PELOTA EM PELOTA

Isto não é o Record. E a moral é para os pobres, também aviso já!

black net

por Tiago Franco // novembro 21, 2022


Categoria: Opinião

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O diretor deste jornal acha que não tem sarna suficiente para se coçar e resolveu pedir-me para fazer uma crónica diária sobre o Mundial. Até começar a escrever estas linhas, não sabia de que forma deveria abordar um evento futebolístico num jornal que não pretende rivalizar com o Record (e, ainda bem, digo eu) e uma competição onde, até ver, a bola é mesmo o que menos interessa.

Ninguém percebe muito bem por que raio se joga um Campeonato do Mundo num país que não respeita os direitos humanos e onde a democracia é um elemento tão estranho como a própria bola.

Felizmente, eu tenho a resposta: porque eles pagaram para isso; e a FIFA não é – roubando as palavras de Vítor Bento, presidente da Associação Portuguesa de Banco – uma instituição de caridade.

E, meu caros, sejamos claros: se os qataris compram o Paris Saint-Germain, os emiradenses compram o Manchester City, os sauditas compram o Newcastle e os russos compram o Chelsea, e todos, em tempos diferentes, concorrem em competições da FIFA e da UEFA em desigualdade de circunstâncias com a concorrência, devido à sua capacidade financeira, porque deveria o Mundial ser diferente? O dinheiro tudo compra, a moral é para os pobres.

Como dizia Lobo Xavier, na SIC Notícias: “não há prova de que tenham morrido 6.500 trabalhadores na construção dos estádios”. Podem ter sido só 6499, acrescentaria eu. Ainda vou investigar se ele também tem umas estufas em Odemira.

Aproveitando a justa indignação com o evento, sugeria assim que não guardássemos a nossa revolta apenas para o desporto-rei. Tentemos contribuir para o fim da barbárie em intervalos menores do que quatro anos.

person playing soccer

E, pensando em países que não respeitam os direitos humanos, ou que não são grandes fãs de democracias, diria que podíamos:

 a) não comprar t-shirts da Adidas feitas no Bangladesh;

 b) não comprar bolas da Nike cozidas por miúdos no Paquistão;

 c) não comprar iPhones porque são feitos na China;

 d) não andar de carro a combustão porque o petróleo veio provavelmente de uma ditadura;

 e) não andar de carro eléctrico porque o lítio foi sacado a uma região pobre deixando os malefícios para os locais; 

 f) não ir de lua-de-mel para a Tailândia;

 g) não comprar copos no IKEA feitos na Turquia;

 h) tomar banho de água fria porque o gás português vem da Argélia;

 i) deixar as especiarias indianas em paz.

Portanto, é só dar cabo da lista de Natal, mudar hábitos alimentares, voltar a andar de metro e regressar à Moviflor, e a coisa faz-se.

Depois do dia 18 de Dezembro, o tal em que o nosso Fernando nos prometeu que receberíamos a selecção em festa, há que manter a coerência.

Feitas as apresentações, falemos de bola então… Mas amanhã…

Ontem, subiu ao relvado o Qatar e, hoje, no segundo jogo do Mundial, digno de nota só a selecção do Irão a ser trucidada por uma rajada capilar britânica.

Até ver, não houve grande história para contar, e o único facto de relevo parece ser uma fotografia de um jogo de xadrez entre Messi e Cristiano Ronaldo.

Que abertura de Mundial teria sido. Mas veio o Morgan, e também foi bom.

Até amanhã.   

Tiago Franco é engenheiro de desenvolvimento na EcarX (Suécia)


N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.

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