VISTO DE FORA

Quando tentei adormecer com a Inês Pedrosa

person holding camera lens

por Tiago Franco // janeiro 23, 2023


Categoria: Opinião

minuto/s restantes


Tentar acompanhar a realidade portuguesa quando se vive a 3500 quilómetros e se divide o tempo por quatro empregos é um desafio, admito. Não só o tempo me foge pelos dedos, como a actualidade nacional anda a uma velocidade que, por vezes, se torna impossível de seguir.

Dou por mim a usar os tempos “mortos”, seja lá isso o que for, para correr as fontes todas e perceber como param as modas. A parte complicada deste processo é mesmo separar as notícias do refugo: a informação, em vez da propaganda; as notícias “plantadas”, em vez da realidade.

Quando finalmente chego ao que interessa, é porque já tive que mastigar horas de publicidade e de discursos ou comentários absolutamente irrelevantes.

black crt tv on brown wooden table

Não sou, nunca fui, fã de teorias da conspiração, mas questiono, com alguma firmeza, a presença de alguns comentadores na praça pública com narrativas que se repetem, independentemente das situações.

Pergunto-me de que servirá ao grande público ouvir, uma e outra vez, as mesmas pessoas que nos tentam apresentar uma realidade alternativa como se todos, ou todEs (isto está mesmo a acontecer ou é só piada?), fôssemos uma cambada de idiotas.

Comecei a ronda pelo Froes. Ouvi-o recomendar a quarta ou quinta dose da vacina da covid-19 e garantir que esta tinha uma robustez espectacular. Ele usou a palavra “espectacular” como se fosse o desempenho de um aspirador num chão repleto de migalhas.

Faz-me alguma impressão que pessoas como o Froes continuem a ter palco. Honestamente. Não tenho nada contra vacinas em geral, nem sequer contra as da covid-19 em particular, mas, sabendo o que todos sabemos hoje, vendo as estatísticas ao fim de três anos, não entendo mesmo como é que um assalariado das farmacêuticas vai fazer publicidade do seu produto para a SIC Notícias, em horário nobre.

Filipe Froes numa das suas muitas entrevistas em noticiários da SIC Notícias.

Acho imoral que uma pessoa que é paga por uma farmacêutica vá convencer os portugueses, num tema de saúde pública, que a solução para todos os males é comprarem o que os seus empregadores tentam vender.

Era bom que nos lembrássemos, pelo menos, que enquanto nos convenciam que estava em curso uma pandemia mundial e era preciso unir esforços, os Estados gastaram milhões com as farmacêuticas, sem que estas abrissem a patente das vacinas.

Portanto, fortunas foram feitas à custa do erário público e nem por isso se erradicou um vírus, que há muito sabemos ser endémico, e tão pouco conseguiram os Estados, que pagaram tudo à custa de mais endividamento, passar a produzir a vacina.

Portanto, tenham pelo menos a decência de não continuarem a impingir mais vacinas no Jornal da Noite, em nome do lucro. A Pfizer do Froes não está preocupada com mortes; está interessada no lucro. O Froes faz a parte dele, que é vender. Os directores da SIC deveriam fazer a sua parte, que seria fechar-lhe a porta.

two white and purple bottles

Mudei de canal e lá estava um comentador a falar da pressão que agora exerciam sobre a Alemanha para que, na conferência de Ramstein, concordasse em ceder os famosos tanques Leopard 2.

Os Estados Unidos estão a fazer a figura do primo bêbedo nas férias de Verão na Praia da Rocha, nas confusões noturnas na Kadoc. Não sei se ainda existe, sou do século passado. “Vai que eu estou aqui atrás”, dizia ele quando os locais queriam armar confusão com os forasteiros. Ahhh… as noites de Verão.

Os Estados Unidos tentam convencer um país responsável pela morte de milhões de europeus há cerca de sete décadas, russos incluídos, que devem enviar tanques para matar mais uns quantos a leste. Faz sentido, para os americanos, entenda-se. Para a administração Biden isto é aquela pastilha que todos encontrávamos no fim do Epá (outra referência à velhice, que deprimente). Um mimo que faz toda a diferença.

Quanto mais gente envolverem neste banho de sangue, quanto mais tempo a guerra durar, mais eles lucram com a venda de gás, armas e enfraquecimento do concorrente russo. Não há absolutamente morte alguma que possa parar o interesse económico americano nesta chacina. Apenas a política interna, o risco de perder eleições e o limite de endividamento (pode ser que o Senado coloque um travão à loucura) podem alterar a política externa do Governo de Biden.

