Recensão

A caricatura perfeita de um país imperfeito

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por Pedro Almeida Vieira // maio 20, 2022


Categoria: Cultura

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Título

Caricaturas portuguesas dos anos de Salazar

Autor

JOÃO ABEL MANTA (Pedro Piedade Marques)

Editora (Edição)

Tinta da China (Abril de 2022)

Cotação

17/20

Recensão

A justiça, como forma de reconhecimento, deve ser concedida em vida. E, de facto, seja reconhecido, a multifacetada obra de João Abel Manta tem estado bem viva e bem-vinda se tem mostrado, agora que ele acaba de perfazer 94 anos.

Formado em Arquitectura na Escola de Belas Artes de Lisboa, em 1951, João Abel Manta tem obra feita nesta área – onde o exemplo mais emblemático é o conjunto de edifícios da Avenida Infante Santo, na capital –, mas foi sobretudo como artista plástico, no desenho e arte pública – por exemplo, o desenho em calçada portuguesa da alfacinha Praça dos Restauradores ou o painel de azulejos da Avenida Calouste Gulbenkian –, e na pintura e no cartoon político que mais se destacou.

Para uma geração mais jovem – ou mesmo para aqueles com idade inferior aos 60 anos –, João Abel Manta pouco poderá dizer – e é pena. Mas, nas décadas de 50 e 60 – e em especial nos anos imediatamente anteriores e posteriores ao 25 de Abril foi ele um dos mais proeminentes cartoonistas, primeiro no Diário de Lisboa e depois sobretudo n'O Jornal.

Caricaturas portuguesas dos anos de Salazar, obra originalmente publicada em 1978 e agora reeditada pela Tinta da China, faz jus à excepcional obra de João Abel Manta, não apenas por ser a “visão” de um cartoonista durante um período conturbado da nossa sociedade, mas sobretudo por mostrar um processo de “exorcismo” do autor perante os fantasmas do fascismo que sobrevoavam então a sua mente no pós-25 de Novembro de 1975.

Preparados num período de auto-exílio em Londres, os cartoons de João Abel Manta, revolucionários para a época, não retratam apenas Salazar – muito pelo contrário; mostram, sim, a mentalidade do país de um ditador – de um país secular sempre pouco livre –, sempre omnipresente, sempre retrógrado, sempre lamentável.

Num traço inconfundível, intrigante, por vezes de uma violência sádica (como nos cartoons sobre a Guerra Civil de Espanha), muitas vezes a necessitarem de reflexão para um melhor entendimento, os 139 cartoons que constituem este livro – num esmerado trabalho gráfico em papel que destaca as cores e num necessário formato oblongo – mostram-nos uma “procissão” de figuras históricas ou populares, patéticas, grotescas, tétricas, lúbricas, sinistras e, enfim, com todos os adjectivos que se queiram.

Neste cortejo podemos assim assistir a nadadoras expondo-se ao lado de um lascivo D. Henrique; aos retratos de vice-reis congregando um passado colonial pouco edificante, à omnipresente religião católica – com a Nossa Senhora de Fátima protegendo a Selecção de futebol ou sendo a esperança de uma trupe de aleijados e frankensteins – ou ainda à veneração de um Santo António, ora famélico, ora bonacheirão, ora inquisitorial, ora sedutor.

Todos os cartoons vivem muito das expressões, dos pormenores, das dimensões escolhidas com propósitos claros por João Abel Manta, quase nunca “normais”, explicitamente caricaturadas, porque nada surge ali por um acaso – e muito menos quando os diferentes cartoons constituem séries, como as dos cupidos no bloco Idílio, ou os diversos Camões.

Mas, claro, o fantasma de Salazar “corporiza-se” em pleno na sequência final, em que o ditador surge, primeiro, a comandar a Universidade, depois os militares, a seguir a Igreja, homens engravatados, e por fim, crianças. Aqui, apenas um Salazar, envelhecendo-se neste percurso, tem o seu característico perfil, bem desenhado e perfeito, sempre o mesmo, estático como o país; todos os que o vão acompanhando possuem meras cabeças disformes, dir-se-ia acéfalas. Como o país.

O esclarecedor e esclarecido posfácio de Pedro Piedade Marques – historiador, designer gráfico, tradutor e editor, e principal responsável por esta reedição – é de grande utilidade para o entendimento desta obra-prima do cartoonismo político português do século XX.

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