VISTO DE FORA

Nós nunca desiludimos os senhores do poder 

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por Tiago Franco // outubro 7, 2022


Categoria: Opinião

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Abro o correio sem grandes esperanças de ler algo interessante. E por correio, atenção, refiro-me à caixinha que está na rua com o meu nome e para onde enviam, ainda, papéis dentro de envelopes. Já não se escrevem cartas de amor pelo que a probabilidade do carteiro me trazer algo interessante é, assim, tremendamente reduzida.

Mas ontem tinha lá duas cartas informativas. A primeira vinha da companhia que fornece o aquecimento da casa, avisando-me que, a partir deste mês, aumentaria os preços em 6%. A segunda, com aquele carimbo azul inconfundível, vinha do banco com a notícia que a taxa de juro do crédito à habitação se aproximava agora dos 5%. Há meses que notas destas voam por todo o lado. Aqui, aí, no meu correio, no do vizinho. Há uma infinidade de problemas que a Europa atravessa e que, mais ou menos, nos vai afectando a todos.

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De repente, vejo o Continente, o Velho, de pernas para o ar por causa de uma pandemia que, afinal, matou tanto como a pneumonia, e de seguida uma guerra que começou a chamar a atenção do Mundo (já que o seu início foi bem anterior à pandemia) e que rebentou com a Economia na Zona Euro.

Pessoalmente, desde 2020, já vi o salário ser cortado duas vezes, o preço da habitação a subir e o custo de vida a disparar, especialmente no sector da energia e dos transportes. Abastecer o carro, no país com o litro de gasóleo mais caro da União Europeia, passou a ser um espectáculo de masoquismo – e ir a casa, um luxo incomportável.

Tudo isto me faz meter um pouco em perspectiva os planos de vida. Ou o que eu imaginava serem planos de vida. Ao fim de 18 anos longe de quase tudo o que é importante para mim, tinha pensado que esta vida com a casa às costas estaria a entrar no seu último capítulo. Ou pelo menos fiz as escolhas profissionais que o iriam permitir no curto prazo.

Mas, de repente, tudo está em risco. De um simples telhado a um regresso a casa. As dificuldades causadas à população europeia afectam quase todos, ou vá, aqueles que dependem do seu trabalho para se sustentarem.

É por isso, mais ou menos óbvio, até algo egoísta, assumo, que a cada dia eu deseje o fim da guerra no Donbass, seja de que forma for. Ouço as notícias com alguma ansiedade e, por mais que queira acreditar no que me vão dizendo, há sempre qualquer coisa que não encaixa, que não bate certo e que, aparentemente, não tem grande correspondência no terreno.

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Há uns meses, não me lembro quantos, via reportagens diárias onde soldados ucranianos diziam que sem as armas de longo alcance não teriam a mínima hipótese contra os russos. Nessa altura, a proporcão era de um canhão para dez e, no terreno, os russos tinham tropas cinco vezes maiores.

De repente – deduzo que depois das armas de longo alcance terem chegado –, o exército ucraniano passou a ser constituído por membros da Marvel. Todo o equipamento russo é antiquado, os soldados mal preparados e, nas recentes palavras do Zelensky, os novos recrutas, dos tais 200.000 que foram mobilizados, já estão a morrer nas ruas da Ucrânia. Todos os dias há tanques russos destruídos e, apesar de nos jurarem que eles não conseguem produzir novos, voltam a rebentar mais uns quantos na manhã seguinte.

Do lado ucraniano não há baixas, nem material perdido nem, aparentemente, gente que não quer estar ali. Os russos podem aparecer com 100.000 ou um milhão que serão todos carne para canhão.

Os bravos ucranianos são o mais parecido que já vi com os Espartanos, portanto, enquanto tiverem 300 bem armados, os russos não têm grandes hipóteses.

A isto juntam-se dois lados diferentes da mesma história. Quando, em Abril, os ucranianos fugiam pela fronteira da Polónia e o Zelensky os obrigava a ir para a frente, não eram carne para canhão. Estavam muito motivados e, como se percebe, iam até à fronteira polaca apenas apanhar balanço para a guerra. Já quando os russos fugiam pela fronteira da Geórgia, era um sinal de que o Putin estava isolado e que os reservistas não estavam para o aturar.

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Tenho a sensação que a informação me chega com algumas perdas – para usar um termo da minha área de formação –, ou então, em português mais corrente, sinto que me estão a pedir para comer gelados com a testa.

