VISTO DE FORA

Querida Nancy, não te esqueças de passar em Pristina

person holding camera lens

por Tiago Franco // agosto 4, 2022


Categoria: Opinião

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Tenho desde há alguns anos o objectivo de me reformar na casa dos 50 – ou vá lá, não precisar de trabalhar de sol-a-sol, todos os dias. Para isso acontecer preciso que dois astros se alinhem. Primeiro, que os meus filhos sejam mais ou menos independentes rapidamente – não há cá saídas de casa aos 35. Segundo, que a Economia do Mundo não se dissolva em guerras, e eu não precise de andar a pagar juros altíssimos até aos 120 anos de idade.

No fundo, procuro uma vida como a de Nancy Pelosi, a senhora que, aos 82 anos, tem uma espécie de part-time, razoavelmente bem pago, que lhe permite viajar pelo Mundo sem grandes problemas.

building during day

Acho mesmo muito positivo que uma anciã americana, em vez de passar os seus últimos anos a aborrecer-se na Flórida, prefira ver o Mundo, nomeadamente o Sudoeste Asiático, que é, de facto, fabuloso.

Confesso, porém, que já me chateia um pouco ver que essa mesma cidadã contribua para causar problemas que, provavelmente, ficarão por cá a serem resolvidos quando ela já estiver a fazer tijolo num parque cheio de flores e frases bonitas.

Nancy Pelosi disse, em visita oficial a Taiwan, que “os Estados Unidos não vão abandonar o seu compromisso com a ilha”. Nancy, ouve lá, qual compromisso? Quem é que vos pediu fosse o que fosse? Qual é o compromisso dos Estados Unidos com um território cuja independência o governo americano não reconhece desde 1979?

Se fosse o papa Francisco a visitar o Taiwan e a meter o peito de fora, mostrando apoio contra a tirania, tudo bem… O Vaticano reconhece a independência do Taiwan. Ou se Kausea Natano chegasse à Formosa e dissesse que trazia quatro batalhões, também não me opunha…

Ah, não estão a ver quem é Kausea Natano? É o primeiro-ministro do Tuvalu, país perdido na Polinésia, que também reconhece a independência de Taiwan.

Agora, Nancy Pelosi e os Estados Unidos, que andam há décadas de mãos dadas com os chineses e com os integrados de Taiwan no bolso, querem mostrar apoio a quê e a quem?

Nancy Pelosi parece um vendedor de aspiradores Rainbow, a bater de porta em porta, tentando convencer os inquilinos do Mundo como 2.000 euros podem ser um excelente investimento contra os ácaros. O problema é que o aspirador que ela tem para vender custa bem mais do que 2.000 euros e, em vez de ácaros, limpa vidas.

Qual é a necessidade de abrir as hostilidades com a China numa altura em que esta ainda balança entre o silêncio e o apoio à Rússia na guerra da Ucrânia?

Tirando o José Milhazes, e talvez o Nuno Rogeiro, qualquer outra pessoa perceberá que esta visita, a primeira em 25 anos de um representante do Governo norte-americano, é uma pura e simples provocação à China.

Como se o conflito no Leste Europeu, as mortes associadas e o empobrecimento das populações no Velho Continente não encerrassem dramas e problemas suficientes, ainda temos que levar com a política externa norte-americana, sempre ávida de novos tiroteios a quem possam vender umas balas.

A China, como seria óbvio, já respondeu à provocação e fez exercícios militares ao largo de Taiwan, com disparos reais. Depois da crise dos cereais em Odessa, aproxima-se a escassez de chips e circuitos integrados.

Não tarda, e estaremos todos a comer alfaces ao pequeno-almoço e a trocar computadores por blocos de notas. Isto enquanto a inflação nos vai cortando salários e os bancos vão surripiando o que podem com juros.

green and red pagoda temple

Sim, por favor Nancy, não te distraias dos compromissos e garante que toda a gente ouve essas conferências de imprensa de apoio ao Taiwan. O Mundo está calmo, a vida tem sido um mar de rosas desde 2020, as populações ainda não empobreceram o suficiente. Por obséquio, arranjem-nos mais guerras, mais directos do “teatro de operações”, mais taxas de juro altas e contribuições extraordinárias para o “esforço de guerra”.

A política externa dos Estados Unidos, seja feita por democratas ou republicanos, é essencialmente a mesma, desde que me lembro de ser gente. Extrair recursos alheios, controlar governos, incentivar guerras para vender armas, destruir para vender soluções de construção. Trump – que eu achava o presidente mais idiota da História – resolveu reconhecer Jerusalém, a cidade dividida, como capital de Israel, contribuindo para o aumento dos conflitos na região. Um pirómano no meio de palha seca.

Biden, aparentemente menos ignorante, resolve provocar os chineses e semear novas guerras, enquanto a Europa sofre ainda as consequências de uma guerra a Leste, sem solução à vista.

A opinião pública divide-se novamente e as trincheiras estão formadas. De um lado, os “verdadeiros democratas”, para quem a Rússia e a China são tiranias e devem ser castigadas (enquanto a democracia saudita, aliada, vai compensando os barris perdidos); do outro, malta como eu, que só não quer ter que levar com inflação, escassez e juros altos, para uns velhotes milionários brincarem ao Risco num tabuleiro real.

Acho sempre piada à arrogância ocidental que nos convence, consoante os interesses instalados, quais são as ditaduras boas e más. A China, produtora de absolutamente tudo o que usamos e um amigalhaço do Ocidente para lá colocar fábricas com mão-de-obra barata, está agora no caminho para ser uma tirania.

aerial photography of concrete roads

Tal qual a Rússia, que era uma parceira excepcional para mandar gás e petróleo para as democracias da União Europeia, que não estavam interessadas num presidente que há 20 anos se perpetuava no poder ou financiava a extrema-direita europeia.

Pessoalmente, nunca tive dúvidas sobre o que representam as potências. Sejam elas chinesas, americanas ou russas. Mas não sou hipócrita ao ponto de achar que um bloco é puro e outro conspurcado, e muito menos achar que o Mundo é melhor com apenas uma potência vigente.

Aliás, na minha área profissional, vivendo longe de Portugal, é relativamente difícil trabalhar seja para quem for e fugir de empregadores ou capital oriundo desses blocos.    

Acrescento, para os mais desatentos e fãs das democracias à la carte, que recomeçaram as tensões entre o Kosovo e a Sérvia. A Sérvia, lembre-se, está alinhada com a Rússia e com a China. Estão a imaginar a loucura de um conflito tripartido, desde o mar da China a Donestsk, passando pelos Balcãs?

Imaginem as décadas de filmes que Hollywood poderia fazer com um conflito desta magnitude. Spielberg, Coppola, Tarantino, Sam Mendes, etc.. Óscares, discursos emotivos, palmas de apoio, enquanto os comuns, como nós, vão empobrecendo e adiando a vida.

Entretanto, espero que Nancy Pelosi dê um saltinho a Pristina no regresso. Oportunidades destas não se perdem.

Tiago Franco é engenheiro de desenvolvimento na EcarX (Suécia)


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