NOVIDADES LITERÁRIAS

Estante P1: Março de 2022

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por Sónia Valente // Março 29, 2022


Categoria: Cultura

Temas: Estante P1

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Título

Doce Tóquio

Autor

Durian Sukegawa

Editora

ASA

Sinopse

Apenas as cerejeiras denunciam a passagem do tempo. Primeiro com os seus pequenos botões, depois com as delicadas pétalas que voam ao vento… Numa pequena pastelaria perdida nas ruas de Tóquio, os dias sucedem-se sempre iguais. É aí que Sentarô confeciona dorayaki, um doce tradicional japonês ao qual não dedica grande atenção. Sentarô parece, aliás, ter desistido da vida. Abandonou o sonho de ser escritor, bebe demasiado e não tem amigos.


Mas tudo está prestes a mudar.

 No seu caminho surgem Tokue, uma senhora idosa que se entrega à preparação de dorayaki de alma e coração; e Wakana, uma menina solitária que se debate com os seus próprios fantasmas. Aos poucos, os improváveis companheiros descobrem que têm muito a oferecer uns aos outros. Mas Tokue esconde um passado turbulento que, inevitavelmente, vem ao de cima… com consequências devastadoras.

Doce Tóquio é uma história comovente sobre a fragilidade humana, o poder redentor da amizade e a beleza das coisas simples. Numa prosa límpida e bela, Durian Sukegawa fala sobre o nosso propósito na vida, exortando-nos a parar, a escutar e a observar, sempre. Um livro que encanta leitores de todas as idades, intemporal e pleno de sabedoria.

Título

Um detalhe menor

Autor

Adania Shibli

Editora

D. Quixote

Sinopse

No verão de 1949 - um ano depois da Nakba, a catástrofe que expulsou mais de 700 mil palestinianos das suas terras, e que os israelitas celebram como a Guerra da Independência -, uma unidade de soldados israelitas, ataca um grupo de beduínos no deserto do Negueve, dizimando-o. Entre as vítimas encontra-se uma adolescente que sobrevive ao massacre. É capturada e violada, e depois assassinada e enterrada na areia. É a manhã de 13 de agosto de 1949.

Muitos anos mais tarde, quase na atualidade, uma jovem mulher em Ramallah descobre acidentalmente uma breve menção a esse crime brutal. Obcecada com o assunto, não só devido à natureza macabra do caso, mas também devido ao detalhe menor de ter acontecido precisamente vinte e cinco anos antes de ela nascer, irá embarcar numa viagem para tentar desvendar alguns - dos detalhes que envolvem o crime.

Adania Shibli sobrepõe magistralmente estas duas narrativas translúcidas para evocar um presente para sempre assombrado pelo passado. Com uma prosa inquietante e precisa, Um Detalhe Menor evoca a experiência palestiniana do apagamento, da expropriação e da vida sob a ocupação, ao mesmo tempo que revela a complexidade permanente de se juntar as peças de uma narrativa ocultada por fragmentos de linguagem.

Título

O sr. Wilder & eu

Autor

Jonathan Coe

Editora

Porto Editora

Sinopse

Aos 57 anos, a vida de Calista Frangopoulos parece ter chegado a um impasse pessoal e profissional. À partida de uma das filhas para um país longínquo e ao complexo dilema com que a outra se debate, soma-se o pouco trabalho que tem tido enquanto compositora de bandas sonoras. É no meio deste caos que recorda a sua própria juventude e os tempos passados com o grande realizador de cinema Billy Wilder.
Em 1976, por mero acaso, Calista dá por si em Los Angeles, num requintado jantar com grandes figuras do cinema, entre elas Wilder, que acaba por contratá-la como intérprete durante a rodagem do filme O Segredo de Fedora, numa belíssima ilha grega.
E assim, ao lado de um dos maiores nomes da sétima arte, numa ímpar jornada de aprendizagem e crescimento, Calista conhece os últimos momentos de uma forma de fazer cinema que então chegava ao fim. Ao mesmo tempo, começa a traçar o seu próprio caminho, descobrindo não apenas o amor, mas também os traumas privados e coletivos que o Holocausto deixou.
Num romance que evoca a passagem da juventude à idade adulta e faz o retrato íntimo de uma das mais intrigantes figuras do cinema, Jonathan Coe lança o olhar sobre a natureza do tempo e da fama, da família e da atração traiçoeira que a nostalgia consegue exercer sobre cada um de nós.

