Arquitectura dos Sentidos

Estranho amor dos pombos de falcoaria e dos andróides que sonham com ovelhas eléctricas

brown and blue wallpaper

por Mariana Santos Martins // agosto 3, 2022


Categoria: Opinião

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Actualmente, parece que nem de foguetão se chega a tempo do que se vai passando. Com a qualidade do cálculo matemático deste século, até se aponta para que algo se despenhe na nossa cabeça, e a senhora Miquinhas, a molhar as paredes de casa em Pombal para se prevenir dos incêndios, ainda olha para cima a pensar que vem aí mais um “meteorito” chinês. Por entre as nuvens de fumo, se por enquanto não é outro vírus, pensa a Miquinhas que só lhe faltava mais esta, e que os seguros nem cobrem quedas de aeronaves.

E de repente até cai um no Índico. Coisas que os títulos não prevêem.

A space satellite hovering above the coastline

Bem vistas as coisas, começa a aparentar ser uma apropriação cultural. Isto tudo das tragédias ao virar da esquina é coisa de querer encarnar os filmes apocalípticos de Hollywood, tragédias que cabem em hora e meia de sala e pipocas doces.

Pena a realidade não caber em hora e meia, guerras que duram meses… até enjoa e tira a vontade de tocar os sinos, ainda mais com ondas de calor a derreterem ferro (toma lá Hollywood!, nesta não pensaste tu!) Mas com jeitinho os Balcãs já tocaram os seus, os falcões a esvoaçarem pelo eixo são uma visão histórica muito interessante para os próximos dias, quiçá meses.

Curioso esta coisa agora da apropriação cultural. Pelos vistos é a colonização dos genius loci, absolutamente proibido. Tranças no cabelo? Ofensivo. Rastas? Ofensivo. Macramé? Ofensivo. Queimar livros? Isso pode ser, desde que sejam ofensivos segundo os parâmetros de entidades superiores e benevolentes que nos poupam ao fardo da interpretação.

Nem o Tintim escapa! Esse branquela com a mania de passear pelo mundo a revelar conspirações. Essa bandeira do privilégio! O melhor mesmo é fazer uma fogueira, com fins simbólicos claro, até porque o Canadá pela sua latitude tem de simular umas ondas de calor. Acabamos com essa apropriação de uma só vez que a cultura não pode ser detida!

brown sand with shadow of person

Entretanto, as máquinas tentam ganhar consciência, para nos salvar a todos, ou transformar em pilhas, ou ir atrás de um autocrata a leste de outra linha imaginária… mas uma até se abespinhou com um miúdo a jogar xadrez, por isso claramente também não podemos depositar muita fé na inteligência artificial. Isto, quando falta o processo químico de sintetização e excreção, podem bem desistir da etérea ideia da alma. Nenhuma alma se aguenta neste plano de idiossincrasia sem desfrutar do prazer de bolinhos de bacalhau e a sua inevitável digestão.

Mas o que me preocupa nem é isso.

O que me preocupa é a facilidade com que por entre todo este barulho não nos ouvimos pensar. Muito menos ouvimos o pensamento dos outros. Muito menos sabemos qual importa na verdade.

Trocando por miúdos, perdemos a noção do valor da vida e da morte. O valor da memória que nos dá a todos a vida além morte. As pessoas caem-nos dos braços e morrem e ninguém pára tudo. Ninguém fala incessantemente nisto pelas ruas, pelas avenidas, pelas pontes! Por todo o lado, o implícito encolher de ombros desanimado de pombos com as mãos cruzadas atrás das costas e uma perna gangrenada pela cloaca de vida que lhes sobra, de bico afilado atrás da migalha e um xuto no rabo se se demorar muito nas pernas dos gigantes.

photo of girl laying left hand on white digital robot

Bem, há quem fale, na verdade. Há quem até diga que há males que vêm por bem. Há quem diga sem pestanejar, sem encher a boca de algodão para as escaras que nos vomita em cima, que isto é o equilíbrio perfeito rumo ao fim das alterações climáticas e do ferro a derreter a 40º. Rumo à Utopia! Se um problema nos incomoda o ideal mesmo é mudarmos as variáveis, as componentes, que diabo!, até mudamos a operação e de certeza que o problema quase se resolve sozinho.

E isso não tem de significar que interesses obscenos e supra terrenos, paranormais e secretos desejam ferramentas para nos fechar a todos em gaiolas até falecermos de fome. É só o copo meio cheio. Só isso.

Mas eu vou, à cautela, comprar um square foot de verdejante solo escocês e tornar-me Laird a ver se safo a família da purga da ralé, sugestão da rede.

Mariana Santos Martins é arquitecta


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