a deriva dos continentes

O dia da minha morte

por Clara Pinto Correia // Setembro 8, 2022


Categoria: Opinião

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Só percebi que já tinha morrido há cerca de uns nove anos. Até aí, fui suficientemente ingénua para continuar a considerar-me deveras viva. Está bem que César foi apunhalado no Senado, mas eram meia dúzia de políticos todos eles invejosos e medíocres, exatamente como também nós acabamos por nos habituar a pensar nos políticos. No meu caso, eram dez milhões de portugueses. E ninguém me tinha apunhalado com punhais propriamente ditos. Não há nada mais estranho do que uma pessoa então de cinquenta e três anos, que se sente cheia de saúde e pronta a entrar em acção, ser obrigada a aceitar que já morreu. Mas não somos propriamente nós quem escolhe grande parte do que nos acontece. E quem sou eu para contrariar a vontade de todo o meu País, certo?…


… Quando tudo isto aconteceu, eu tinha lançado o meu último romance, Não podemos ver o vento, dois anos antes. Tinha recebido boas críticas. Tinha dado várias entrevistas.

Mas, já nessa altura, é claro que nem tudo brilhava à maneira indicativa da Estrela Polar.

Por exemplo, quando chegava às rádios, às televisões, ou aos sítios onde as revistas queriam fazer mais uma daquelas suas “produções” que a editora insistia serem uma óptima ideia, ouvia frequentemente comentários como,

Ah! Mas afinal a Clara não está nada gorda!”;

ou

Oh! Está tão bonita! E dizem que anda para aí a meter para a veia e a cair da boca aos cães[1]

ou

Enfim… para quem não está bem da cabeça… o seu raciocínio é interessantíssimo.

Tinha-me habituado facilmente a estas figuras de estilo e a várias outras, e portava-me sempre muito bem nas conversas, como se nada daquilo me doesse, tendo em conta o terrível maremoto de maledicência e a incrível destilaria de destruição que acompanharam “o escândalo das fotografias”; só que – enfim. Estava desempregada, estava silenciada, mas estava viva e a roda havia de voltar a subir.

”Pretinha’, com cinco anos, no papel de São José no Presépio Vivo de Luanda.,

Tenho uma fé a bem dizer insuportável na gentileza das pessoas. Pior ainda, confio no sentido de solidariedade dos portugueses[2]. O que ganhava com isso era estar permanentemente a ser desiludida, mas ao menos saltava todos os dias da cama às sete da manhã cheia de confiança no destino. De cada vez que ia falar com alguém por motivos de trabalho, ia sinceramente convencida de que, dessa vez, o plano resultava e eu voltava, no mínimo, a ser útil.

Como isso nunca aconteceu, acabei por voltar para os Estados Unidos a convite do grande Scott Gilbert, para escrevermos em co-autoria um projecto muito arrojado sobre os efeitos colaterais das técnicas de Reprodução Medicamente Assistida.

É verdade que já lá iam três anos de desemprego, e eu bem tentava, bem tentava, bem tentava, e nunca ninguém me dava trabalho. Mas, sobretudo, aceitei o convite do Scott porque percebi que o meu próprio país me tinha dado por morta e não ia, de todo em todo, tolerar que eu continuasse viva.

Foi no dia em que entrei numa farmácia ao pé de Santa Apolónia, e não estava lá mais ninguém a não ser a menina do balcão.

Assim que me viu, a menina deu um gritinho.

Eu fiquei a olhar para ela, à espera de melhor explicação.

A menina deu uma série de outros gritinhos, de tal forma sentidos que eu acabei por perguntar,

“Está tudo bem?”

“É que a senhora… a senhora… a senhora era uma escritora!”

Era???? Então a que vem esse era? Era e ainda sou! Quer dizer, tanto quanto sei, ainda não morri.”

“Está bem, mas a senhora nunca mais voltou a aparecer… dantes a senhora aparecia sempre… a senhora era uma pessoa que aparecia muito… e… e… como nunca mais apareceu…”

“Não me diga que acha que eu morri só porque não voltei a aparecer.”

“Ah! E garanto-lhe que não sou só eu! Tem a certeza de que é mesmo a senhora que era aquela escritora?

E eu respondi-lhe exatamente o que senti, pela primeira vez de muitas vezes que haviam de vir depois:

Não, minha querida. Não tenho qualquer certeza de ser seja quem for. Agora, se faz favor, pode arranjar-me uma caixa de microlax?

Clara Pinto Correia é bióloga, professora universitária e escritora.


[1] Adoro esta expressão dos cães. Era só ouvi-la e ficava logo bem disposta.

[2] Sou parva, e então? O que é que eu ganhava em ser raivosa?

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