Porque…se Putin quer obrigar toda a gente como fez Zelensky, porque não fecha simplesmente as fronteiras e permite que tenham saído 190.000 pessoas? Não devem ter passado todos na calada da noite. O que é que custa dizer, para o lado de cá, nas nossas televisões, que russos e ucranianos não estão propriamente interessados em morrer na guerra? Isso muda o moral de quem assiste, deste lado, no sofá?

É que, convenhamos, a minha ansiedade está ligada com o fim da guerra e, portanto, quando ouço todos estes relatos heróicos de como os russos estão a recuar e os ucranianos a recuperar terreno, fico a imaginar que o fim está próximo. Mas depois lá aparecem mais russos, mais tanques, mais canhões e, quando nos metemos a pensar, percebemos que a Rússia controla uma área do tamanho de Portugal há vários meses. Fico com a sensação que nos contam só algumas partes da história.

Já ouvi uma analista, julgo que Helena Ferro Gouveia, dizer que cerca de 80% do exército russo teria sido dizimado. Pergunto, como é que aguentam os 1.000 km entre Lugansk e Sevastopol? Com rezas e muita fé?

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Eu entendo que guerras se fazem com propaganda e compreendo que cada lado conte a sua história para animar os combatentes. Mas temos nós, absolutamente irrelevantes no conflito, que conhecer apenas um lado da narrativa? Não é mais ou menos óbvio que os russos não são os bananas, equipados com cantis de vodka e penicos na cabeça, que o Rogeiro nos quer fazer crer todas as noites? E não é também claro que, quanto mais tempo tudo isto durar, mais nós empobreceremos e mais afectadas serão as nossas vidas e as nossas famílias?

É que nem a classe dirigente ajuda. Quando se pensava que o Reino Unido tinha atingido o seu “momento Trump” com Boris Johnson, eis que aparece a senhora Truss, uma neo-liberal, que diz, sem se engasgar, que se tivesse a Europa investido mais em armamento e escolhido parceiros energéticos fiáveis, não estaríamos agora nesta situação. Como? Importa-se de repetir?

Emanuel Macron disse numa cimeira de líderes mundiais que por causa do boicote ao óleo russo, já tinham avisado os sauditas que era necessário produzir mais. Entretanto, a nossa estimada Ursula que nos garante que a guerra não pode parar, foi a correr assinar um tratado com o Azerbaijão para substituir o gás russo. Eis-nos aqui com a Arábia Saudita e o Azerbaijão, democracias confiáveis e de primeira água, que, só por acaso atacaram, respectivamente, o Iémen e a Arménia recentemente…

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Portanto, o que esperar dos próximos meses? Em princípio continuar a ouvir que os russos estão de gatas e contar as aldeias libertadas, uma a uma. Quando a coisa abrandar, como aconteceu agora, fala-se durante cinco dias sobre Lyman, com a ajuda de cinco generais que nos explicarão, 30 vezes, a sua importância estratégica.

Pelo meio a Lagarde sobe mais 0.5% as taxas de juro, e ficam mais umas centenas, das classes desfavorecidas, sem casa própria. A inflação chega aos dois dígitos (como no Reino Unido) e os salários são devorados pelo custo de vida.

Os Estados Unidos seguem a política de intimidar russos, norte-coreanos e chineses. A Ucrânia pode ser uma boa fonte de receita com a venda de gás e de armas, mas, bom, mesmo bom, era alargar o conflito a Taiwan e Pyiongyang. Não temo ainda problemas que cheguem.

Pelo meio chegam notícias, em rodapé, de milhões de deslocados na Somália que tentam fugir à seca onde, por causa da falta de produção local e o aumento dos custos de importação, meio milhão de crianças está em risco de morrer à fome.

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Reparem: em pleno século XXI, meio milhão de miúdos arriscam morrer de fome num planeta onde milionários velhos gastam biliões dos impostos em armamento. E nós assistimos a isto achando que a guerra pelo Donbass é o nosso maior problema, a nossa causa e, aparentemente, a razão certa para justificar o nosso empobrecimento.

Dificilmente as elites, que nos controlam, conseguiriam escrever um argumento tão bom se deixadas à sua sorte. Mas foi também precisa a nossa colaboração, alienação, desinteresse e, diria até, ignorância. E senhores, com a precisão de uma pancada de esquerda do Federer, uma e outra vez, nós, de facto, nunca os desiludimos.

Tiago Franco é engenheiro de desenvolvimento na EcarX (Suécia)


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