Anne Weber

‘Numa guerra, tudo é decidido no momento’

por Nuno André // maio 10, 2022


Categoria: Entrevista P1

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Distinguida com vários prémios literários internacionais – Prémio de Literatura Heimito von Doderer, Prémio 3sat e Prémio de Literatura Kranichstein –, a alemã Anne Weber (n. 1964) retrata, em tom épico, a vida de Anne Beaumanoir (1923-2022), uma heroína francesa da II Guerra Mundial, uma dos Justos entre as Nações, que se tornou médica e se envolveu no movimento de luta pela independência da Argélia. O PÁGINA UM esteve à conversa com esta autora bilingue, em Lisboa, a pretexto da edição em Portugal de Annette, epopeia de uma heroína, romance publicado pela Dom Quixote, e que venceu o Prémio de Livro Alemão 2020, o maior galardão das letras da Alemanha.


A Anne escreve fluentemente em duas línguas – francês e alemão –, mas quando pensa, as palavras surgem em que idioma?

Os sonhos são essencialmente imagens, mas o pensamento e as ideias, nem sempre. Quando penso estou consciente e, por isso, acabo por pensar através das palavras… É uma pergunta curiosa que me acaba de fazer, nunca tinha pensado nisso. Quando estou em França, penso em francês; mas se estiver na Alemanha durante algum tempo, começo a pensar em alemão.

Qual é o critério para decidir em que língua vai escrever um livro?

A razão pela qual escrevo numa língua ou noutra não está relacionada com o tema, com a história ou com o assunto em questão. Aliás, quando comecei a escrever era adolescente, e como vivia na Alemanha, escrevia em alemão. Entretanto, quando fui para França continuei a escrever em alemão. Somente depois de alguns anos é que comecei a escrever em francês. As palavras surgiam na mente em francês. Publiquei um primeiro livro em França, escrito em francês e alguns familiares e amigos perguntavam-me: “mas sobre o que é este livro?” – eles não percebiam francês! Então eu própria preparei uma tradução, e editei em alemão – para que eles pudessem ler o livro.

Anne Weber

Mas regressou também ao seu alemão como escrita original?

Sim. Entretanto, uma editora alemã começou a querer publicar os meus textos, e acabei por retomar o alemão como primeira língua. Aliás, já escrevi sobre a história de uma francesa, e escrevi primeiro em alemão. Contudo, fez-me muito bem a distância que houve entre mim e a minha língua materna no princípio, depois de ter ido para França. A literatura exige manter uma certa distância. Essa distância foi mesmo muito útil.

O livro que veio apresentar em Lisboa, aborda a desobediência de Annette [Anne Beaumanoir] como uma virtude. Devemos, por isso, educar as nossas crianças a serem desobedientes?

No caso dela foi, de facto, uma virtude. Não quer dizer que essa atitude seja em todos os casos. Nas escolas em França, e em todo o Mundo, é importante ensinar a pensar e a educar de forma que todos aprendam a pensar pela sua cabeça, e a seguir a desobediência quando e sempre que for necessário. Quando um Estado ou algum grupo te pede algo, percebes se estás ou não diante de uma decisão injusta com a qual não podes colaborar. A Annette foi desobediente, porque não acreditava no regime que a rodeava. Ela queria um mundo diferente. Lutou e desobedeceu, porque acreditava numa alternativa mais justa, mais humana.

Annette, epopeia de uma heroína, publicado originalmente em 2020, foi editado em Abril deste ano em Portugal pela Dom Quixote.

Foi a literatura, entre outras coisas, que aproximou Annette à Resistência francesa. Acredita que a literatura guarda um poder curativo para a Humanidade?

De facto, o romance de André Malraux levou-a a iniciar a sua atividade de resistência. Aquilo que mais a atraiu foi o retrato romântico de um herói que sacrificou a sua vida por uma causa maior. A literatura pode ter tantos propósitos! Acredito que não se reduz a um propósito único. O romance, por exemplo, abre um mundo inteiro ao leitor; mergulhamos nele e ficamos completamente absorvidos…

Escreveu uma epopeia, daí o próprio título. Que razão a levou a escrever a narrativa, em prosa, mas num ritmo poético, tão diferente do que é comum?

Quando comecei a pensar em escrever este livro, perguntei-me várias vezes até que ponto eu seria capaz de contar a história de alguém que realmente existe, que não é uma personagem fictícia, mas uma pessoa que me confidenciou a sua história. Foi uma ideia que inicialmente até me repeliu por breves instantes. Talvez tivesse passado pela minha cabeça algo mais próximo de um romance histórico, tradicional. Nesse ambiente nós inventamos cenários, detalhes, criamos uma atmosfera de suspense e até criamos diálogos.