Título

Poesia

Autor

António Maria Lisboa

Editora

Assírio & Alvim

Sinopse

«Desaparecido em plena juventude, António Maria Lisboa deixou uma obra escassa mas nem por isso menos fulgurante. Preocupado com uma verdadeira aproximação às culturas exteriores à tão celebrada civilização ocidental, há na sua poesia uma busca incessante de um futuro tão antigo como o passado. Pode, e decerto deve, ser considerado o mais importante poeta surrealista português, pela densidade da sua afirmação e na "direcção desconhecida" para que aponta.» Assim nos é apresentado o jovem poeta pelo amigo e companheiro surrealista Mário Cesariny, organizador deste volume de toda a produção de António Maria Lisboa.

Título

Os Médicis: a nossa história

Autor

Lorenzo De'Medici

Editora

Casa das Letras

Sinopse

O apelido Médicis evoca uma gloriosa imagem da Itália renascentista, especialmente de Florença, com as suas valiosas obras de arte, os seus magníficos palácios e as suas fabulosas riquezas; mas ao mesmo tempo remete para um mundo mais obscuro, mas não menos atrativo, de intriga e corrupção, de luta sem tréguas pelo poder.

 Lorenzo de’ Medici oferece-nos a história da sua família, desde as suas origens no século XII até à atualidade, construindo uma galeria de retratos dos seus mais notáveis representantes e conta o que significa ser herdeiro de um passado tão brilhante.

Título

Ulisses

Autor

James Joyce

Editora

Livros do Brasil

Sinopse

Obra-prima de Joyce, o melhor romance do século xx para muitos amantes de literatura, Ulisses revolucionou a escrita de ficção e tornou-se um dos mais idolatrados livros do século passado. Escrito entre 1914 e 1921, viajando de Trieste a Zurique e até Paris, foi na capital francesa que, depois de vários contratempos, o longo manuscrito de James Joyce conheceu a primeira edição, em fevereiro de 1922, precisamente no aniversário do autor. Como todas as obras-primas, alguns receberam-no mal no seu tempo: foi recusado por Virginia Woolf para publicação na sua editora – «aquelas páginas tresandavam a indecência» –, referido como «a coisa mais porca que alguém já escreveu», por D. H. Lawrence, proibido por muitos anos nos EUA. Hoje, Joyce é um autor consagrado, provavelmente o maior da literatura irlandesa, celebrando-se anualmente, a 16 de junho, o Bloomsday, em que se situa a ação do romance. Bebendo a sua inspiração da Odisseia de Homero, Ulisses regista um só dia na vida de Leopold Bloom, narrado com um lirismo e uma vulgaridade de esplêndidos extremos. No centenário da sua publicação, uma leitura obrigatória.

Título

A arca

Autor

Monica Wood

Editora

ASA

Sinopse

Ernie Whitten está a viver as semanas finais de uma história de amor. Marie, sua mulher há 45 anos, vai morrer em breve. Homem pragmático, ele nunca partilhara - nem percebera, na verdade - o gosto de Marie pela arte. Mas a relação de Ernie com o mundo está a mudar e a abertura de um concurso para projetos artísticos na universidade local leva-o a tomar a inesperada decisão de participar.

O projeto de Ernie - uma arca inspirada na Arca de Noé - rapidamente se torna um bálsamo para os dois. Marie adora vê-lo no jardim a construir esta excentricidade, e Ernie alimenta-se da atenção dela. Pouco a pouco, a arca torna-se o símbolo da solidez do casamento deles.

À medida que a arca vai ganhando forma, também as vidas dos que o rodeiam se transformam. Há Dan Little, um funcionário da câmara, que vai multar Ernie pela sua construção não autorizada e faz uma descoberta importante. Há Francine Love, uma precoce menina de 13 anos, carente de atenção e carinho. Há o poderoso Henry John McCoy, um homem habituado a ser admirado e temido mas que não consegue recuperar o amor da filha. E há ainda Pumpkin Pie, o cão embaraçoso que coloca Ernie perante si próprio.

 Estas são histórias de vidas em rota de colisão, unidas para o melhor e o pior. O que resulta é uma homenagem à grandeza e à fragilidade do espírito humano. E são raros os escritores que conseguem captar a sublime beleza das vidas comuns como o faz Monica Wood.

