – ou estamos quietos e vamos convencendo os ucranianos a perderem território, por troca com uma entrada na NATO e na União Europeia no futuro;

ou

– convencemos o Joe Biden a meter os marines no Donbass numa operação daquelas que depois acabam em filme, do género “Freedom for Real, part VIII”.

É isto, Luís, e não é outra coisa. Tem juízo, rapaz, e trabalha mais na vertente ambiental (nomeadamente do Twitter) que deve ser a área onde dizes menos alarvidades. Como disse há dois anos o Ricardo M Santos, não precisas de continuar a ser um Ribeiro “de esgoto a céu aberto“.

Tiago Franco é engenheiro de desenvolvimento na EcarX (Suécia)


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