VISTO DE FORA

A emboscada em Kherson… já aconteceu?

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por Tiago Franco // novembro 16, 2022


Categoria: Opinião

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Esta semana atingimos o pico da contra-informacão na Guerra da Ucrânia, e a minha expectativa era perceber de que forma os entusiastas, das bombas pela paz, iam justificar o que se passava em Kherson.

Como não percebo nada de estratégia militar – algo que, em princípio, faria de mim um excelente comentador para a Sic Notícias –, limito-me a ouvir as explicações de quem, em teoria, sabe. E depois começo a tentar ligar os pontos, evitando “aprender História no Rambo III” – esta frase não é minha, por isso vai em aspas, mas não me canso de a usar.

blue and yellow striped country flag

Durante sete dias ouvi várias análises à retirada dos russos de Kherson e a sua passagem para a margem esquerda do Dnipro. A tese mais repetida era que tudo acabaria numa emboscada das forças russas aos combatentes ucranianos. Não sei se se lembram dos diretos, com os correspondentes no local, a afirmarem que soldados russos entravam em lojas de roupa e saíam de lá vestidos à civil, continuando a andar pelas ruas incógnitos, mas armados.

A primeira coisa que pensei foi que, ao contrário das anteriores retiradas, feitas à pressa e com tudo destruído, desta vez os russos saíam tranquilamente, com horário marcado e transmissão em directo para o Mundo. Em simultâneo, os ucranianos, que estavam ali a poucos quilómetros, vendo algumas das tropas de elite da Rússia a abandonarem as posições, não dispararam um único tiro. Para quem não percebe nada disto, como assumidamente é o meu caso, parecia jogo combinado.

Putin e o seu ministro da Defesa falavam, na televisão russa, sobre a retirada e os benefícios de colocarem as linhas de defesa na outra margem do rio, beneficiando da barreira natural. Se não havia dúvida quanto à encenação, a minha curiosidade era perceber a quem se destinava a mensagem.

Zelensky mantinha o discurso desconfiado, e dizia que não só não acreditava na retirada pacífica como afirmava que os russos estavam a deixar para trás milhares de minas terrestres.

Os habituais representantes da NATO nas nossas televisões insistiam na história da emboscada e algumas vozes, poucas, diziam que toda esta narrativa era falsa, que “retiradas não se anunciam”.

Depois das eleições norte-americanas corre a notícia que Joe Biden terá puxado a ficha que mantinha a guerra ligada e que terá chegado a acordo com a Rússia. É por esta altura que se reafirma que, mesmo sem telefone vermelho, Washington e Moscovo nunca deixaram de falar.

Aqui já começo a ouvir alguma coisa que parece fazer sentido.

Desde que os norte-americanos assumiram, há uns meses, numa visita do seu secretário da defesa aos Bálticos, que procuravam desgastar os russos nesta guerra, que se tornou claro que seriam eles a determinar o seu fim. A posição mais conservadora dos republicanos sobre o fim do apoio militar, e financeiro à Ucrânia e o resultado das eleições intercalares, obrigaram Joe Biden a tomar uma posição.

Poucos dias depois das eleições, numa conferência na Casa Branca, um porta-voz do governo disse que cada lado nesta contenda já teria perdido cerca de 100 000 vidas e era altura de se falar em paz.

Reparem que, durante meses, o Ocidente declarava rios de mortos russos e quase nenhuma baixa ucraniana. De repente, temos um empate técnico e todos dizemos que sim. Que serve.

Kherson é libertada sem combates e a população pró-ucraniana enche a cidade. Zelensky vai até lá, à tal cidade cheia de minas e russos disfarçados, e passeia sem qualquer problema.

O Kremlin dá uma desculpa esfarrapada, que pretende poupar a vida dos seus soldados e por isso retira. Todos percebemos que o Kremlin nunca quis saber de soldados seus e provavelmente está a oferecer uma vitória ao Zelensky, a troco do que se seguirá. Curioso é que da primeira vez em que o regime de Putin está a mentir sem sequer disfarçar, Rogeiro e Milhazes afirmam que essa mentira é apenas para esconder a incapacidade de segurarem a cidade. Ou seja, para eles, Kherson foi mesmo uma vitória militar e a retirada a única hipótese possível dado o cerco ucraniano.

Ninguém se parece lembrar que, nesta guerra, os russos continuam em maioria de efectivos e armamento, mas aceitamos como normal que as tropas de elite fujam com medo. Ou que Putin, um sanguinário, perca a única capital que tinha na mão desde o início, sem espernear muito.

Zelensky que passou a semana da retirada a dizer que nem um centímetro a Ucrânia cederá, chega a Kherson de sorriso amarelo e anuncia o início do fim da guerra. Mas como assim? Que condições tem hoje Zelensky para se sentar a uma mesa com o invasor, que continua a ocupar terrenos no Donbass e na Crimeia, que não tinha na semana passada?

Tem ele a grande vitória em Kherson: anunciada, televisionada e consentida. É essa a porta de saída para esta guerra. Os russos desistem da ligação a Odessa e àquele território no meio da Moldávia que ninguém sabe onde fica (Tiraspol – Transnístria) e “congelam” o mapa mais ou menos onde estão acampados neste momento.

Por essa razão é que, provavelmente, enquanto fugiam para “poupar vidas” em Kherson, gastavam uns quantos esqueletos mais a norte, conquistando territórios na zona de Donetsk. O objectivo estará traçado e parece ser uma ligação do Donbass à Crimeia, pela margem esquerda do Dnipro.

O discurso de Zelensky, antes e depois de chegar a Kherson, explicam, só por si, a quantidade de propaganda misturada com informação que andamos a receber estes meses todos. Que a guerra caminha para o fim, parece agora óbvio, até porque os seus comandantes assim o dizem – Estados Unidos e Rússia – e os executantes não podem mais do que obedecer. Que ninguém pode sair daqui derrotado também julgo ser consensual, e aí Kherson terá um papel importante.

Resta-me perceber como é que se vão anunciar perdas de território como vitórias, e se tanto Zelensky como Putin sobreviverão politicamente ao desfecho desta guerra. Ou como diz o meu filho, na tese que me apresentou, pode ser que o Zelensky desobedeça ao Joe e siga a luta por conta própria. Seria nobre, respondi-lhe, mas suicida.

Funcionou só uma vez, eu sei: mas era o Stallone que empunhava a metralhadora.    

Tiago Franco é engenheiro de desenvolvimento na EcarX (Suécia)


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