Título

As quatro estações

Autor

Mário T Cabral

Editora

Companhia das Ilhas

Sinopse

É já uma tese antiga, a de que existimos condicionados a um movimento constante amarrado a uma imobilidade permanente, próxima da solenidade. Primavera, tempo da revolução, dos recomeços brutais e das metamorfoses assíduas, cuja força germinadora emana também do ódio com que «o galo novo mata o galo velho». E se o Verão é a estação do vigor, regente de plenitude tal que pode já antever o seu decrescimento, o Outono, por sua vez, fica a postos para o «rodopio senil» e «o terror existe, efectivamente, ao fim da tarde», num impasse entre claridade e nostalgia. Por fim, no Inverno, lugar da cegueira, «luva sem dedos», não sabemos se estamos confrontados com o fim, se com o perpétuo replantio de novos fins.

Quatro Estações pode ser lido como um ensaio poético-filosófico, ou entendido como uma narrativa teleológica, onde, sob o manto em que o caos é o denominador comum, os eventos mínimos quotidiano subjazem sempre, como uma eterna sombra, a uma ordem maior do que a sua aparência. Entrecruzando diferentes artérias literárias num pulsar verbalmente intenso, a voz de Mário T. Cabral encara-nos, neste livro, com todo o seu despojo, clarividência, desassombro, fulgor, beleza.

Título

Para onde vamos, irmãs?

Autor

Mário T Cabral

Editora

Companhia das Ilhas

Sinopse

Serenidade e urgência, mas nunca medo: no confronto com as revelações implacáveis que a morte lhe traz, o sujeito destes poemas não resvala um só passo. Pelo contrário, mune-se dela.
Pressentida e, portanto, desarmada, rendida ao poder criador do verbo, tão indefesa quanto libertadora, como em Antero, tão despida que se abre, a morte reduz-se, como nos célebres versos de Herberto, a nada mais do que uma «porta / para uma nova palavra». Que palavra? Esta parece, de facto, ser a pergunta suscitada pelo título.

Para Onde Vamos, Irmãs? reúne textos escritos e reescritos entre 1985 e 2017, ano em que o poeta terceirense «enrolou todo o seu corpo em forma de viagem» e adormeceu como «as sementes que o lavrador atira, de mão em leque». A evidência da passagem e da partida não lhe merece nenhum timbre condoído, nenhum desconsolo encolerizado - à harmonia entre lei e natureza responde com a lucidez de quem «aprendeu a serenar», de quem regressa ao «reino do sol», como quem adquiriu um imperturbável «conhecimento sinestésico», mesmo que todo o conhecimento, já dizia o sábio do Eclesiastes, acarrete tristeza. É a tristeza, todavia, de quem constata estar só quando o sol «lhe entra pela boca» - nada que se compare com a miséria daqueles que querem ficar «vivos para sempre / ressequidos e podres».

Título

Para acabar de vez com Eddy Bellegueule

Autor

Édourd Louis

Editora

Elsinore

Sinopse

Criado no seio de uma família da classe trabalhadora, na Picardia, interior da França, Eddy não é igual às outras crianças. Os seus modos, a sua maneira de falar e a sua delicadeza valeram-lhe humilhações, ameaças e a incompreensão, tanto por parte dos colegas de escola, como do pai, um duro, alcoólico e irascível, e da mãe, uma mulher cansada e alheada.

Eddy cresce assim, preso na contradição de tanto gostar como odiar a pessoa que é, do fascínio e asco pelos seus desejos mais íntimos, de querer a liberdade de uma outra vida, mas nunca conseguindo colocar verdadeiramente de parte o seu amor pelos pais.

Primeiro romance de Edouard Louis, que lhe valeu o imediato aplauso da crítica e a fama internacional, Para Acabar de Vez com Eddy Bellegueule é um livro audacioso, feito de memória pessoal e de ficção, um romance temerário e franco, que procura responder à derradeira pergunta: como pode cada um de nós inventar a sua própria liberdade?

Título

Um certo Lucas

Autor

Julio Cortázar

Editora

Cavalo de Ferro

Sinopse

Sob o nome de Lucas, um certo Julio oferece ao leitor uma apaixonada colecção de pequenas ficções, sobre os seus pianistas favoritos, sobre os costumes de determinadas famílias argentinas ou o fim de uma história de amor.

Transgressor nato e dono de uma estranha sabedoria, também nos apresenta as melhores dicas para calçar sapatos, escrever poemas reversíveis, dar palestras, os modos de sair de um concerto ou de nadar numa piscina infantil. Tudo isto numa prosa lúdica e irónica, com a qual transformou a literatura do século XX.

