Visto de fora

Os sonhos do czar Putin

person holding camera lens

por Tiago Franco // fevereiro 24, 2022


Categoria: Opinião

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Não é muito fácil imaginar o que passará pela cabeça de Putin neste momento. Mais difícil ainda é perceber que acesso de loucura imperialista o levou a meter-se num buraco de onde dificilmente sairá vencedor. Depois de semanas de incentivo americano, especulação em algumas televisões e promessas de guerra com hora marcada, a Rússia lançou de facto uma ofensiva em todo o território ucraniano. A partir deste momento o regime de Putin deixou de ter qualquer poder de argumentação para o que se seguirá.

Numa situação extremamente complexa, como a que se vive neste conflito, acho confrangedora a simplista análise do Bem contra o Mal, e a escolha de lados.

man holding sword and shield statue

Mariana Mortágua fez, até ao momento, o julgamento que me parece mais lógico, e com o qual concordo. Putin é um oligarca de extrema-direita, sem qualquer apreço pela democracia e com sonhos imperialistas, como mostram as anexações na Geórgia, Crimeia e, desde 2014, Donbass.

Mas a história não começa aqui. Independentemente da loucura atribuída a Putin, não se pode contar esta história sem pensarmos na expansão da NATO para os países da antiga Cortina de Ferro, nos repetidos ataques de pelotões de neonazis à população russa no leste ucraniano, dos bombardeamentos da NATO na Sérvia, da invasão da Líbia e do Iraque, dos interesses americanos no conflito, seja pelo armamento ou pelos acordos energéticos.

Putin poderia até querer equilibrar a balança de poder, e trazer a Rússia para o confronto com os Estados Unidos, ao mesmo tempo que colocaria um tampão à expansão da NATO. Era uma posição, ainda assim discutível. Uma versão russa do Kosovo, quiçá.

Contudo, assim que as tropas russas lançam ataques em todo o território ucraniano, cai por terra a defesa dos separatistas de leste.

Fica visível que o discurso sobre a Ucrânia, onde Putin considerou que aquele território nem um país deveria ser, não era um bluff.

E é aqui que as dúvidas se multiplicam. O que esperará Putin obter de tudo isto?

A narrativa oficial é de que a Rússia não quer controlar a Ucrânia, mas sim retirar-lhe qualquer poder militar. Pergunto: porquê? Para defender uma região separatista de leste? Não bastava para isso estacionar tropas como fizeram na Crimeia? Alguém comprará a narrativa oficial?

Mesmo que a Rússia consiga vergar a Ucrânia, e trocar o governo pró-europeu por um pró-russo, que mais valia tirarão daí para além do acesso às riquezas do subsolo?

No outro lado da balança estará o despertar do fantasma russo na União Europeia. Os Estados Unidos atiram-se ao fornecimento de gás, a Europa certamente começará a pensar em sanções económicas, e mais defesas militares contra a Rússia. É este o preço que Putin quer pagar? O de ter como inimigos praticamente todos os parceiros comerciais do continente? Ainda por cima quando a NATO nem sequer queria admitir a Ucrânia como membro.

brown chess piece on white surface

Putin fez tudo o que o governo americano poderia desejar, e é isso que, decididamente, não consigo compreender.

Numa das declarações à televisão russa, Putin avisou ainda que, para além da invasão nos seus termos, não quer qualquer interferência no terreno de outros países, porque, se for esse caso, também esses países serão visados pelo exército russo.

Há quem diga que desde 1989, quando em Berlim assistiu encurralado à queda do muro, que os sonhos de grandeza e de recuperação do império habitam a mente deste ex-KGB. Será este o seu momento?
A NATO informou que não terá qualquer intervenção, e sabemos que tropas estrangeiras, entre elas portuguesas, estarão nas fronteiras apenas para controlar refugiados. Ainda assim, por quanto tempo ficarão os ucranianos entregues à sua sorte? Poderá o conflito ficar resolvido sem ultrapassar as fronteiras da União Europeia?

Imagino que as conversas da III Guerra Mundial comecem agora a tomar forma.

O rublo está em queda e o preço do gás e do crude começam a subir, afectando a vida de todos no continente europeu. A União Europeia vai ter que acelerar a transição energética e, com isso, reduzir a dependência da Rússia. Não há nada neste quadro que possa beneficiar a Rússia, seja qual for o desfecho da guerra.

Entendo que um homem como Putin, que entre manobras internas com Medvedev ou a alteração da Constituição, se consegue manter no poder há duas décadas, queira deixar uma marca na História do país. Pergunto-me é se terá feito as contas todas antes de ultrapassar as fronteiras de Donbass.

people gathering on street during nighttime

Por fim uma nota interna para quem, a partir de Lisboa, vê este conflito. Putin não é um político de esquerda. Putin não é comunista. Putin nem sequer vê com agrado as ideias de Lenine ou uma sociedade socialista. Putin é um capitalista corrupto à frente de um império que defende os seus interesses económicos. Tal como os que estão do outro lado do Atlântico.

Portanto, por favor, Partido Comunista Português, organização fundamental na luta contra a ditadura e defesa dos trabalhadores, não confundam a obra-prima do mestre com a prima do mestre de obra. Uma coisa é a política expansionista da NATO, orquestrada pelos Estados Unidos, que está na origem do conflito – e sim, deve ser criticada. Outra, é fechar os olhos a um louco de extrema-direita, só porque dirige um país que já foi palco de revoluções de trabalhadores e de ideais de Lenine.

Engenheiro de desenvolvimento na EcarX (Suécia)


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