Tinta de Bisturi

IPO de Coimbra: uma oportunidade perdida?

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por Diogo Cabrita // outubro 4, 2022


Categoria: Opinião

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Três décadas após a criação do Instituto Português de Oncologia (IPO) em Lisboa, o Professor Luís Raposo empenhou-se em Coimbra para criar um centro anticanceroso capaz de dar resposta à população do Centro do país. Como se relembra no site do IPO de Coimbra, o seu primeiro edifício sede foi “uma pequena vivenda, adquirida em 1953”. Ao longo das décadas, desde a primeira vivenda, têm-se demolido velhas estruturas , remodelado outras, modernizando equipamentos e espaços, e a instituição não tem parado de crescer.

O predador ali nascido comeu casas, comeu espaços e foi-se agigantando, sem importar se a rua comportava, se as instalações se humanizavam, se os doentes estavam confortáveis. O PS exigia crescer e o PS mandava – bem ou mal, sem ouvir ninguém foi produzindo esta aberração urbanística que agora vai piorar. A cidade em torno dos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC) e IPO sofre consequências violentas da ocupação do espaço.

Entretanto, nos anos oitenta, a mando do PSD, construiu-se o HUC em Celas a 100 metros das vivendas do IPO.

A construção do IPO é uma montra da governação em Saúde que temos tido em Coimbra. O PS lidera todas as administrações e zonas de poder e, desse modo, sem contraditório, aprova reformas e conduz a cidade para um abismo há mais de 40 anos.

O IPO estava obsoleto em hotelaria, em capacidade de crescimento e obviamente estava a ocupar um lugar inadequado no território urbano. Era uma oportunidade de pensar a cidade. As cidades não precisam de espaços como aquele naquele lugar da cidade.

O IPO existe a 100 metros do HUC, mas são estruturas que estão de costas voltadas, não se potenciam apesar da proximidade. Carlos Santos geriu uma, e agora comanda a outra. Carlos Santos deve ter feito parte das negociações desta obra bizarra que agora estão a fazer e vai ser pai da outra que querem projectar para o HUC – a Maternidade de Santa Engrácia.

Danger Construction site signage

Do ponto de vista arquitectónico, não estamos no século XIX com pavilhões, nem estamos no século XX dos edifícios altos. Aquilo é um meio-termo. Chegado ao seu fim útil de existência, podiam ter optado por construir a unidade nova no Sobral Cid semi-abandonado, ou em Taveiro, perto do retail park.

O que surgiria tinha sempre espaço de estacionamento, arruamentos adequados, conforto de paisagem envolvente, lugares de verde e de apoio para fontes de energia renovável. Um hospital de hoje não pode estar na Rua Bissaya Barreto.

Os doentes merecem mais que aquele corrupio de transportes e bombeiros todas as manhãs. Um hospital tem impacto ambiental, impacto social, gera economia e gera ansiedades. Os hospitais do futuro precisam de cuidados paliativos, carecem de lugares aprazíveis de encarar o fim.

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Os jardins, os estacionamentos, a chegada de mercadorias, tudo pertence à complexidade da estrutura hospitalar. Aliás, recordemos as palavras de Artur Vaz, com larga experiência na administração hospitalar: “A adaptabilidade ao terreno de construção, a capacidade e complexidade técnica, tecnológica e funcional do edifício, a correcta definição das circulações (de doentes internos, doentes externos e visitas), a relação com o espaço público, as condições de conforto e segurança para os utentes e a flexibilidade dos espaços hospitalares constituem os principais parâmetros a ter em conta na programação hospitalar”.

Por tudo isto, sabemos que devia ser embargada a obra do IPO de Coimbra e pensada a sua realização noutro lado. Também sabemos como na zona urbana em que está esta instalação o valor de terreno de construção é capaz de pagar a nova obra quase toda.

As obras do edifício principal, facilitadas pela instalação do novo bloco operatório, estão estimadas em perto de 28 milhões de euros e decorrem neste momento as fundações. As obras que vão destruir o trânsito da Biassaya Barreto antes e depois delas, durarão dois anos. Podíamos embargar já.

Também ouvi falar em fazer uma rotunda para aconchegar o trânsito por ali, mas a arquitectura sabe que mais fluxo é significado de mais trânsito, e não de redução. Os hospitais verdes são uma ideia difundida e aceite.

Os hospitais preparados para a consulta à distância com imagem, utilizando as novas tecnologias são o futuro. Vamos perder mais uma oportunidade de fazer melhor porque temos escolhido protagonistas errados. O Socialismo e as suas famílias donas de Coimbra governam o seu conforto, a distribuição de empregos e infelizmente são desprovidos de rasgo, de dimensão.

Diogo Cabrita é médico


N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.

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