Inédito até à data no nosso país, Um Certo Lucas não é um volume de contos, nem um romance ou um conjunto de ensaios; é um concentrado de virtuosismo cortáziano, um verdadeiro manual contra a formalidade e o tédio de leitura essencial.

Título

Lisboa em 10 histórias

Autor

Joke Langens

Editora

Casa das Letras

Sinopse

«As cidades tendem a ser fontes inesgotáveis de histórias»
Guia The Road Less Travelled.

E Lisboa, menina e moça, é uma cidade infinita: porto de abrigo para vários povos, casa de várias dinastias, ponto de partida de navegações para todas as direções da rosa dos ventos.

Como uma das capitais mais antigas da Europa, num dos países mais vetustos do continente, Lisboa foi testemunha de séculos de história. A cidade das sete colinas tem mil nomes e mil faces, todas marcadas nas suas calçadas, nas suas paredes cobertas de azulejos, nas ruínas de povos passados que vivem ainda sob os monumentos que resistem até hoje.

Não existe esquina, passeio ou recanto nesta cidade atlântica que não esteja repleto de histórias para contar, quer estejam esquecidas, bem vivas ou sejam sui generis. E até mesmo para os alfacinhas de gema, o óbvio por vezes esconde o não tão óbvio.

 Se quiser descobrir ou redescobrir a sua história, aqui ficam 10 delas: do antigo ao moderno, do milenar ao futurista.

Título

Um dia lusíada

Autor

António Carlos Cortez

Editora

Caminho

Sinopse

«Um livro era escrito, Um Dia Lusíada escrito como quem reinicia a vida e vê, do mais alto cume da Europa, os versos virem, ondas antiquíssimas, vocálica expressão já em desuso [...] e algo mais se passa que ninguém vê, era um dia lusíada como qualquer outro e esse dia era hoje, o dia em que me despeço, em que enlouqueço com a memória de Elias Moura [...] eu olhando agora o livro.» 

Título

Pio XII - O papa amigo do Portugal de Salazar

Autor

José de Carvalho

Editora

Casa das Letras

Sinopse

Pio XII demonstrou ser o homem certo para conduzir a Igreja num período de grandes perturbações e conflitos. Durante os 19 anos do seu pontificado (1939-1958), manteve-a sempre do lado certo da História. E, no entanto, é acusado de não ter feito o suficiente: algumas vozes insistem que não se opôs ao Holocausto nem denunciou os horrores do regime nazi.

Neste livro, o historiador José de Carvalho, especialista em assuntos político-religiosos contemporâneos, faz a defesa do Santo Padre. Recorrendo a extensa documentação, testemunhos e bibliografia disponível, demonstra que Eugenio Pacelli, enquanto encarregado da actividade política e diplomática da Santa Sé, e depois enquanto Papa Pio XII, censurou e actuou sempre com distanciamento face aos regimes nazi e comunista; e que, com grande coragem, defendeu e protegeu o povo judaico.

Pio XII – O Papa Amigo do Portugal de Salazar conta ainda a devoção de Pacelli a Nossa Senhora de Fátima, e o apreço especial que tinha pelo povo português e por Portugal, na altura governado por Oliveira Salazar. Prefaciado por Dom Duarte Pio de Bragança, este livro vem finalmente repor a verdade sobre «o Papa de Fátima», numa altura em que se fala da sua canonização.

Título

O fenómeno Marcelino da Mata - o herói, o vilão e a história

Autor

Nuno Gonçalo Poças

Editora

Casa das Letras

Sinopse

A figura de Marcelino da Mata desencadeou um debate público, feroz e inconsequente entre alguma esquerda e uma certa direita no qual o militar mais condecorado da História portuguesa ora surgiu como herói, ora como vilão. Mas esse debate, em vez de radicalização, merecia serenidade, clarificação e conhecimento.

Implicava, mais do que uma biografia de Marcelino, uma discussão sobre a guerra, o período revolucionário, o fim do império colonial, o racismo, o nosso legado na África independente e a procura de respostas e dos consensos possíveis em temas tão sensíveis.

Depois da efémera e tribal discussão que se gerou na sociedade portuguesa após o falecimento do tenente coronel, Nuno Gonçalo Poças traz-nos, em O Fenómeno Marcelino da Mata, uma apologia da moderação e lança as bases para um debate desapaixonado sobre episódios do nosso passado recente.

