ARQUITECTURA DOS SENTIDOS

Eu não conto histórias, eu ouço

brown and blue wallpaper

por Mariana Santos Martins // novembro 29, 2022


Categoria: Opinião

minuto/s restantes


E pergunto-me porquê, em silêncio (e por vezes falo alto, mantenho a criança viva, não resisto a esse prazer, de atirar pedras ao charco).

É como mergulhar na água. Fundo. A sensação de asfixia. A privação de oxigénio no cérebro que se governa no mínimo, confuso pelo som denso que se abate nos tímpanos e aperta com força, luz estranha e fria que entra nos olhos, ar líquido que jorra nariz acima.

Que difícil que é pensar, que difícil que é saber. Quanto mais proclamar.

(Quem proclama são os psicopatas.)

Procurar as histórias exige caminho e é penoso. Exige mergulhos. Mas o mais difícil não é isso. O mais difícil é mantermos o papel de observador intensamente. O mais difícil é ter uma opinião e ter o seu contrário também.

(Podemos ser ambos.)

Certamente que Adolf Hitler era um carinhoso dono para seus cães. (Preferem a menção da sua namorada ou dos seus animais domésticos?) Aliás, até era vegetariano. Mas ninguém quer ver a humanidade do monstro ou do psicopata, até porque mergulhando e gerindo o cérebro nos mínimos com os sentidos confusos pela agressão, é importante engavetar e priorizar.

(São sempre patriotas os psicopatas?)

E vende-se a ideia de que boa que é a pátria. Esse “grande substantivo abstracto” como li o António dizer (o Lobo Antunes). Que medo mete a pátria, que a qualquer momento timonada por psicopatas nos manda para a guerra e para a fome. (Golo!)

Festejemos as poucas alegrias que nos pode dar a bandeira, que a “bucha é dura, mais dura é a razão que a sustém” (como disse o Torga, e depois o Zeca também).

O pai dá e o pai tira.

Certamente que urge salvar o planeta. Desde sempre. Que maçada a nossa existência e acima de tudo a existência dos outros. E acima de tudo a diferença. E a indiferença também. Que confronto, que agressão aos sentidos (e o cérebro a ficar sem ar).

O ar já esteve tão sujo que, ainda mais com a fome, as pessoas tinham síncopes no meio da rua (foi há pouco tempo). Andavam descalças (e era proibido) mas afinal se pelo menos não estiver frio na verdade isso até faz bem à coluna (ai, as ironias dos paradigmas). Agora está o ar mais limpo, mas não chega, e continuam as crianças a colarem-se às paredes com palavras de ordem.

Constrói, destrói, constrói de novo. O papel do arquitecto é conduzir a água para fora, porque entrar, ela vai entrar sempre.

(Tenho pensamentos que se intrometem enquanto tento rever as histórias que ouvi.)

person holding burger bun with vegetables and meat

Um homem de ar macilento e pescoço esguio explica-me que a sua qualidade de vida aumentou e a sua saúde melhorou desde que se tornou vegan. Fico feliz por ele.

Outro homem com ar robusto e pele curtida do sol troça dele e, enquanto leva o guisado à boca, explica que vegetal não puxa carroça. Rio-me. De facto não consigo imaginar que puxe. Imagino até que por entre a honra de respeitar cada animal ao ponto de não o matar não seja fácil conciliar isso com as necessidades do corpo, embora evidentemente seja possível.

Conciliar o transcendente com o terreno não é fácil (e o cérebro sem ar debaixo de água), é um exercício de uma vida inteira (para alguns nem é para uma vida só), mas é, acima de tudo, o caminho de cada um.

(O individualista ou o colectivista.)

toddler's standing in front of beige concrete stair

O individualista defende de pedra e cal a sua liberdade, a sua livre iniciativa, a sua independência e autonomia (a pedra ergue, a cal queima). A democracia parece ser o sistema perfeito para conciliar e proteger o individualismo (será? Ou não tivemos uma ideia melhor até agora?)

O colectivista defende o bem comum, o enxame, o formigueiro, a estrutura massiva e maciça a progredir num só corpo, numa só mente, ninguém fica para trás (tirando os danos colaterais, isso acontece, é a vida, não é?)

Pelos vistos, os malvados individualistas querem continuar a comer guisado com vacas poluidoras em flatulência excessiva, das quais temos muita pena do sofrimento e morte delas mas, ao mesmo tempo, mais vale elas não serem tantas porque… O planeta é finito. (E alguém disse que éramos oito mil milhões na última contagem de cabeças de gado! Melhor explicar aos miúdos que se colem às paredes e que não tenham filhos!)

Pelos vistos também, os malvados colectivistas querem obrigar-nos a todos a comer alface e farinha de larvas, mas é pelo bem do planeta, e porque coitadinhos dos animais. E a acção de cada um importa! (Curioso, parecem um individualista neste ponto…)

brown grasshopper on persons hand

E como disse o Herman neste momento “eu, é mais bolos.”

A mãe cria e a mãe morre.

Eu quero saber porque é que se está a morrer mais no mundo. Agradecia que permitissem cavar essa verdade em vez de cavar o buraco entre especulações. Eu não quero contar histórias, quero ouvir.

Alguém informe por favor os Tribunais e todos os Jornalistas, que nós os comuns não queremos ideologias, só gostávamos que, para variar, por entre a dureza da bucha, nos dissessem a verdade.

Mariana Santos Martins é arquitecta


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