Recensão: A despedida de Ulisses

Da sociedade pandémica portuguesa – uma sátira

por Ana Luísa Pereira // Abril 15, 2022


Categoria: Cultura

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Título

A despedida de Ulisses

Autor

FRANCISCO MOITA FLORES

Editora (Edição)

Casa das Letras (Março de 2022)

Cotação

16/20

Recensão

Nascido em Moura, em 1952, o escritor Francisco Moita Flores é conhecido por ter sido presidente da autarquia de Santarém (2005-2012), e colaborador em vários periódicos e televisão, comentando política nacional e temas sociais. Mas grande parte da sua vida passou pela Polícia Judiciária, embora tenha cursado História.

Todas estas experiências lhe terão dado um repertório interminável para a ficção. São já vários os seus romances que resultaram em séries televisas e cinema, nomeadamente Os polícias, A raia dos medos, Alves dos Reis, O processo dos Távoras e A Ferreirinha.

A despedida de Ulisses, a sua mais recente obra, mais do que um romance poderá ser entendido como uma descrição da vida portuguesa durante os primeiros meses da pandemia, causada pelo SARS-CoV-2. A crueza e o realismo custam a digerir, fazendo-nos questionar: mas não é suposto que a literatura nos transporte para outros lugares, outras paisagens, outras vidas?

O truque de Moita Flores é, neste aspecto, brilhante. A viagem é a de um Ulisses, entre o passado ressentido – pela miséria que o obrigou a deixar os estudos durante a ditadura – e o futuro por que anseia viver com a reforma à vista. Um futuro, espera ele, inteiramente dedicado à sua paixão: a pintura.

A pandemia, com o primeiro estado de emergência, é um boicote à sua reforma, que de idílica pouco tem. É aqui que entra a mestria de Moita Flores, que intercala os acontecimentos do “estado pandémico da nação” com as viagens interiores de Ulisses.

A arte foi, é – e a nossa esperança é que continue a ser – o reduto da beleza, o lugar para resgatar a nossa Humanidade.

Entre as discussões sobre onde comprar papel higiénico ou latas de atum, os pretextos para sair, como comprar brócolos, e a chegada pomposa dos ventiladores, que afinal não se sabe por onde andam os restantes trezentos e tal, Moita Flores enleva-nos com a descrição do Louvre e das sensações e emoções estéticas causadas pela contemplação d’A Origem do Mundo, de Gustave Courbet, ou a Morte da Virgem, de Caravaggio, entre muitos outros. É como se a intenção do autor fosse a de nos permitir uma pausa entre a estupidez e a miserabilidade humanas e a criação e a arte grandiosas, também humanas.

Este é um romance que nos leva do extremo da mediocridade política portuguesa até à criatividade, bondade, dedicação e beleza que sobrevivem, em potencial, em cada um de nós. Assim nos desliguemos da televisão, das notícias, das redes sociais…

Eis aqui um romance que perpassa, sob a forma de sátira, por algumas temáticas contemporâneas, ajudando a desconstruir e a compreender a propaganda mediática a que estamos sujeitos.

É a quantidade de temas e a sua superficialidade, juntamente com alguns lugares-comuns, que nos inibe a uma nota mais alta. Note-se, porém, que o que Moita Flores aborda é o suficiente para que os mais atentos se revejam nas discussões pobres, que a cada momento chegam como que em vagas, para distrair e entreter os que por elas se deixam assoberbar.

A lucidez é a da personagem principal, Ulisses, que “contracena” com a sua mulher, Florência – um triste retrato de parte da população portuguesa, cuja comicidade só não é maior pela trágica semelhança com a realidade.

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