Título

Chamo-me Nuno e sou alcoólico

Autor

Nuno Ferreira

Editora

Oficina do Livro

Sinopse

Uma luta para toda a vida. Este é o relato na primeira pessoa de um homem - jornalista de profissão, pai de dois filhos, viajante e melómano - que caiu na armadilha da dependência do álcool e viu o seu mundo desmoronar-se lentamente.

Uma história semelhante a muitas outras que, todos os dias, destroem vidas e famílias sob a capa da vergonha, da culpa e do silêncio, mas que, ao contrário dessas, é trazida a público pela coragem e autenticidade do seu protagonista: o jornalista Nuno Ferreira.

Sem filtros nem lugar para a autocomiseração, Chamo-me Nuno e Sou Alcoólico é, simultaneamente, um murro no estômago, uma manifestação de força e um comovente sinal de esperança para todos aqueles que, directa ou indirectamente, sentiram na pele o flagelo das adições.

Título

A despedida de Ulisses

Autor

Francisco Moita Flores

Editora

Casa das Letras

Sinopse

Março de 2020. Ulisses conta os dias para se reformar do Ministério e se dedicar à sua paixão: a pintura. No dia tão esperado, tudo fecha. E o País passa a viver entre a pandemia e o delírio político e mediático.

Que raio de ideia foi esta, quando se soube que a pandemia estava prestes a chegar, de esvaziarmos os supermercados de papel higiénico e latas de atum? Que susto foi este que nos levou a confundir uma doença respiratória com um desarranjo intestinal?

Vivemos dias de delírio. Durante muitos meses, fomos interditados ao toque, ao beijo, ao abraço. Apenas ligados aos ventiladores da esperança para que o pesadelo terminasse. É certo que trouxe dor e sofrimento, luto e inquietação, mas também é verdade que nos ofereceu dias onde escutámos e acreditámos nas coisas mais disparatadas. Piores do que o intempestivo assalto às prateleiras do papel higiénico.

Nunca como neste tempo de transtorno se percebeu como a informação-espetáculo não coabita pacificamente com o conhecimento. Alimenta-se de poeira, ignorando a tempestade, olha a espuma das ondas sem vislumbrar a grandeza dos mares. Enclausurados pela polícia sanitária, tornámo-nos atores e espetadores desse psicodrama vertiginoso que nos remeteu para estudos e perícias paridas pelo Diabo, presos aos saberes de gente especializada em saber não especializado.

Escrevi este romance através dos medos que nos têm atormentado, durante a clausura forçada a que estivemos obrigados, submetidos aos caprichos de deuses de vendedores de banha da cobra, de sábios e de sabichões que desfilaram nos ecrãs de notícias.

Os protagonistas - Ulisses e Florência - são um bocadinho de todos nós. Apimentei-os com salpicos de loucura que o confinamento nos trouxe. Foram Contínuos, mais tarde promovidos a Assistentes Operacionais, pais de três filhos, cinquenta anos de comunhão de ternura e quezílias que, tal como nós, viveram assarapantados com as notícias e milagres.

 E não morreram de Covid. Viverão felizes para sempre nas páginas deste livro.

Título

Hipérion ou o eremita da Grécia

Autor

Friedrich Hölderlin

Editora

Assírio & Alvim

Sinopse

Neste romance, o primeiro e único escrito pelo autor, Hölderlin reflete sobre o princípio de libertação humana pela luta armada e o constante aperfeiçoamento interior, através do convívio íntimo com as artes e o mundo natural. Narrada em sucessivas cartas a um amigo e amada, Hipérion conta a sua longa jornada nas planícies da Grécia: desde a missão contrarrevolucionária contra os Turcos, que acabavam de dominar o país grego, passando pela angústia com o desfecho da rebelião, até ao último desejo de se tornar um eremita nas montanhas. Publicado em dois volumes (1797-1799), Hipérion ou o Eremita da Grécia é um exemplo maior de um dos mais importantes autores da literatura alemã.