Seria mais fácil…

Se assim fosse, teria posto na boca da Annette palavras que ela nem sequer diria na época. Então, teria mudado muita coisa, talvez até o nome. Seria outra história. Porém a batalha continuou dentro de mim. Eu não estava na condição de biógrafa, não pretendia isso. Foi então que me lembrei dessa forma literária muito antiga que é a epopeia. Finalmente podia contar ou cantar os feitos corajosos de uma mulher num ritmo muito próprio – as epopeias narram os feitos corajosos de heróis homens… até agora! Esta epopeia conta os feitos heroicos de uma mulher!

As epopeias exageram – faz parte da sua natureza. Exagerou muito ao escrever o livro?

Eu pensei muito sobre o ritmo que devia dar à história para que o leitor se envolvesse nela. Na verdade, não há exagero, como se dá por vezes quando se cria uma lenda. Pode haver, sim, uma simpatia da minha parte que me tenha levado a compor a história de um certo ponto de vista. Mas não há, neste livro, exagero para transformar a Annette numa lenda, ou para glorificar a sua vida. Li alguns textos épicos ao longo da minha vida: A Ilíada, a Odisseia… Não os reli, mas dei uma passagem rápida enquanto estava a escrever o texto.

Com que cenas da vida de Annette mais se identifica?

Não ouso identificar-me com a vida de Annette. Aliás, nem sei como seria a minha reacção se vivesse o que ela viveu. Mas há uma passagem que me toca muito: o resgate das duas crianças – na verdade, são adolescentes judeus – durante a ocupação de Paris, contrariando as regras do movimento de resistência de não se agir por iniciativa própria. Parece-me um episódio extraordinário e cheio de coragem, sobretudo para uma jovem, sozinha. Ainda por cima, tratava-se de gente desconhecida, de pessoas com quem nunca tinha falado. Quando penso em mim, aos 19, 20 anos… preocupada comigo mesmo, com as minhas questões pessoais, com as minhas pequenas histórias.

Vida da francesa Anne Beaumanoir, nascida em 1923 e falecida em 4 de Março deste ano,, é retratada no romance de Anne Weber.

Bea

Annette é fruto de um contexto de guerra. Também nós deveríamos mudar diante da actual guerra entre a Rússia e a Ucrânia?

Da noite para o dia tudo mudou, a nossa vida também mudou. Aliás, já estive na Ucrânia e falei com uma amiga que conheci lá imediatamente antes da invasão ter começado. Ela não queria acreditar. Tudo mudou completamente. Para nós, que não estamos lá, é difícil imaginar o que é estar no meio de uma guerra. Espero que não tenhamos que passar pelo mesmo, espero que não chegue até nós. O cenário de guerra faz-nos tomar decisões que só quando passamos pela experiência é que sabemos e descobrimos um lado nosso, escondido até então. Numa guerra, tudo é decidido no momento. Foi isso que aconteceu com Annette. Aconteceria com cada um de nós ao viver na primeira pessoa esse acontecimento. Ao ler este livro, não há como não perguntar a ti mesmo: “o que faria eu no lugar dela?”.

Quem é que fala com o leitor ao longo destas páginas: a Anne Weber ou Annette?

R: A Annette escreveu as suas próprias memórias. Foram publicadas em francês, e agora também já foram publicadas em alemão. Aí é ela que fala com o leitor. Neste livro, é claramente o meu ponto de vista, sou eu quem interpela o leitor; a história é dela, os pensamentos são dela. Infelizmente sou eu quem fala… não é ela directamente.

Como se conheceram?

Conheci Annette Beaumanoir por acaso, há alguns anos atrás, quando fui convidada para um festival de documentários no sul de França. Ela estava na plateia e acabámos a conversar. Até então, eu nunca tinha conhecido ninguém que tivesse feito parte da Resistência. Queria saber mais – sobre ela, sobre sua vida. Algum tempo depois, creio que passaram poucas semanas, fui visitá-la e criámos amizade. Li a sua autobiografia e, entretanto, tive a ideia de lhe dedicar um livro, e contar a sua vida de uma maneira diferente.

O que lhe disse Annette quando leu o seu livro?

Assim que terminei o manuscrito, em francês, mostrei-lhe e ela disse-me que estava óptimo. Mas houve algo que me incomodou. Depois de me ter dito que estava muito bom, disse-me que não era ela que estava ali retratada no livro. Entendi, entretanto, o que ela queria dizer – ela não se via como uma heroína. Sentiu que eu tinha exagerado! É claro que quando escrevemos sobre alguém há sempre a influência do nosso próprio ponto de vista, e depois há ainda a nossa forma de contar. Imaginemos que alguém te pedia para escrever a história do teu pai ou da tua mãe… Seria sempre um ponto de vista diferente dos próprios. No entanto, sinto que ela disse aquilo porque estava a ser humilde. Porque viveu aqueles episódios com simplicidade e autenticidade.

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