Recensão

Um divertimento literário cheio de fantasia culinária

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por Paulo Moreiras // abril 11, 2022


Categoria: Cultura

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Título

Livro de receitas dos lugares imaginários

Autor

ALBERTO MANGUEL (tradução: Rita Almeida Simões)

Editora (Edição)

Tinta da China (Novembro de 2021)

Cotação

16/20

Recensão

“Só na má literatura é que as personagens não comem”, afirmou Alberto Manguel (n. 1948) em Dezembro do ano passado, numa entrevista ao Ípsilon (Público).

Pegando nesta ideia, poderemos afirmar igualmente que só os maus leitores não pensam no que as personagens comem. Numa ou outra leitura, seguramente que alguns leitores já deram por si a imaginar como seriam as iguarias que as suas personagens estariam a degustar em determinando momento da narrativa e o que fariam se elas à sua frente se materializassem.

Quem nunca desejou partilhar a mesa e as pitanças com Sancho Pança, mais dado à comezaina do que o seu escanzelado cavaleiro andante? Quem nunca imaginou os petiscos que Phileas Fogg e Passepartout comeram na sua volta ao mundo? Que dizer dos repastos com os Três Mosqueteiros? Ou mesmo nas farsas de Gil Vicente?

Neste Livro de receitas dos lugares imaginários, o prazer da leitura prolonga-se num verdadeiro êxtase pelo prazer de cozinhar e, sobretudo, o prazer de comer e partilhar, tanto a mesa como os livros. Além de ler e escrever, o ensaísta argentino e autor de vários best-sellers internacionais também gosta de imaginar quais as iguarias que as personagens que vai lendo mais apreciam trincar.

É na cozinha, entre tachos e panelas, que o escritor se entretém a inventar receitas, segundo ele, desde a adolescência, e agora as apresenta pela primeira vez em livro. «Sempre me senti atraído por histórias sobre comida, ou melhor, histórias em que as personagens se detêm a comer, passam tempo a cozinhar ou se reúnem à volta de uma mesa», confessa o autor na sua Introdução. “A comida realça a realidade da ficção [...] porque, para mim, a simples menção de comida humaniza uma história», acrescentando que «toda a comida (diz-nos a literatura) é, na sua essência, uma prova da nossa humanidade comum”.

Para compor estas receitas, Alberto Manguel dedicou-se à “comida de lugares que não existem senão na imaginação”, seleccionando lugares imaginados por Homero, Júlio Verne, Cervantes, Platão, Boccaccio, Melville, Gabriel García Márquez, Italo Calvino, Thomas Bernhard, Rabelais ou Tolkien, entre tantos outros. Um verdadeiro festim literário e pantagruélico.

O livro congrega 74 receitas e encontra-se dividido em Entradas e sopas (11), Pratos principais e molhos (37), Sobremesas (21) e Bebidas (5). A maior parte das receitas são de fácil execução, com os passos necessários bem explicados. Na lista de ingredientes, salienta-se o uso da malagueta, que aparece em onze receitas, ou os coentros em nove receitas, uma delas para sobremesa. Destaque também para o uso de variadas especiarias e ervas aromáticas, que conferem grande personalidade aos pratos.

Aqueles ingredientes imaginários, quando difíceis de encontrar, podem ser facilmente substituídos por outros mais comuns, como por exemplo, ovo de aepyornis (p. 37) que pode ser substituído por ovos de galinha, assim como o ovo de dragão (p. 74); a carne de roc (p. 100) substituída por carne de cordeiro; a salsicha de elefante (p. 102) por salsicha merguez ou o albatroz negro de Tsalal (p. 115) facilmente substituído por frango. Só a falta de imaginação impossibilita qualquer confecção gastro-literária. A receita mais dispendiosa talvez seja o Risotto de Trufa à Moda de Marina (p. 83), pois requer uma trufa negra fresca.

Numa ou noutra receita, os leitores facilmente reconhecem alguns pratos bastante familiares, como o caso da nossa tradicional canja, aqui proposta como Sopa de Letras de Babel (p. 22), com as massinhas de letras, as mesmas com que na nossa infância nos divertíamos a formar palavras no prato, ou os crepes na receita dos Achatados (p. 138).

Há algo de lúdico, prazeroso e nostálgico nestas receitas propostas pelo autor pois, como escreve Manguel, “a literatura não é apenas alimento da alma”, é também uma maneira de nos identificarmos «com os livros que amamos; de certa maneira, tornamo-nos a personagem cuja vida seguimos na página.”

O jornalismo independente DEPENDE dos leitores

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