Título

O maestro e a infanta

Autor

Alberto Riva

Editora

Porto Editora

Sinopse

Graças ao nascimento de Maria Bárbara de Bragança levantaram-se as paredes do Convento de Mafra. Mas a história da filha de D. João V vai muito além da conhecida promessa régia. Infanta de Portugal, casou por procuração com o herdeiro do trono espanhol e veio a ser Princesa de Astúrias e rainha de Espanha.
Nascida na luxuosa corte portuguesa, rodeada das riquezas que o ouro do Brasil ainda podia pagar, Maria Bárbara recebe uma educação privilegiada. Além de aprender vários idiomas, é discípula de um jovem compositor italiano que chegara a Lisboa em 1720.
A Domenico Scarlatti, homem gentil embora pouco seguro do seu talento, cabe assegurar a educação musical da infanta, de cujos dotes artísticos o rei duvida. As suas sonatas, tocadas mais tarde pelos maiores pianistas, começaram por ser exercícios destinados à filha do rei português. E quando esta parte para Madrid para se juntar ao marido, o compositor acompanha-a, mantendo-se junto dela até ao fim dos seus dias. Mais do que a relação entre mestre e aprendiz, une-os já uma amizade a que só a morte de um deles põe fim.
Neste original romance histórico, Alberto Riva evoca não só um período de guerras, intrigas entre casas reais e conspirações, mas também a terna ligação entre dois amantes de música, duas almas em busca do seu destino.

Título

Um dia na vida de Ivan Deníssovitch

Autor

Aleksander Soljenítsin

Editora

Livros do Brasil

Sinopse

Às cinco da manhã, golpes de martelo sobre uma barra de ferro assinalam a alvorada. À noite, com a cabeça tapada por um cobertor fino e sujo, resta acolher o sono com a satisfação de se ter aguentado. Um Dia na Vida de Ivan Deníssovitch relata as experiências da jornada de um prisioneiro num gulag no Cazaquistão. Uma das três mil seiscentas e cinquenta e três jornadas que lá enfrentou. Expressamente citado pela Academia Sueca no momento da atribuição do Prémio Nobel de Literatura a Aleksandr Soljenítsin, em 1970, este foi o primeiro romance publicado na União Soviética revelando a vida nos campos de trabalho dos prisioneiros políticos e a repressão estalinista. Uma narrativa brilhante e densa, editada originalmente em 1962 e saudada em todo o mundo como símbolo da nova literatura russa.

Título

Estrada para Los Angeles

Autor

John Fante

Editora

Alfaguara

Sinopse

O primeiro romance de John Fante, publicado postumamente, apresenta-nos Arturo Bandini e a sua vivência iniciática numa cidade que parece querer tramá-lo.

Aos 18 anos, Arturo Bandini vive com a mãe e a irmã em San Pedro, o porto de Los Angeles. Com a morte do pai e a crise financeira de 1929, é forçado a aceitar trabalhos duros e mal pagos, que desencadeiam um ciclo de frustração. Rebelde e ambicioso, porém consciente das armadilhas da sua condição social, insiste em perseguir o grande sonho americano, mas está sempre a levar com a porta na cara.

Publicada nos anos 1930, a saga - A Primavera Há de Chegar, Bandini; Estrada para Los Angeles; Pergunta ao Pó; Sonhos de Bunker Hill - é a grande obra de John Fante, nome incontornável da literatura americana.

 Foi reeditada nos anos 1980, por recomendação de Charles Bukowski, e descoberta por uma nova geração de leitores, alcançando o estatuto de obra de culto. Não ler John Fante é ignorar uma página imperdível da literatura do século XX.

Título

Pergunta ao pó

Autor

John Fante

Editora

Alfaguara

Sinopse

Na Los Angeles do tempo da Grande Depressão, encontramos uma personagem maior que a vida - Arturo Bandini -, vivendo à margem da cidade de todos os sonhos.

 Este romance conta a história de um jovem descendente de italianos que parte à aventura, deixando uma pequena povoação no Colorado rumo à vibrante Los Angeles. Para sua desilusão, o que descobre à chegada é uma cidade mergulhada na pobreza opressiva da crise financeira. Arturo Bandini não tem um tostão, mas teima no sonho de ser um grande escritor. Quando recebe uma bela maquia pela publicação de um conto, esbanja-a em roupas caras, bons restaurantes e bares de striptease.

Os planos de grandeza começam a correr mal quando Bandini se envolve numa intensa e destrutiva relação amorosa com a mexicana Camilla Lopez, e também por força da dura realidade que nunca julgou vir a encontrar naquela grande cidade. Tudo o que parecia promissor acaba, afinal, de forma trágica.

Pergunta ao Pó é uma obra inesquecível sobre as franjas de uma sociedade, sobre o lado negro de uma personagem que é o alter ego do seu autor, sobre sonhos desfeitos. John Fante, mestre da ficção americana do século XX, oferece ao leitor aquele que é considerado um dos melhores romances de sempre sobre esta época fervilhante.

Título

O perfume das flores à noite

Autor

Leïla Slimanni

Editora

Alfaguara

Sinopse

De uma das vozes mais estimulantes da literatura europeia, um texto magnífico, que combina uma viagem pela memória com uma reflexão instigante.

