Correio Trivial

Vou boicotar o Campeonato do Mundo de Futebol

black and white abstract painting

por Vítor Ilharco // novembro 22, 2022


Categoria: Opinião

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Finalmente estou de acordo com a imensa maioria do povo português incluindo, obviamente, os experts de Facebook, comentadores de café, taxistas e barbeiros.

É absolutamente condenável que se aceite que o Qatar – um país que viola constantemente os Direitos Humanos, considera as mulheres como seres inferiores, não admite liberdade sexual e explora os imigrantes – organize um campeonato de futebol.

Por acaso é o mesmo país que foi visitado por um nosso ministro dos Negócios Estrangeiros numa altura em que fomos mendigar que nos comprassem a nossa dívida soberana.

woman in white dress standing on gray concrete pathway during daytime

E também um dos mais visitados por empresários portugueses desejosos de conseguirem ganhar os concursos para construção de empreendimentos megalómanos.

E ainda aquele que é procurado por centenas de jovens recém-formados, portugueses e de outros países modernos, democráticos e europeus, que o consideram o país ideal para reconhecer os seus talentos e lhes pagarem o valor merecido pelos seus desempenhos.

Mas isso não é para aqui chamado.

Independentemente dessas realidades, estou de acordo em que um cidadão consciente não deverá assistir a jogos de futebol em países onde haja tamanho desrespeito pelos verdadeiros valores da democracia.

Essa chamada de atenção, dos críticos do Mundial em Qatar, funcionou, para mim e para muitos milhares de adeptos do futebol, como uma verdadeira epifania.

Por mim, já decidi, não tornarei a entrar num estádio de futebol em Portugal.

Continuarei a apoiar o meu Benfica (tal como continuarei a apoiar a Selecção Nacional), mas agora, depois destes alertas sobre o Qatar, não poderei esquecer os milhares de imigrantes explorados no nosso país, onde trabalham de sol a sol, dormindo em camaratas nojentas, em troca de um salário mínimo, ao qual é descontado o valor da comida e “alojamento”.

Nem como são qualificados por alguns políticos democraticamente eleitos pelos meus concidadãos, na “Casa da Democracia”.

Também terei de recordar os números assustadores das mulheres espancadas e assassinadas, em casos de violência doméstica, no nosso país, e, principalmente, as decisões de alguns magistrados que tentam justificar esses actos.

Mesmo que quisesse – e não quero –, também não esquecerei o “bullying” de que são alvo, desde as escolas, aqueles que têm preferências diferentes no que ao sexo diz respeito.

Problema que acompanha essas minorias ao longo de toda a vida, independentemente da sua profissão e classe social.

Ainda há dias um ex-ministro denunciou um Procurador da República que terá afirmado que aquele só estava em liberdade porque o Juiz que tal decidira o fizera por ser gay.

close-up photography of person lifting hands

Logo, não merecedor de credibilidade.

Portugal é, a exemplo do Qatar, um país racista, xenófobo, machista.

Para mais… pobre.

Tem todos os defeitos do Qatar, mas falta-lhe o dinheiro para comprar as consciências dos críticos.

Os dirigentes do Qatar quiseram o Mundial e compraram os votos necessários para tal, há doze anos! Em 2010!

Durante todo este período, ninguém se revoltou.

Todos os pequenos sinais de desagrado foram sendo silenciados com centenas de milhares de dólares.

As obras de construção dos estádios e infraestruturas causaram 15.000 mortos, garante uma Amnistia Internacional que, ao que parece, só soube disso depois de todos os estádios estarem construídos e de todas as empresas construtoras terem recebido as fortunas que cada um deles custou.

brown game pieces on white surface

Algumas consciências podem ter sono pesado ao ponto de só despertarem quando as horas de descanso deixam de ser pagas.

Resta saber se era pior o seu silêncio ou este despertar carregado de hipocrisia.

A luta contra os males apontados ao Qatar é absolutamente imperiosa e urgente.

Podíamos começar lutando, no nosso país, contra todos e cada um deles ao invés de nos querermos mostrar superiores.

Eu próprio, que informo, em título, que irei boicotar o Campeonato Nacional, poderei abrir uma excepção se me oferecerem os bilhetes.

Vítor Ilharco é secretário-geral da APAR – Associação Portuguesa de Apoio ao Recluso


N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.

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