a deriva dos continentes

… E tá-se tudo a passar…

por Clara Pinto Correia // Novembro 11, 2022


Categoria: Opinião

minuto/s restantes

“Torna-se cansativo deixar de poder acreditar na espontaneidade.”

António Cabrita

O mundo não tem pressa


Solo de saxofone.

Voz:

Jonas está agarrado ao seu saxofone/ A namorada deu-lhe com os pés pelo telefone/ E ele encontrou inspiração numa notícia de jornal/ Acerca de uma mulher que foi chamada a tribunal/ Por ter assassinado uma criança recém-nascida/ E o juiz era um homem que prezava muito a vida/ E a pena foi agravada por tudo se ter passado…

Três acordes de piano.

Voz:

DO LADO ERRADO DA NOITE...


… O que é que eu estou para aqui a fazer?

Pensei que fosse evidente. Estava a citar o Jorge Palma, não era? E estava a fazer a citação completamente de cor e salteado, porque foi isso mesmo que os outros senhores fizeram, e se eles podem eu também posso, porque também sou filha de Deus. Se a demagogia dos políticos já chegou ao ponto de andarem ao soco em público usando uns contra os outros as palavras de um homem que fugiu a salto para França no trilho por onde se escapava às garras do Antigo Regime, e que depois sobreviveu longos anos a cantar no metro, e que depois voltou a casa na euforia da Revolução mas ainda se passaram no mínimo três décadas até que as pessoas deixassem de considerá-lo um completo marginal…

… bem, deixem-me respirar, coitado do Jorge, que pouca vergonha…

… porque vocês viram, não viram? Ou fui só eu que vi? Aquela sessão inacreditavelmente penosa do Parlamento, em que tanto o nosso Primeiro como as bancadas da Oposição se desdobravam em mortais empranchados e flic-flacs à rectaguarda para começarem cada um dos seus discursos ocos com uma boa citação do Jorge Palma? Que horror. Era o António Costa, com aquele seu ar de pasha repimpado, todo confortável em cima da sua maioria absoluta que tem vindo a tornar-se cada vez mais desconfortável, a fechar qualquer coisa que não queria dizer nada com um sorridente…

“… e, citando o Jorge Palma, Enquanto houver ventos e mar/ A gente vai continuar…

Para ser atacado pela bancada do PSD com um retumbante…

“… Ó Senhor Primeiro Ministro, se é para citar o Jorge Palma o senhor está é Frágil, está tão Frágil que já nem consegue ser ágil[1]

… seguido de qualquer outra coisa que também não queria dizer nada; para logo a seguir ser agredido por um deputado da direita que se apressou a bradar, sem sequer acrescentar a seguir mais qualquer coisa que não quisesse dizer nada…

“… e o Senhor Deputado escusa de fazer de conta que repudia as políticas do governo, porque, para citar o Jorge Palma, anda há imenso tempo a implorar-lhe Encosta-te a mim

… o que foi um desfecho verdadeiramente horrível, porque, de todas as grandes canções do Jorge Palma, este lean on me[2] em português é a única que pode considerar-se verdadeiramente foleira[3].

E é pena os Senhores Deputados irem todos para casa cedo, senão ainda poderíamos ter assistido a um encerramento operático, em que toda a gente, nas bancadas e na assistência, cantava em coro polifónico uma das verdadeiras grandes canções de Jorge Palma…

“… São sete da tarde e tá-se tudo a passar/ Uns andam em frente e outros querem virar…”

Uma vez mais, citado de cor.

Não se metam comigo no que toca a citar o Jorge Palma. Ao menos isso.

Clara Pinto Correia é bióloga, professora universitária e escritora


[1] Citação, ainda por cima, neste caso feita de forma incorrecta para servir os propósitos dos oradores.

[2] Em português, “lean on me” traduz-se, literalmente, por “Encosta-te a mim”.

[3] Opinião que talvez seja só minha, mas esta crónica também é.

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