Visto de fora

Putin e o meu entrevistador

person holding camera lens

por Tiago Franco // Março 17, 2022


Categoria: Opinião

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Algures nos idos de 97, era eu um estudante de engenharia desiludido, quando me apresentei na redacção do extinto semanário Independente para uma entrevista de trabalho. Não sabia bem o que estava ali a fazer, ou sequer para onde caminhava. Gostava de escrever, e não ficava maravilhado com circuitos recheados por transístores e condensadores. Era esse o ponto de partida.

Tinha enviado um texto para análise, que escrevera num jornal regional (Jornal de Leiria), e que, se a memória não me atraiçoa, começava com “as ex-repúblicas soviéticas”. Não me lembro do tema em concreto, mas andaria à volta de qualquer coisa sobre o desmembramento da URSS, poucos anos antes.

O diretor-adjunto de então perguntou-me o que fazia um estudante de engenharia ali. Eu disse-lhe que me sentia mais útil a escrever uma linha de texto do que uma linha de código. A conversa desenrolou-se e seguimos para a análise da minha crónica.

A primeira coisa que me disse foi “sabe, não existem ex-repúblicas soviéticas”, e rapidamente entrámos num debate sobre História, impérios, factos e convicções.

Não me recordo de muito, mas lembro-me de, a meio, ter percebido que entre o meu gosto pela escrita, as ideologias e a política editorial de um jornal bem encostado à direita, haveria pouco espaço para mim.

Antes de terminar a conversa perguntou-me, o entrevistador, em quem votaria na autarquia de Lisboa. Respondi que seria na coligação encabeçada por João Soares, e, não satisfeito, cavei o último pedaço da cova das minhas ambições jornalísticas naquele periódico com a frase: “essencialmente por causa da CDU”.

Pediram-me ainda que cobrisse o comício de encerramento da campanha no Coliseu dos Recreios, para onde fui, todo animado, com um bloco de notas. Fiz a crónica do evento, enviei-a para o dito senhor e, até hoje, aguardo que me digam se gostaram. Imagino que não; é um pressentimento.

Ainda assim, essa pequena experiência mal-sucedida serviu-me para concluir o óbvio: poucas profissões são tão interessantes como a de repórter da imprensa escrita. O meu respeito para eles.

Gosto sempre de pensar que o mundo perdeu um jornalista que poderia ter chegado a razoável, e ganhou um engenheiro que, quando muito, se tornou sofrível. Mas a frase, dita com alguma pompa, que não existiam ex-repúblicas soviéticas, martela-me o subconsciente há 20 dias.

É que não passa uma hora sem que um jornalista, comentador, analista ou político, se refira às ambições imperialistas de Putin de voltar a reconstruir o que o Muro levou, anexando territórios das ex-repúblicas soviéticas. Terá o termo voltado a entrar no jargão popular ou será que, o meu entrevistador, considerava simplesmente que nada seria ex-soviético porque essa união nunca existira?

No terreno vemos uma sucessão de factos algo contraditórios. Zelensky admite discutir a neutralidade da Ucrânia e a situação dos territórios. Ao mesmo tempo faz vídeos diários a apelar à intervenção externa.

Putin parece interessado em garantir a neutralidade, mas quer também a cabeça de Zelensky por troca com um Governo fantoche. Ora, isto era exactamente onde estávamos antes do primeiro míssil e da primeira morte. Precisou Zelensky de ver compatriotas no chão para aceitar o que tinha já na mesa? E o que esperará Putin com novo Governo fantoche? Que uma população imensa de um país enorme, não mantenha uma luta de guerrilha nos anos vindouros? Nada disto parece fazer sentido.

No caminho das contradições a Rússia bombardeou, de forma cirúrgica, uma base perto de Lviv onde se aquartelava uma legião de soldados estrangeiros. Muitos morreram nesse ataque considerado, nas nossas televisões, como dissuasor para outros combatentes estrangeiros que pensem alistar-se.

A CNN, sempre em procura de um final feliz, entrevistou um soldado americano que sobreviveu a esse ataque, e que, segundo ele, depois de fugir para a floresta, olhou para o céu e gritou: Putin, is that all you got?

Depois, para as câmaras disse que, apesar de todos os milhões gastos em armas, a única coisa que o ataque russo lhe tinha feito fora um corte no pulso. E neste momento mostra orgulhoso o pulso para o “cameraman”. Hollywood não escreveria melhor, e um desastre humanitário é-nos apresentado, à hora de jantar, como uma sequela do Platoon – Os Bravos do Pelotão.

Vejo teorias divididas entre um final da guerra em Maio – por ser o limite de autonomia do exército russo – ou um acordo nos próximos dias, com a capitulação da Ucrânia antes da invasão de Kiev.

Visto daqui parece um beco sem saída. Putin perderá esta guerra em qualquer cenário, seja com as revoltas a um Governo fantoche ou o fecho da Europa à Rússia. Contudo, dificilmente não aumentará o território controlado até há 20 dias.

A pergunta que ninguém consegue responder é: até onde irá na reconstrução do império?
Crimeia, Donbass, Odessa e Abecásia eram zonas de fronteira. A invasão da Ucrânia já mostra um outro nível de loucura e uma tentativa de anexar, ou pelo menos controlar, um país na sua totalidade. Duvido muito do sucesso das ambições do frio e calculista Putin, mas acredito que não fique por aqui.

O Vladimir, tal como o meu entrevistador em 1997, parece convencido que não existem ex-repúblicas soviéticas. Apenas soviéticas. Percebo agora que o meu interlocutor não estava errado, lançou foi o conceito 25 anos antes do seu tempo. Um visionário. E queria eu o emprego…

Engenheiro de desenvolvimento na EcarX (Suécia)


N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.

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