QUASE UMA CENTENA DE REPROVAÇÕES FORAM REVERTIDAS COM SEGUNDA AVALIAÇÃO EXTERNA

‘Escândalo psicológico’: empresa de comentador da SIC chumbou injustamente nove em cada dez candidatos a magistrados


Foi do 80 – ou próximo desse número – até ao 8 (exacto). Cerca de uma centena de futuros juízes e magistrados do Ministério Público respiraram ontem de alívio após verem os seus nomes na lista final de candidatos homologada pela direcção interina do Centro de Estudos Judiciários (CEJ).

Este desfecho surge após um processo rocambolesco de avaliação psicológica conduzido pela empresa Talking About, que ‘chumbara’ em Outubro passado mais de metade dos candidatos que tinham antes ultrapassado as exigentes provas escritas e orais para aceder ao curso de formação de juízes e magistrados do Ministério Público. O curso vai iniciar-se agora em 2 de Dezembro, com quase dois meses de atraso.

Sede do Centro de Estudos Judiciários. / Foto: D.R.

A Talking About, uma empresa de psicologia liderada por Mauro Paulino – conhecido por ser comentador nos programas da manhã da SIC –, fora escolhida pela direcção doCEJ para avaliar a capacidade psicológica dos candidatos, ignorando-se ainda as condições e preço, bem como o procedimento de escolha, uma vez que o contrato não surge no Portal Base. A ministra da Justiça, Rita Alarcão Júcide, apenas fez um despacho de concordância. O CEJ – que se encontra agora em gestão interina, após a não recondução do juiz desembargador Fernando Vaz Ventura – não respondeu a quaisquer pedidos de esclarecimento do PÁGINA UM, demonstrando uma evidente falta de apetência pela transparência.

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Numa “operação de emergência” montada em colaboração com a Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), o CEJ tentou atenuar a avalanche de reclamações e reuniu um “batalhão” de 21 psicólogos para elaborar uma segunda avaliação, destinada a confirmar ou desmentir a primeira análise da empresa Talking About.

Conforme o PÁGINA UM revelou este domingo, um dos testes que culminou com um chumbo maciço estava um, denominado “Personality Assessment Inventory (PAI)” – que se aplica sobretudo em contexto forense, e em especial para reclusos e pessoas com desvios psicológicos –, onde constavam quase duas centenas de perguntas polémicas e pouco adequadas para este tipo de selecção.

Mauro Paulino, psicólogo e comentador da SIC.

O número preciso de candidatos inicialmente chumbados – uma parte dos quais com notas de excelência nas provas escritas e orais – nunca foi oficialmente revelado pelo CEJ, mas uma notícia do Correio da Manhã no início de Outubro apontava para mais de metade dos aprovados nas fases anteriores. De acordo com informações recolhidas pelo PÁGINA UM, terão sido mais de uma centena, o que está em consonância com o facto de o curso – que se iniciará agora a 2 de Dezembro – ter tido 202 candidatos homologados depois desta “segunda opinião”, embora apenas 149 tenham sido seleccionados para a formação lectiva.

Sabe-se, sim, que para ‘savar’ o destino desta centena de candidatos foram formadas sete equipas de três psicólogos, escolhidos pela OPP, tendo cada uma analisado – através de entrevistas semi-estruturadas de perto de duas horas – uma média de 15 candidatos inicialmente reprovados pela empresa de Mauro Paulino, totalizando assim cerca de 105.

Essa segunda avaliação trouxe resultados desastrosos — mas não para os candidatos inicialmente reprovados, mas sim para os métodos da Talking About. Com efeito, de entre a centena de “chumbos” da primeira avaliação, a reavaliação efectuada pelos psicólogos independentes reduziu o número de exclusões para apenas oito [vd. alínea c) da listagem dos excluídos].

a man holds his head while sitting on a sofa

Isso significa que o primeiro exame, realizado pela equipa de Mauro Paulino, errou em mais de nove em cada dez reprovações que decretou. Ou dito de outro modo: apenas cerca de 7% dos chumbos iniciais foram verdadeiros negativos — isto é, candidatos efectivamente inaptos. Em rigor técnico, a esmagadora maioria correspondeu a falsos positivos, casos em que o teste indicou um problema psicológico no candidato que era afinal inexistente.

O mais incrível neste processo é que a empresa de Mauro Paulino – que não respondeu a nenhuma das 23 perguntas colocadas pelo PÁGINA UM – nunca pareceu achar estranho o resultado da sua avaliação em que reprovava mais de metade de uma amostra altamente seleccionada, composta por candidatos que já haviam superado exigentes provas escritas de Direito e de cultura geral, além de painéis de provas orais de diversas áreas do Direito perante júris qualificados.

Aliás, a selecção foi-se realizando aos longo dessas fases, pois de um lote inicial de 988 candidatos (número de inscrições aprovadas antes do início das provas escritas), apenas restavam pouco mais de duas centenas para serem avaliados do ponto de vista psicológico. Saliente-se que as três provas escritas –  que versavam Direito Penal e Civil e ainda um exigente conjunto de interpretação e argumentação de cultura – exigiam notas positivas, bastando uma inferior a 10 valores para se ser eliminado.

Sala de audiências do Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa. / Foto: D.R.

Ora, imaginar que desse ‘grupo de elite’, mais de metade não reunia afinal condições psicológicas (ou psiquiátricas) sequer para iniciar a formação é, no mínimo, “espantoso” – conforme manifestaram ao PÁGINA UM diversos psicólogos, sob anonimato, por temerem represálias institucionais.

Certo é que a reavaliação trouxe um novo alento à centena de candidatos que foram obrigados a enfrentar uma das provas mais cruéis das suas vidas: convencer, numa entrevista de duas horas, um derradeiro painel de psicólogos de que Mauro Paulino e a Talking About estavam errados. A empresa, recorde-se, aplicara um questionário em que se perguntava, entre muitas outras ‘pérolas’, se os candidatos tinham diarreia frequente ou ouviam vozes.

Quanto a Mauro Paulino e à sua Talking About, depois deste desfecho,  o futuro na área das avaliações psicológicas para o CEJ é incerto. Mas tudo indica que alguns dos formandos do CEJ  poderão, no futuro, cruzar-se novamente com os seus pareceres forenses, uma vez que uma das principais actividades da empresa é a elaboração de relatórios sobre arguidos em julgamentos. Depois desta prova de fogo no CEJ, talvez não fosse despropositado avaliar a qualidade desses pareceres. Ou da própria empresa.

Sede do Centro de Estudos Judiciários, em Lisboa. / Foto: D.R.

De facto, apesar de se denominar Talking About, a empresa de Mauro Paulino apresenta-se publicamente como Mind – Instituto de Psicologia Clínica e Forense, com uma alegada “equipa” de 11 pessoas listadas no site. Na realidade, o sucesso parece ser bem mais modesto. Segundo as contas anuais, a Talking About facturou cerca de 310 mil euros – valor que incluirá os trabalhos do ano anterior para o CEJ – e tem apenas dois empregados, um dos quais o próprio Mauro Paulino, que auferiu pouco mais de 27 mil euros como gerente.

A análise das contas da Talking About, que tem Mauro Paulino e a sua sogra como sócios, indicia assim que a generalidade dos seus colaboradores é remunerada pontualmente, à peça. E a empresa registou um lucro líquido de apenas 407 euros o ao passado. Pouco, muito pouco, para quem se apresenta publicamente como “Instituto de Psicologia Clínica e Forense” e pretende avaliar a saúde mental de futuros magistrados.

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