VISTO DE FORA

Johnny Depp por umas horas

person holding camera lens

por Tiago Franco // junho 8, 2022


Categoria: Opinião

minuto/s restantes


Dos vários espectáculos degradantes que a vida nos vai proporcionando, o pior dos flagelos será a rentabilização da desgraça alheia. Nesse em particular, a cultura norte-americana é dona e senhora de um estatuto único no planeta.

Não há nada, por mais desinteressante ou abjecto, que não possa ser transformado em espectáculo para entretenimento das massas. Tudo – menos um livro, vá – serve para massajar o cérebro de uma sociedade cada vez com maior acesso a informação em tempo real, mas, aparentemente, mais estúpida.

black and white animal drawing

Confesso a minha estupefacção pelo interesse mundial que gerou um divórcio e as suas sequelas. As horas de directos a partir do tribunal, os rios de tinta sobre a toxicidade do casal, as claques que juravam conhecer a verdade, tudo e um par de botas sobre um simples divórcio entre uma estrela planetária de Hollywood e uma senhora que entrou no Aquaman.

Antes que me acusem de sexismo, explico a frase anterior. Eu não sabia quem era Amber Heard até a ver num julgamento transmitido em direto.

Johnny Depp julgo que será conhecido na ilha mais remota da Amazónia, pelo que, com alguma segurança, afirmo que será uma cara mais conhecida que a do papa. E espero, com isto, não ofender cristãos.

Nos dias que correm, ao escrever uma linha, temos de pedir desculpa na seguinte.

Ainda assim, com uma estrela mundial no palco, não consigo entender como é que um divórcio é tema de conversa para milhões. Num mundo cheio de lixo até às entranhas, onde ainda se morre de fome e a guerra se espalha por quatro continentes, discutimos apaixonadamente, e com certezas absolutas, as quezílias do divórcio de dois milionários. Sim, porque se fossem pobres, e se espancassem com mocas de pregos, ninguém queria saber.

Sendo assim, se nada disto me interessa, perguntará o leitor porque estou a requentar o tema?

Porque, no meio do chavascal, há um e um só detalhe que me interessa, com o qual me sinto representado e que, julgo eu, se aplica a qualquer mortal no planeta. Mesmo aqueles que nunca estiveram nas Caraíbas e nem chegaram a piratas.

E é este o detalhe: o direito a não ser difamado.

Não sei se já alguma vez passaram por um tribunal e tiveram que ler folhas e mais folhas contando-vos, por interposta pessoa, quem afinal vocês eram. Usando frases fora de contexto, textos escritos com amor para um filho, acções desesperadas de defesa, coisas que não fizeram, afirmações que não vos pertenciam. Tudo misturado num bolo para provar, num tribunal de estranhos, que vocês afinal são outra coisa que até ali não conheciam. Sem uma única prova palpável, mas com um chorrilho de intenções, planeadas e executadas ao detalhe.

silhouette of birds during sunset

Contando que a sociedade, apenas porque sim, apoiasse uma queixosa quando ela diz que o homem é o culpado de todos os seus problemas e um empecilho ao curso da sua vida. Alguém que deve ser afastado, de tudo e de todos, especialmente de um filho, para bem do menor. Alguém que pode até ser perigoso.

E porquê? Porque uma mulher o afirma. Se não passaram por isso, devo dizer que não recomendo. Não tem o glamour de Hollywood e deixa marcas para a vida.

Amber Heard escreveu um artigo no Washington Post onde, pelas suas palavras, deixou um rasto de suspeição sobre Johnny Depp. O facto de ser uma figura pública à escala mundial, fez o resto. Perdeu contratos, trabalho e ganhou ódios. Se fosse um de nós, teria sido apenas difamado; como era o Johhny Depp, passou a andar com um alvo nas costas.

É-me absolutamente indiferente quem mente mais, quem era mais tóxico ou que transacções financeiras resultaram daqueles arranjos. Há milhares de divórcios por dia. Dizem-me todos eles o mesmo que o do Johhny Depp e da Amber Heard: nada. A falência de uma relação entre dois seres-humanos é privada, íntima. Deve ficar entre quem passa por ela.

Já a difamação não. A difamação é pública, pensada, estruturada, objectiva.

Quem a faz tem um objectivo. Pode ser o de conseguir uma indemnização, a custódia de um filho, mais uns seguidores para o #metoo, a simples destruição de uma vida alheia. É essa a parte da sentença que me interessa. Aquela que afirma que a dignidade de alguém não pode ser posta em causa só porque sim. Que não podemos destruir a imagem do outro para benefício próprio. Que não podemos acusar sem provas e que opinião não é sentença. E, principalmente, que a justiça se obtém num tribunal e não numa folha de jornal ou em likes do Instagram.

Nessa e só nessa parte deste julgamento, digo com algum alívio, voltámos a ganhar.

Engenheiro de desenvolvimento na EcarX (Suécia)

O jornalismo independente DEPENDE dos leitores

Gostou do artigo? 

Leia mais artigos em baixo.