PELOTA EM PELOTA

No está(ú)dio da Sport TV é mais feijão com arroz

black net

por Tiago Franco // novembro 23, 2022


Categoria: Opinião

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Ao quarto de dia de competição, e no momento em que escrevo, três selecções confirmaram credenciais: Espanha, Inglaterra e França. É certo que nenhum deles defrontou adversários com grandes créditos, mas, ao contrário de Argentina e Alemanha, que também defrontaram equipas teoricamente mais fracas, não deixaram qualquer dúvida sobre quem seria o vencedor.

A equipa inglesa parece prometer algo mais do que o habitual, dispondo uma geração que foi finalista no último Europeu e acabou o Mundial de 2018 em quarto lugar. Inglaterra é, para mim, um mistério constante nestas competições. Pensar-se-ia que, para quem inventou este jogo, deveria ver o sucesso bater-lhe mais vezes à porta. Mas não. Mais de um século depois, tudo se resume a um Mundial bem “caseirinho”, o tal de 66, e sucessivos falhanços fora dessa bolha.

Durante muitos anos, as selecções inglesas eram um reflexo do típico jogador inglês: pontapé para a frente e luta pelo ar. Fossem eles do Cazaquistão, e dir-se-ia que era chutão para o ar – mas como em Inglaterra, já se sabe, tudo se faz com algum chá, o estilo era definido por ser um futebol mais “vertical” ou “directo”, como dizia o saudoso Gabriel Alves.

No fim do século XX – veja-se o Mundial de 98, em França –, a selecção inglesa começou a aparecer com jogadores que não castigavam tanto a bola: Beckham, Ince, Scholes, Owen, McManaman, Fowler, a que se juntou a enchente de dinheiro que desabou na Premier League, fez com que a competição interna inglesa começasse a atrair os melhores jogadores e treinadores do Mundo.

Há uma clara evolução no jogador inglês, também por essa explosão da Premier League, e hoje, em vez do enfadonho “jogo vertical”, Inglaterra apresenta intérpretes capazes de segurar, rodar, driblar. Aproximou-se dos princípios de jogo que apenas selecções com jogadores mais tecnicistas tinham.

Hoje, liderados por Harry Kane e com Mount, Foden, Sterling, Saka, Rashford, Alexander-Arnold, Grealish, entre outros, já é outra música. As últimas duas competições mostraram que têm qualidade. Resta saber se conseguirão confirmar os bons indicadores neste Mundial… e mostrarem-nos como é que um país inventa um jogo para apenas o compreender 100 anos depois.

Entretanto, neste grupo E, e depois da surpresa oferecida pelo Japão – vencendo a Alemanha por 2-1 –, teremos uma segunda jornada explosiva, onde os alemães serão obrigados a vencer a Espanha de Luís Enrique, que joga naquele irritante tiki-taka que já ninguém suporta, mas poucos conseguem contrariar. Num Mundial onde tantos jogadores emblemáticos se despedirão, Manuel Neuer corre o risco de ir bem mais cedo para casa.

Nestas competições que centram agora a atenção do Mundo, e fazem com que tudo o resto pareça parar (deixei de ouvir falar na Ucrânia), há uma autêntica legião de jornalistas, analistas e ex-jogadores que vão comentando. E noto, por vezes, nos painéis portugueses uma certa arrogância no tratamento aos intérpretes.

Vejo assim jogadores que tiveram carreiras pouco mais do que medíocres a falarem de quem está entre a elite, e num Mundial, como se soubessem sequer o que aquilo é. E pior: ouço jornalistas a falarem de internacionais pelos seus países com um desprezo que me envergonha.

Assim, enquanto Espanha triturava a Costa Rica (7-0), via eu, na Sport TV, o Miguel Prates a ir ao Olimpo de cada vez que Busquets ou Gavi tocavam na bola.

Já quando esta chegava a Azpilicueta, o nosso Miguel dizia: “pois, com Azpilicueta tem de ser mais feijão com arroz” – que é uma forma cool dos comentadores actuais, quando não usam a palavra da moda “diferenciado”, se referirem a um jogador de quem se espera apenas bola no pé, passe simples, recebe e toca. Nada de inventar, porque pode partir um tornozelo.

Ora… eu acho que é preciso ter mesmo uma falta de noção para estar sentado, num estúdio de televisão, a dizer que outro homem, que por acaso está no 11 de uma selecção como a espanhola, e que há 10 anos é titular do Chelsea (não é do Portimonense), e que ganhou todos os títulos nacionais e internacionais de clubes, é um gajo de “feijão com arroz”.

A jogar no sofá e a mandar postas de como seria se nos levantássemos, não há pai para nós. Somos “diferenciados” nessa arte. E “verticais”, mas rasteirinhos.

Tiago Franco é engenheiro de desenvolvimento na EcarX (Suécia)


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