Como escritora que acredita que a verdadeira audácia vem do interior, Leïla Slimani não gosta de sair e prefere a solidão à distração. No entanto, aceita um inusitado convite para passar uma noite num museu em Veneza - um edifício mítico na Punta della Dogana. A noite insone acaba por ser o pretexto para a escritora deambular por outras paragens e outros tempos.

 Percorrendo, de pés descalços, as salas e os corredores do museu, estimulada pelo perfume das damas-da-noite que a transportam para a infância em Rabat, Leïla Slimani fala-nos do belo e do efémero, da virtude do silêncio, da magia da criação artística, da solidão e do sacrifício da escrita. Acompanhada pelas palavras e histórias de outros criadores, como Virginia Woolf, Rilke, Montaigne, Murakami e Emily Dickinson, Leïla conduz o leitor por uma viagem intensa, uma reflexão iluminada e um desfile de memórias comoventes.

Título

Café de Gatos

Autor

Charlie Jonas

Editora

ASA

Sinopse

Susann está prestes a partir para Itália numas férias que poderão ser as últimas. Quando regressar, vai submeter-se a uma cirurgia que a impedirá de viajar durante muito tempo. É agora ou (provavelmente) nunca. Mas a ideia de deixar a sua querida gata Mimi com estranhos deixa-a desconsolada. É então que se lembra de Leonie, a vizinha com quem se dá tão bem. Estará a jovem professora disposta a aceitar o seu pedido? Com certeza que sim, afinal, a Mimi é um amor…

Leonie está familiarizada com as excentricidades das outras pessoas (principalmente se forem homens franceses), não com as de pequenos animais de estimação. Mas quando Susann lhe expõe o seu plano, ela não consegue recusar, pois tem a sensação de que a felicidade da vizinha depende demasiado daquela viagem.

Mas Leonie rapidamente percebe que ela e Mimi não fazem uma boa dupla: a gata parece fazer de propósito para tornar a sua vida num inferno, desde personalizar o sofá a destruir os frascos de verniz Chanel. E quando Susann decide prolongar as férias, Leonie entra em pânico e recorre a Maxie, a sua melhor amiga, que acaba de abrir um café. Pois Maxie também não consegue recusar um pedido de ajuda e aceita ficar com a gata. E é assim que Mimi e os seus bebés (sim, Susann vai ter uma surpresa…) tomam o café de assalto.

A vida destas três mulheres (e do café) não voltará a ser a mesma.

 Porque a Mimi sabe o que nós humanos apenas intuímos: um gato muda tudo - para melhor, obviamente.

Título

Uma Porta Estreita

Autor

Joanne Harris

Editora

ASA

Sinopse

Durante os seus quinhentos anos de existência, nunca o elitista Liceu de St. Oswald permitiu a entrada do sexo feminino. Mas os ventos da mudança sopram com mais intensidade do que nunca. Pela primeira vez na história da respeitável instituição, uma mulher ocupa a função de reitora e os portões vão finalmente abrir-se de par em par para receber alunas.

Pode dizer-se que Rebecca Buckfast derramou sangue, suor e lágrimas (em sentido literal) para conseguir alcançar a chefia do liceu. Aos quarenta e três anos, está finalmente a colher os frutos da sua ambição. Mas tem ainda um potente inimigo a defrontar: a velha guarda, encabeçada pelo temível e quixotesco professor de Latim, Roy Straitley.
E a situação não melhora com as notícias do aparecimento de um corpo.

Mas Rebecca está determinada a deixar a sua marca. Mesmo que para isso tenha de enterrar os segredos do passado suficientemente fundo para que nem ela os recorde.
Pois este é o seu momento…
E ela está para ficar.

 Nesta teia que se vai tecendo entre Rebecca e Straitley, quem é a aranha e quem é a mosca? E quem sairá vitorioso? Um romance de suspense psicológico explosivo e absolutamente surpreendente pela mão da talentosa Joanne Harris.

Título

Silêncio Aflito

Autor

Luís Trindade

Editora

Tinta da China

Sinopse

Poucos objectos culturais circulam tanto como uma canção. Cantada, gravada, ouvida, a canção anda pela rua, pela rádio, em concertos, é mostrada na televisão e no cinema, guardada em discos e noutros suportes. Canções como «Vocês Sabem Lá», «Desfolhada Portuguesa», «A Lenda de El‑Rei D. Sebastião» ou «Venham mais Cinco» ajudaram quem as ouviu a situar‑se no pós‑guerra, nos anos 60, no período final do Estado Novo, e a imaginar o seu lugar no interior da sociedade portuguesa e de todas as comunidades globais que por essas décadas se formaram em torno dos gostos musicais e das suas formas de audição.