Joe Biden, Presidente dos Estados Unidos.

Portanto, dito isto, se os europeus fizerem o papel de fantoches e os ucranianos continuarem confortáveis com as próprias mortes, tudo bem.

Felizmente, os alemães são menos capachos do que os outros e ficaram por uma solução intermédia. Enviam poucos tanques, cerca de 10% da quantidade que os russos colocam no terreno, e dessa forma continuam no limbo. Não ficam com a factura de mais sangue, não queimam pontes com os russos nem podem ser acusados por ucranianos. Fazem os serviços mínimos e obrigam o resto da Europa a ir a jogo, se quiser.

No fundo, não fazem nada, parecendo que fizeram algo. Foram inteligentes. A Ucrânia está cada vez mais dependente dos ventos internos americanos. Para bem de Zelensky, é bom que Joe Biden não se lembre de mais outro caixote de documentos classificados na garagem lá de casa. Apesar da realidade, do fracasso da conferência de Ramstein e da cada vez maior desvantagem ucraniana no terreno, o comentador de serviço tentava convencer toda a gente que isto seria um “game changer” (que muda o jogo). Não é. É apenas a garantia que os mesmos vão continuar a morrer, pelo menos, por mais uns meses.

world peace sign on wall

Já só com um olho aberto resolvi ir dormir e, naqueles minutos finais antes de começar a sonhar com alces, ainda tentei ouvir o debate na RTP onde aparecem Raquel Varela, Inês Pedrosa, Joaquim Vieira e o Rodrigo Moita de Deus. Discutiam a greve dos professores  e, à excepção de Raquel Varela, a posição dos restantes era a de “a greve é um direito mas…”.

Todos sabemos que numa frase dividida por um “mas” nada, mesmo nada, do que foi dito antes do “mas” verdadeiramente interessa. Inês Pedrosa foi particularmente cáustica com os professores dizendo que, depois de dois anos de um ensino instável, passagens facilitadas, confinamentos e escolas fechadas, os alunos agora enfrentavam novo ano em que estavam a ser prejudicados pela ausência de professores. De igual forma, entendia que fazer greve durante a negociação, não era moralmente correcto.

Devo dizer que espero, um destes dias, ouvir Inês Pedrosa a criticar qualquer coisa que o Governo PS faça ou, em alternativa, a manter a coerência. Desde logo, porque a mesmíssima Inês passou os tais dois anos, semana a semana, a defender toda e qualquer medida governamental no combate à pandemia.

Inês Pedrosa no programa “O Último Apaga a Luz”, da RTP.

Quando António Costa, por dica dos Froes da vida, encerrava espaços de lazer (alguns ao ar livre) mas dizia que os comboios da linha de Sintra e as fábricas eram espaços seguros, a Inês abanou a cabeça em concordância. Quando as escolas fecharam sem mortes nas crianças, a Inês achou muito bem porque isso defendia os mais velhos. Quando os mais velhos tinham vacinas e, em teoria, estavam protegidos, as escolas fechadas continuavam a ser uma boa aposta.

Quando quatro milhões de portugueses andavam na rua a cumprir tarefas que não podiam parar – as tais essenciais – a boa da Inês dizia-nos que o país parou, confinou e que isso tinha salvo a humanidade. Quando o Governo se endividou para pagar layoffs, a Inês ficou contente, quando as empresas despediram as pessoas e ficaram com o dinheiro, a Inês deve ter achado que, de facto, ia ficar tudo bem.

Quando, por fim, saímos dessa merda toda, dois anos mais velhos, consideravelmente mais pobres, em risco de perder a habitação e com a função pública com salários absolutamente miseráveis e congelados, a amiga Inês acha que o grito de revolta está a prejudicar os alunos. Os mesmos que, durante dois anos, foram impedidos de ter uma escola normal por causa de pessoas como a Inês que olhavam para a Suécia e para as suas escolas cheias de crianças, como o resultado de um Estado de negacionistas. 

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O que dizer sobre a coerência? Se o Miguel Relvas, depois de “concluir” um curso universitário passando apenas a quatro cadeiras, pode discutir a moralidade dos membros do Governo, no papel de senador no comentário político, por que razão não haveria a Inês Pedrosa, depois de defender o encerramento das escolas durante dois anos, achar que as lutas laborais é que prejudicam os alunos? Tudo normal.

Abri os dois olhos e perdi o sono. Não entendo mesmo o que fazem estas caixas de ressonância no debate público. Não volto a dormir com a Inês. Dá-me cabo da bílis.

Tiago Franco é engenheiro de desenvolvimento na EcarX (Suécia)


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