Mas as canções também produzem efeitos inesperados. Do romantismo que ajuda a escapar dos interditos morais ao protesto que antecipa revoltas políticas, elas contribuem para transformar o mundo. Nestas páginas, os protagonistas serão não só os intérpretes das canções, mas também aqueles que as ouviram e cantaram numa qualquer ocasião das suas vidas, tornando esses momentos banais nos verdadeiros acontecimentos da história que aqui se quer contar.

Título

Divisão da Alegria

Autor

Raquel Nobre Guerra

Editora

Tinta da China

Sinopse

Raquel Nobre Guerra pela primeira vez na Colecção de Poesia da Tinta-da-china, dirigida por Pedro Mexia.
«O que significa ‘Divisão da Alegria’? Um gesto franciscano (a que não faltam idílios campestres ou uma gata chamada Ninotchka); uma alusão às canções sem alegria de Ian Curtis; o contingente dos amigos; os pequenos prazeres; aquilo que vem depois do luto (evitando a melancolia); ou a própria tarefa do poeta, ‘príncipe das metades’?»
-PEDRO MEXIA

Título

Figuras do Mito

Autor

Maria Mafalda Viana

Editora

Tinta da China

Sinopse

Figuras do Mito mostra como a mitologia greco‑latina, os seus deuses, heróis e heroínas se foram transfigurando ao longo dos séculos no Ocidente, mediante a poesia e outras artes, num processo que os mantém vivos, até mesmo no nosso quotidiano e na nossa linguagem, onde ficaram cerzidos. Assim modelam ainda o nosso pensamento, sem que muitas vezes nos demos conta disso.
Este livro não é um manual de mitologia. De Ariadne a Ulisses, de Édipo a Prometeu e ao gigante Adamastor, em torno dos quais vão surgindo inevitavelmente outras figuras desta imensa teia mitológica, Mafalda Viana centra‑se nas histórias e personagens que mais relação têm connosco, num ritmo que chega a ser o de uma conversa.

Título

O Africano da Gronelândia

Autor

Tété-Michel Kpomassie

Editora

Tinta da China

Sinopse

«Tété‑Michel, um jovem negro, filho de uma família tradicional africana, com oito mães, as oito esposas do progenitor, nascido num bairro periférico da cidade de Lomé, fez‑se a si próprio descobridor. O ‘esquimó africano’, como foi cognominado num documentário que a BBC lhe dedicou, rompeu com uma trágica sina secular, fugindo de casa aos 16 anos [em 1958], para só regressar aos 27.
O Africano da Gronelândia é, a vários títulos, um livro como nenhum outro. A minúcia colocada na observação do quotidiano (as viagens de trenó, a caça às focas, a aurora boreal) e o detalhe com que Tété‑Michel descreve a forma como se integrou numa sociedade radicalmente diferente daquela de onde veio (com a troca de casais à vista de todos, a prática do sexo na presença dos filhos, o problema do alcoolismo) fazem‑nos descobrir como o mundo pode ainda ser um lugar surpreendente.»
— Carlos Vaz Marques, Prefácio

Título

Os Retornados de Xangai

Autor

António Caeiro

Editora

Tinta da China

Sinopse

Mais de duas décadas antes de Portugal perder o seu império colonial, milhares de portugueses tiveram de abandonar a terra onde nasceram e onde esperavam continuar a viver. Mas, ao contrário dos retornados de África, os de Xangai não tinham uma metrópole para a qual voltar e muitos nem sequer falavam português.

«Euro‑asiáticos», «filhos de Macau» ou «luso‑orientais», foram dos primeiros estrangeiros a estabelecer‑se em Xangai, em meados do século XIX, e durante os cem anos seguintes constituíram uma das suas maiores comunidades. Viveram os efeitos da Guerra do Ópio, a queda de uma monarquia multimilenar, a ocupação japonesa, uma longa guerra civil, que terminou com a vitória do Partido Comunista em 1949, e a seguir voltaram a partir. Contribuíram para transformar a cidade numa grande metrópole internacional e, depois de terem saído, ajudaram a perpetuar o fascínio em torno da mítica Xangai dos anos 20 e 30.

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